A carta parte III

Depois de alguns meses a situação dos refugiados no sítio era das piores. Quando eles estavam quase finalizando a reconstrução da casa, um terremoto colocou tudo abaixo. O combustível estava no fim para que os carros fossem buscar material de construção na cidade e o desânimo tomou conta de todos. Muitos abandonaram o local para não mais voltar.
Até que alguém teve a idéia de se mudarem para uma caverna que existia no morro. A entrada era estreita, mas o salão principal era amplo. Trabalhando com suas últimas forças, os refugiados ampliaram a entrada da caverna e pela primeira vez desde a passagem de Nibiru eles tiveram algo para comemorar.
Ana Clara, particularmente, tinha muitos motivos para comemorar. Os meses de trabalho duro tinham emagrecido seu corpo mas curado as feridas da alma. Estava mais serena e conformada com o seu destino. Mas grande parte da sua animação vinha da companhia de um jovem de sua idade, Pedro José. Os dois viviam sempre juntos, conversando e rindo. Até que em uma noite de lua cheia ele e Ana Clara tomaram uma decisão muito importante. Alguns meses depois essa decisão mudaria a vida de ambos, e da comunidade inteira.

Passada a primeira noite na cidade, a prioridade do clã era encontrar comida. Dividiram-se em vários grupos e saíram todos, um para cada lado, com ordens de voltar até o sol estar a pino.
Clarice estava no grupo chefiado por um dos anciãos mais novos, chamado Abel. Ela gostava dele, pois tinha sido amigo do seu pai. Ela gostaria de conversar com ele e perguntar coisas que não sabia sobre sua mãe, mas o momento não era propício.
O grupo de Clarice seguiu a direita, passando pelo longo muro da fábrica em que estavam abrigados. Havia pouca coisa por ali. A maior parte eram outros galpões grandes. Abel continuou firme em frente, e então a paisagem mudou aos poucos, com casas aparecendo esporadicamente entre terrenos baldios e montes de entulho.
Clarice não pode deixar de notar que as casas eram todas muito parecidas entre si. Abel explicou que aquilo era um conjunto habitacional, um lugar onde viviam as pessoas mais pobres, os operários. Os mais ricos viviam em estruturas chamadas prédios, explicou ele, apontando para um que se via ao longe.
Já tinham vasculhado muitas casas e encontrado quase nada, somente algumas roupas que poderiam ser úteis. Quando Abel já pensava em retornar, uma casa chamou a sua atenção. Estava mais conservada que a maioria, sem mato no quintal. E ele podia jurar que tinha sentido cheiro de comida.
O grupo se aproximou cauteloso. Apesar das janelas abaixadas, era possível perceber que havia movimento. Abel pulou o muro e ia se aproximando de uma janela para ver melhor quando foi atingido por um tiro.
Um grupo de homens armados saiu atirando da casa e começou a perseguir os invasores. Clarice correu como nunca tinha corrido antes, correu até seus pés sangrarem e os pulmões arderem. Quando finalmente parou de correr, se deu conta que estava sozinha. Completamente, totalmente e irremediavelmente sozinha, perdida num labirinto de casas iguais. Então ela chorou e amaldiçoou o dia em que havia nascido.

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