De volta à ilha – parte 2

Timóteo não saia muito de casa. Aos 89 anos ele já não trabalhava mais como pescador, mas fazia questão de se manter ativo remendando as redes dos seus amigos. A notícia da morte da equipe de  TV chegou até ele só a tarde. Ele suspirou fundo e ficou olhando por um longo tempo para a Ilha das Lágrimas. Depois chamou um dos seus bisnetos e pediu para ele ir até a mercearia do Onesíforo com um recado: ele queria vê-lo naquela noite, sem falta.

Quando Onesíforo chegou, trouxe com ele a sua filha Priscila. Timóteo deu um jeito de levar a garota até a outra sala e a deixou entretida com suas outras netas e bisnetas. Voltou para a sala onde seu neto mais velho o esperava trazendo uma caixa de madeira que colocou entre eles.

– O que é isso, vô ?

– Dentro dessa caixa há toda a história da Vila das Lágrimas, hoje Vila Nova Esperança, meu neto. Abra com cuidado.

A mão de Onesíforo tremia quando ele abriu a caixa. Dentro, uma mixórdia de papéis de variadas épocas. Alguns enrolados como pergaminhos, outros encadernados toscamente. Ele pegou um aleatoriamente. Estava escrito numa caligrafia primorosa, letra redonda e clara.

– Porque você está me dando isso, vô ?

– Porque o destino da vila está em suas mãos, meu neto.

– Mas…como ?

– Leia os papéis. Aí tem toda a história. Uma força maligna já tentou destruir essa vila duas vezes. E agora está prestes a tentar a terceira vez. Cabe a você a tarefa de impedi-la. Seu tataravô falhou nessa missão, mas agora é sua vez. Se você falhar, estaremos todos condenados.

– Vô, o senhor está bem ?

– Não estou gagá, se é isso que você está pensando. Se não acredita em mim, leia. Leia tudo o que está nessa caixa.

– Com o senhor conseguiu todos esses papéis ?

– Com seu tataravô, oras. Que conseguiu com o tataravô dele. Você é o filho mais velho do meu falecido filho mais velho, esses papéis são seus por direito. Mas não deixe mais ninguém ler.

– E o senhor diz que a vila foi quase destruída duas vezes e eu posso impedir que ela seja destruída de novo ?

– Não sou eu que digo. É a história. Leia tudo e você vai entender.

– Tá bom, vô. Eu vou ler tudo depois a gente conversa.

– Faça isso rápido. E não deixe ninguém saber.

Mas o que ninguém sabia mesmo era que atrás da porta um par de curiosos olhos femininos estava observando tudo o que estava sendo dito.

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