A ilha – parte 4

Augusto estava olhando o mar. Ele gostava de ficar ali na praia olhando para a ilha que ficava ao largo. Nem ele sabia porque, mas aquele lugar o atraia mais do que a vila onde morava.

A vila agora estava bem maior do que quando Augusto nascera, a quinze anos atrás. Novas pessoas haviam chegado. A fartura incomum de peixe havia atraído de volta antigos pescadores que tinham abandonado o local. O número de casas e barcos crescera. A prosperidade chegava aos poucos. A energia elétrica tinha sido instalada no ano anterior, e em algumas casas dava para ouvir o som dos rádios recém comprados.

Os mais velhos consideravam os rádios uma bruxaria bem elaborada afinal, como era possível um aparelho ser capaz de transmitir a voz de alguém que estava a quilômetros de distância na cidade ?

Bruxaria. Essa palavra causava arrepios em Augusto. Os garotos o chamavam de “filho do bruxo” e contavam a história do estranho que havia chegado à vila e partido para a ilha pouco antes dele nascer. Augusto ficava aborrecido com as brincadeiras cruéis dos amigos, mas conforme ficava mais velho crescia dentro de si a sensação de que não pertencia àquele lugar.

Caminhando de volta para a casa dos tios que o criavam, Augusto tomou a sua decisão. Ele iria até a ilha, custasse o que fosse preciso.

Naquela madrugada o Ancião estava inquieto em sua casa. Uma sensação que ele não sabia definir estava sufocando-o. Se levantou para andar um pouco, mas suas pernas vacilaram. Uma dor no peito o invadiu. Tentou pedir ajuda, mas não conseguiu. Então, perto do fim, ele teve um vislumbre do futuro.

De manhã Augusto não foi encontrado em casa. Um dos barcos havia sumido. A conclusão era óbvia, o garoto fugira. Quando foram avisar o Ancião, o encontraram morto. Seu rosto enrugado ainda estava marcado pelas lágrimas.

Valdemir se ofereceu para ir até a ilha atrás de Augusto. Ninguém o impediu quando ele subiu no seu melhor barco e foi em direção à ilha. Quando se aproximou do paredão rochoso, ficou claro para os que estavam na praia que algo estava errado. Ele estava rápido demais, e se aproximando perigosamente das pedras. Eles o viram lutar com as velas em vão. O choque foi tremendo. Valdemir só teria sobrevivido por milagre.

Alguns se ofereceram para ir a ilha procurar por Valdemir, mas a chuva fraca de caia desde a manhã se transformou num temporal e abortou qualquer tentativa. A chuva caiu mais forte e mais forte, e de madrugada veio o vento. Na manhã seguinte, não restava mais nenhum barco inteiro na praia.

Os que tentaram buscar ajuda na cidade tiveram que voltar. A tempestade havia derrubado uma grande massa de pedras na estrada. Era impossível passar. A Vila das Lágrimas estava isolada.

Mas nada está tão ruim que não possa piorar.

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