A ilha – parte 3

Lindalva tentou esconder, mas chegou a um ponto que não dava mais. Ela estava grávida. De acordo com a parteira, ela estava de três meses. A conclusão era cruel: ela tinha engravidado durante os três dias que tinha sumido misteriosamente.

A garota foi pressionada para contar quem era o pai. Ela seria perdoada pelo erro que cometera, dizeram. Mas a garota só chorava e dizia que ainda era virgem. Não se lembrava de ter dormido com nenhum homem.

Dada a negativa veemente de Lindalva, seus avós acreditaram que ela tinha sido vítima de estupro e o trauma a tinha feito esquecer de tudo. E foram até o ancião para que ele desse o seu conhecido chá abortivo para a garota.

O Ancião pediu para falar com Lindalva. Depois de uma longa conversa, o Ancião declarou que a garota não ia abortar. Esse era o costume desde os tempos imemoriais. Quem decidida se queria interromper a gravidez era a mulher, e só a ela competia a decisão. Lindalva não queria abortar, então não seria feito.

Os avós de Lindalva confrontaram o Ancião em público. Iam levar a garota para a cidade, onde seria feito o aborto. O Ancião se manteve impassível. Se eles fizessem isso, poderiam arrumar as suas malas. Não havia mais lugar para eles na comunidade.

A vila ficou em peso ao lado do Ancião. Tirando algumas poucas vozes descontentes, que não ousavam mais do que resmungar, os avós de Lindalva não tinham nenhum apoio. Por fim, eles desistiram. Ela teria o bebê.

O Ancião tinha coisas mais importantes para se preocupar do que a gravidez de Lindalva. A época de baixa nas pescarias devia ter começado, mas nesse ano as coisas tinham sido diferentes. Havia fartura de peixe para a época, o que era ótimo para os negócios. Mas o Ancião se preocupava assim mesmo. As coisas não estavam normais, e ele temia que algo muito ruim estivesse para acontecer.

E os meses se passaram, e foi numa quinta-feira de madrugada que Lindalva entrou em trabalho de parto. A parteira chegou rápido, e logo outras mulheres do povoado também. O bebê parecia estar em posição normal e até chutava a barriga da mãe. As contrações haviam começado a pouco tempo O bebe nasceria antes do meio-dia, estimou a parteira.

Mas não foi isso que aconteceu.

A parteira nunca tinha visto algo parecido. O bebê dava a impressão que não queria nascer. Por mais que Lindalva fizesse força ou que a parteira usasse todas as suas técnicas, nada fazia o bebê deixar o ventre materno. No meio da tarde ela admitiu a derrota. Um cavaleiro foi às pressas até a cidade buscar um médico, mas quando ele chegou era tarde demais para salvar Lindalva. Uma cesária de emergência ainda conseguiu salvar o bebê. Mirrado, careca e desdentado, mas com um bom par de pulmões. E negro.

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