A ilha – parte 1

Já era madrugada mas o Ancião não conseguia dormir. Seus olhos estavam fixos na ilha que ficava ao largo da pequena baia da Vila das Lágrimas. A ilha tinha o mesmo nome do povoado de pescadores, mas nem mesmo o Ancião sabia porque. Quando ele era criança tinha ouvido o seu avô constar histórias sobre uma grande tragédia acontecida na época do avô dele, mas o tempo havia apagado qualquer lembrança disso.

A ilha não ficava longe do povoado, mas ninguém ia lá. Do lado que ficava defronte à vila dava para ver um paredão maciço de rochas que terminava no mar e um morro coberto de árvores. Do outro lado havia uma pequena praia, e isso era tudo. Supostamente ninguém morava ou já tinha morado lá.

Mas todas as noites dava para ver uma luz no topo do morro. Parecia com uma fogueira, apesar dos mais esclarecidos acharem que era só fogo-fátuo. Fosse o que fosse, havia três dias que o brilho havia desaparecido. O Ancião não sabia explicar, mas a ausência da luz o deixava nervoso.

Em breve os pescadores sairiam para a pescaria da madrugada. Não seria bom que encontrassem o ancião parado na praia até aquela hora. Ainda inquieto ele voltou para a sua cabana, rezando para que o mistério da luz desaparecida fosse esclarecido.

Às vezes as pessoas tem que ser mais cuidadosas com aquilo que desejam.

Uma pequena multidão cercava o estranho forasteiro assim que ele pisara na Vila das Lágrimas. A maior parte nunca tinha visto alguém como ele: negro, mais alto do que todos no povoado, vestindo uma túnica preta que cobria todo seu corpo, o estranho não parecia se importar com os olhares e com o sol da manhã, enquanto aguardava pacientemente que o Ancião o recebesse.

Quando ele entrou na cabana do Ancião, a muvuca se desfez. Havia muito trabalho a ser feito. Os peixes da pescaria da madrugada tinham que ser separados para serem enviados pela única estrada que ligava a vila à cidade, enquanto as mulheres cuidavam da pequena horta de verduras e da plantação de mandioca que garantiam o sustento da comunidade quando a pescaria era fraca.

Foi com surpresa que menos de meia hora depois de ter entrado o forasteiro saiu acompanhando pelo Ancião. Eles se dirigiram até a praia, e quando o Ancião pediu para que seu próprio neto Valdemir levasse o estranho até a Ilha das Lágrimas a surpresa se transformou em assombro.

Valdemir era um dos mais valentes navegadores do povoado. Havia sobrevivido a muitas tempestades e era tido como corajoso e habilidoso. Ele nunca se oporia a uma ordem de seu avô, e ele correu para buscar a sua melhor jangada para cumpri-la.

O assombro se transformou em medo quando os dois embarcaram e seguram direto para a ilha. Ninguém se aproximava de lá se não fosse por acidente, mas Valdemir sabia o que estava fazendo e navegou com segurança. Quando contornou a ponta de pedra na extremidade da ilha e desapareceu de vista, alguns acreditavam que ele não voltaria.

Mas ele voltou. Não tinha grandes novidades para contar. O estranho não pronunciara uma só palavra durante todo o trajeto. Valdemir o deixou numa praia na outra ponta da ilha e partiu de volta sem olhar para trás. E isso era tudo.

O Ancião se recusou a dar qualquer explicação sobre a sua ordem, e como sua voz era lei, ninguém mais tocou no assunto. Naquela madrugada ele vigiou a ilha ansioso. Quando a luz começou a brilhar novamente no topo, ele suspirou aliviado. Tinha feito a escolha certa.

Mas às vezes até os anciãos se enganam.

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