Os melhores inícios de livros

Um bom início de livro pode não ser uma garantia que ele será bom, mas prender a atenção do leitor já nas primeiras linhas é um trunfo e tanto. Diferente desse texto, cujo primeiro parágrafo será absolutamente comum, sem nada que o distinga dos outros centenas de posts desse blog.

Listas com os melhores inícios de livros são comuns por aí nas bandas da internet. Curiosamente, listas com finais de livros não são tão comuns. Deve ser porque para apreciar um bom final a pessoa tenha que ter lido o livro inteiro, mas isso é só um palpite.

Nas listas que eu consultei por aí, alguns inícios de livros são praticamente unanimidades. Entre eles, o que mais encabeça as listas é estranho início do não menos estranho A metamorfose, de Franz Kafka:

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

Outro início citado com frequência é do genial Gabriel Garcia Marques e seu monumental, para não dizer épico, Cem anos de solidão:

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Ma­condo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons­truídas à margem de um rio de águas diá­fanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enor­mes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para men­cioná-las se precisava apontar com o dedo.

Dois autores russos também são muito escolhidos entre os melhores. Não li nenhum dos dois, mas não dá para ignorar Tolstói em Anna Kariênina. Logo na primeira frase ele quebra o coco e não arrebenta a sapucaia:

 Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Tudo era confusão na casa dos Oblónski. A esposa ficara sabendo que o marido mantinha um caso com a ex-governanta francesa e lhe comunicara que não podia viver com ele sob o mesmo teto. Essa si­tuação já durava três dias e era um tormento para os cônjuges, para todos os familiares e para os criados. Todos, familiares e criados, achavam que não fazia sentido morarem os dois juntos e que pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estariam mais ligadas entre si do que eles.

Nabokov…bom, eu nem vou falar escrever nada. Fiquem babando com o início de Lolita, senhoras e senhores, e conformem-se que vocês jamais irão escrever nada tão bom em toda a vida de vocês.

Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca, para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando apenas uma meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

Depois de dois autores russos, um americano para contrabalançar. Também nunca li O apanhador no campo de centeio, e talvez nem deva ler dado o histórico de psicopatas assassinos que já leram essa obra. Mas vocês hão de concordar comigo que o J.D. Salinger mandou bem nesse início, não ?

Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins — não é isso que estou dizendo — mas são sensíveis pra burro.

Um bom início de livro não precisa ser necessariamente longo para entrar na galeria dos melhores. O francês Albert Camus somente na primeira frase de O Estrangeiro destila mais talento que metade dos “best-sellers” de hoje em dia:

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem”.

E, para ninguém dizer que não falei das flores dos brasileiros, temos o inoxidável Machado de Assis e suas Memórias Póstumas de Brás Cubas frequentando boa parte das listas de melhores inícios também. Confesse: você leu esse livro só porque os professores pediam na escola, não é mesmo ?

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Mas, se você prefere um autor mais recente, ou que ainda esteja vivo, ou ambos, Luis Fernando Veríssimo pode ser a sua escolha, com o início de O Jardim do Diabo:

Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. Todo homem, depois dos quarenta, abdica das suas fomes, salvo a que o mantém vivo. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça.

Curiosamente, na primeira frase o Veríssimo estava, digamos, fazendo uma homenagem a um início de livro também considerado um dos melhores. Com vocês, Herman Melville e sua obra prima Moby Dick:

Chamem-me simplesmente Ismael. Aqui há uns anos não me peçam para ser mais preciso —, tendo-me dado conta de que o meu porta-moedas estava quase vazio, decidi voltar a navegar, ou seja, aventurar-me de novo pelas vastas planícies líquidas do Mundo. Achei que nada haveria de melhor para desopilar, quer dizer, para vencer a tristeza e regularizar a circulação sanguínea. Algumas pessoas, quando atacadas de melancolia, suicidam-se de qualquer maneira. Catão, por exemplo, lançou-se sobre a própria espada. Eu instalo-me tranquilamente num barco.

Esses são basicamente os inícios de livros ditos “clássicos” que você vai encontrar na maioria das listas por aí na internet. Mas tem outros que merecem ser citados, na minha modesta opinião. Continuando na senda os autores brasileiros, tem como não achar belíssimo o início que Domingos Pellegrini dá ao seu infanto-juvenil (ainda existe essa classificação ?) As batalhas do Castelo ?

Mais ou menos lá pelo meio da Idade Média, mesmo o reino mais medíocre tinha seus castelos, suas cortes com príncipes e princesas, duques e condes, viscondes e arquiduques e assim por diante, todos com seus criados e pagens, amas e babás, cachorros e cavalos, pombos e falcões. As cortes eram protegidas por cavaleiros, tropas de arqueiros e lanceiros, todos alimentados, por pelotões de cozinheiros e padeiros, nos castelos cercados de ovelhas e pastores, as ovelhas engordando para morrer e os pastores tão magros que nem pareciam viver.

Não há também como ignorar a simplicidade do humor britânico de Douglas Adams no início de O Restaurante no Fim do Universo, o segundo livro da “trilogia de cinco livros” do Guia do Mochileiro das Galáxias:

A estória até aqui:

No princípio o Universo foi criado.

Isso irritou muitas pessoas e foi amplamente encarado como um passo errado.

Já o alemão Patrick Süskind não é dado a sutilezas e nos apresenta de cara à vilania do seu anti-herói logo no arrebatador primeiro parágrafo de O Perfume:

No século XVIII viveu na França um homem que pertenceu à galeria das mais geniais e detestáveis figuras daquele século nada pobre em figuras geniais e detestáveis. A sua história é contada aqui. Ele se chamava Jean-Baptiste Grenouille e se, ao contrário dos nomes de outros geniais monstros, como, digamos, Sade, Sait-Just, Fouché, Bonaparte, etc., o seu nome caiu hoje no esquecimento, isto certamente não ocorreu porque Grenouille tenha ficado atrás desses homens das trevas mais famosos em termos de arrogância, desprezo à raça humana, imoralidade, ou seja, em impiedade, mas porque o seu gênio e a sua única ambição se concentrava numa área que não deixa rastros na história: o fugaz reino dos perfumes.

E mesmo os best-sellers podem ter bons inícios, já que o número de vezes que um livro é vendido não tem qualquer relação com a sua qualidade, ao contrário do que parecem supor – supor não, decretar – certos detratores de um escritor brasileiro muito famoso. O despretensioso, mas não desprovido de beleza A garota das laranjas de Jostein Gaarder está aí para provar essa tese, fisgando o leitor logo nas primeiras linhas:

Meu pai morreu há onze anos. Na época, eu nem havia completado quatro. Não esperava voltar a ter notícia dele, no entanto agora nós estamos escrevendo um livro juntos.

E, para terminar essa lista bem particular, vou citar uma mulher. Taylor Caldwell passou literalmente a vida toda pesquisando para escrever o romance bíblico Médico de Homens e Almas, e logo no início ela dá o tom que vai seguir no resto da sua obra:

Lucano nunca soube com certeza se gostava ou não de seu pai. Seria possível admirar homens simples e despretensiosos. Seria possível honrar homens sábios. Mas seu pai não era simples nem sábio, embora se considerasse pertencente à classe destes últimos.

E você, quer citar mais algum início de livro que considera bom ? Os comentários estão aí para isso mesmo. Não dói e não paga nada, nem CPMF. Tá esperando o que ?

Anúncios

2 comentários sobre “Os melhores inícios de livros

  1. “Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da imbecilidade, foi a época de acreditar, foi a época da descrença, foi a época da Luz, foi a época da Escuridão (…)”. É com estas palavras que o inglês Charles Dickens descreve o ambiente da Revolução Francesa no livro “A História de Duas Cidades”, publicado em 1859.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s