De volta à ilha – parte 4

Era uma praia curta, com poucos metros de extensão. A esquerda o paredão de pedras que dava para o continente se erguia ameaçador. Em frente, alguns arbustos que depois se transformavam em árvores de uma pequena floresta, que subia morro acima.

Era aquele morro que ela tinha que subir, decidiu Priscila. Era de lá que vinha a misteriosa luz que ela via todas as noites da janela do seu quarto. Muitas vezes ela se sentira atraída por aquela estranha luz no meio do oceano. Agora ela sabia porque. Tinha ficado claro nos escritos que o bisavô dera a seu pai. Ela era a oferenda, a única que poderia salvar a vila. Priscila não sentia medo. Era o seu destino, estava escrito, só poderia ser ela. Porque ninguém mais conseguia enxergar a luz que ela via todas as noites ? Só podia ser um sinal.

Priscila não se incomodou em amarrar a canoa que a trouxera até a filha. De qualquer forma ela não voltaria mesmo. Só sentiu uma pontinha de saudade de Aquila e do pai. Mas era o preço a se pagar. Resoluta, ela limpou a areia do corpo e caminhou em direção a floresta. Estava quase chegando lá quando ouviu trovões. Chovia na vila, mas estranhamente na ilha não. Com certeza era outro sinal, pensou ela.

A floresta era mais escura do que ela esperava. As copas das árvores tampavam quase que totalmente a luz do sol.  O cheiro de folhas no chão era agradável. Aqui e ali um pássaro piava. Apesar dos pesares, era um bonito lugar. Priscila se sentia como se tivesse vivido ali antes, como se já tivesse caminhado por aquelas árvores e ouvido aqueles pássaros. A subida ficou de repente mais pronunciada. Era difícil caminhar com o chão coberto de folhas, mas seus pés pareciam ter vida própria e sabiam para onde ir. E então ela viu, e perdeu o fôlego por um momento.

Era um sólido muro de pedras. Coberto de musgo em algumas partes, passava a imagem de ser inexpugnável. Ela correu a mão pelas pedras. Estavam quentes, acolhedoras. Mais do que nunca, agora ela saiba onde ir: para a esquerda, pensou ela. O caminho se tornara pedregoso. Seus pés ficaram machucados. Mas ela não podia desistir. Ela não ia desistir.

E lá está ela. A porta. E lá está ele. De túnica, manto e capuz, como ela sempre o imaginou. Priscila se aproximou lentamente. A energia que emanava dele era tão intensa que era palpável no ar.  Quando ficaram frente a frente, ele abaixou o capuz e olhou firmemente nos seus olhos. Ele não precisou dizer nada. Ela sabia o que fazer. Se ajoelhou.

- Eis-me aqui. Se eu for uma oferenda aceitável, estenda a sua mão e adie a vingança.

About these ads
Publicado em Contos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 325 outros seguidores

Categorias
Arquivos
Estatísticas do Site
  • 657,002 visitas

Member of The Internet Defense League

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 325 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: