1978, o ano com três Papas

Capela Sistina, Vaticano, 26 de agosto de 1978. Cento e onze cardeais estavam reunidos para a quarta votação do conclave que elegeria o sucessor do Papa Paulo VI. Na terceira votação, realizada pouco depois das quatro da tarde, Albino Luciani, patriarca de Veneza, estava na frente, para a surpresa de muitos, inclusive dele mesmo.

Luciani foi a para a quarta votação do dia sabendo que provavelmente seria Papa. Votou mais uma vez no mesmo candidato: Aloiso Lorscheider, o cardeal brasileiro. Quando o resultado foi anunciado, pouco depois das seis da tarde, Luciani estava eleito. Ele pensou em recusar o cargo. O relato que David Yalop fez do momento em seu livro “Em nome de Deus” é preciso:

Quando o resultado final foi anunciado, houve uma explosão de aplausos entre os presentes. Eram 6:05 da tarde. (…) As portas da Capela Sistina se abriram e diversos Mestres de Cerimônia entraram, acompanhando o Camerlengo Villot. Encaminharam-se para o lugar em que Albino Luciani sentava. Villot disse:

– Aceita a sua eleição canônica para Supremo Pontífice?

Todos os olhos estavam fixados em Luciani. O Cardeal Giappi descreveu para mim aquele momento.

– Ele sentava três filas atrás de mim. Mesmo depois de sua eleição, ainda hesitava. O Cardeal Villot formulou a indagação e ele continuou a hesitar. Os Cardeais Willebrands e Riberio estavam visivelmente encorajando-o.

Luciani finalmente respondeu:

– Que Deus os perdoe pelo que fizeram comigo. – Após uma pausa, acrescentou: – Aceito.

– Por que nome deseja ser chamado? – perguntou Villot.

Luciani tomou a hesitar. Depois, sorriu pela primeira vez e disse:

– João Paulo I.

Em 16 de outubro do mesmo ano, os cardeais estavam novamente reunidos. João Paulo I, o “Papa Sorriso” tinha ficado somente um mês no Trono de Pedro. Morreu provavelmente assassinado, a mando de alguém com interesses que ele ia atrapalhar: ou alguém da Loja Maçonica italiana ilegal chamada P2, ou por setores ligados ao Banco Ambrosiano, que estava sob investigação da justiça italiana por desvio de dinheiro – o caso estouraria em 1982 – ou o polêmico cardeal estadunidense John Cody, que seria removido por ele. A verdade nunca saberemos, pois quase todos os envolvidos estão mortos. O único ainda vivo é o ex-banqueiro Licio Gelli, que tem mais de 90 anos e está em prisão domiciliar.

Foi dessa forma indigna que 1978 se tornou “o ano com três papas”. Aloisio Lorscheider, o cardeal brasileiro, nunca foi eleito Papa, mas teve a honra de ser escolhido por dois deles: assim como Luciani, Karol Wojtyła também votou nele no conclave em que foi eleito.

A eleição de João Paulo II foi ainda mais surpreendente do que a do seu antecessor. Mas o papa polonês tem uma mancha no seu belo currículo: não colocou em prática os planos de Luciani de promover uma devassa no Banco Ambrosiano, afastar o seu diretor, o bispo Paul Marcinkus, remover o cardeal Cody, que estava notoriamente desviando dinheiro da igreja para uma “sobrinha” com quem teria um relacionamento amoroso e nem afastou da igreja os membros envolvidos com a loja maçônica P2. David Yalop vai ainda mais longe e diz que João Paulo II usou esquemas ilegais arquitetados por Marcinkus para enviar dinheiro para o sindicato Solidariedade na Polônia. Apesar de nunca provada, a informação faz sentido, pois o Papa defendeu Markinus quando o Banco Ambrosiano finalmente quebrou, em 1982, se recusando a entrega-lo para a justiça italiana.

A expectativa dos cardeais que elegeram Luciani era que seu papado fosse longo, pois ele era jovem. O desejo deles se realizou com Wojtyła, que teve um dos papados mais longos e agitados da história. Apesar de ser um papa que marcou o seu tempo, muita gente acha que se João Paulo I tivesse vivido mais, hoje as coisas seriam muito diferentes na Igreja Católica. Infelizmente, nunca saberemos.

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3 comentários sobre “1978, o ano com três Papas

  1. Se o Luciani tivesse vivido, hoje teríamos uma Igreja um pouco mais moralizada e fervorosa, com o “Mal” sendo exorcizado. Quem matou Luciani, seja a P2 ou outro qualquer, estava ligado aos jesuítas que mandam por trás do Papa. Eles é que mandam na Igreja no Vaticano!

  2. Não, Ebrael, meu caro, quem manda na Cúria – e, consequentemente, influencia diretamente o Papa – é a Opus Dei, não os jesuítas. O atual secretário de estado do Vaticano é da Opus Dei, sabia?

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