A carta parte II

Ana Clara chorou a maior parte do caminho. Não conseguia parar de pensar no seu quarto confortável e na boa vida que havia sido roubada de si. Enquanto o carro sacolejava por ruas estreitas e depois por uma estrada de terra, o estado de espírito dela piorava cada vez mais.
Quase todos os vizinhos que estavam vivos tinham entrado no comboio. Só ficou um casal de irmãos que tinham uma mãe doente em casa e não quiseram ir. Eles moravam no quarto andar e Ana Clara as vezes se encontrava com eles. Lembrar da despedida deles a fez chorar ainda mais.
Até que enfim chegaram. Era um pequeno sítio na encosta de um morro e com um rio por perto. A casa que havia no local havia sido derrubada pelos terremotos, matando os caseiros. Mas Ana Clara se surpreendeu com tanta gente. Havia umas trinta pessoas, entre vizinhos do prédio e outras que ela não conhecia. Todos estavam trabalhando para reerguer a casa e cuidar de uma pequena plantação de milho. Sem pensar muito, ela foi ajudar, esperando que o trabalho pesado ajudasse a apagar as mágoas.

O caminho até a cidade era longo. Não podiam mais contar com os carros, sem combustível a vários anos, então tiveram que ir a pé. Saíram pela manhã, atravessaram o rio seco, e então Clarice entendeu porque estavam se mudando. O terremoto havia secado o rio, explicou um dos anciãos. Uma grande massa de pedras devia ter bloqueado a passagem da água a muitos quilômetros de distância da comunidade.
O primeiro dia de viagem foi penoso. Os campos estavam desertos e o mato crescia por todo lugar. Ainda não dava para ver nem o menor sinal da cidade.
Clarice tinha muita curiosidade de saber como era a cidade. Sei pai contava que tinha vindo de lá, e sua mãe também. Ele contara várias vezes como conhecera sua mãe quando ela chegou no acampamento, chorosa e de mal humor. Só de pensar nas histórias que seu pai contava Clarice sentiu um aperto no peito. Mas tinha uma história que ele nunca contava: como sua mãe havia morrido.
Ela sabia que tinha sido a primeira criança a nascer no clã e que sua mãe morrera no parto. A primeira geração depois da tragédia de Nibiru, uma geração que não vira nada do que tinha acontecido antes. Hoje sua geração era maioria no clã, e os homens e mulheres que tinham visto e vivido aqueles momentos de horror estavam aos poucos indo embora.
No segundo dia já dava para ver a cidade. Um grande galpão aparecia ao longe. Um grupo de batedores foi enviado na frente para saber se a área estava limpa. Eles voltaram no dia seguinte relatando não ter encontrado ninguém. Seguiram até lá em passo rápido, antes que a noite caísse.
Clarice estava vendo pela primeira vez a cidade. Casas esparsas, um muro longo e algo que a intrigou muito: asfalto. Apesar de rachado em muitos lugares, era mais duro e mais quente que as pedras. Havia muito desse asfalto em todos os lugares, formando longos caminhos. Clarice estava abismada. Devia haver muita gente morando naquela cidade para precisarem de tantos caminhos.
Chegaram ao galpão. Havia algumas letras na fachada. Clarice reconheceu um P, um H e um Y. Ela sabia ler porque o pai havia ensinado. Ao se lembrar disso, entrou pelos portões com lágrimas nos olhos, para passar a primeira noite da sua vida na cidade.

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