O vizinho

Ele suava em bicas, mas tinha que terminar seu trabalho, e rápido. O suor descia pela testa e irritava seus olhos, o que só tornava a tarefa ainda mais difícil na pouca luminosidade da manhã.

Finalmente ele terminou. Alisou pela última vez a terra fresca. Nada parecia fora do lugar agora. O buraco estava bem camuflado. Era só mais um inofensivo jardim, como sempre fora. Ninguém desconfiaria. Ninguém saberia. De novo.

Ele havia prometido a si mesmo que nunca mais faria aquilo. Mas a sua promessa fora quebrada naquele domingo, como já  tinha sido antes. Recolheu suas ferramentas e saiu apressado. Um banho, era tudo o que precisava. O sol estava nascendo, e a segunda-feira com ele.

A água estava fria, mas ele não reclamou. Precisava tirar o suor do corpo e as ideias da cabeça. Precisava se entorpecer para lidar com as consequências do seu ato. Deixou a água escorrer abundantemente pelo corpo, como se ela tivesse o poder de livra-lo de toda a sujeira que sentia por dentro. Sentia a falta dela ali no banheiro, mais do que em qualquer outro lugar. Tentou afastar a imagem da sua mente, enquanto se esfregava vigorosamente.

Uma cerveja gelada e um pacote de batatas fritas foi o seu desjejum. Sentia fome, muita fome. Ia ter que comer algo a caminho do trabalho. Pegou a chave do carro e saiu.

O dia foi normal como todos os outros. Voltou cansado e ainda inquieto, quando deu de cara com a polícia na rua da sua casa. Seu coração disparou. Ele fora descoberto. Não sabia como, talvez algum vizinho tivesse visto algo. Malditos! Pensou em dar meia volta e correr, mas isso seria muito suspeito.

Mas ele não tinha sido descoberto. Uma simples briga de casal nos vizinhos ao lado motivara a chegada da polícia. Ele cumprimentou os policiais e entrou apressado. Tinha sido por pouco.

Acordou na manhã seguinte sem se lembrar de como nem quando tinha dormido. Estava dolorido, havia adormecido no sofá. Atrasado, nem teve tempo de tomar café e saiu correndo para o trabalho.

Passou a semana dormindo mal e acordando assustado. Eram sonos sem sonhos, mas não eram reparadores. Sentia-se cada vez mais cansado da situação. Talvez fosse a hora de mudar de novo.

Mas não podia deixar rastros. A grama do jardim ainda estava crescendo. Os novos moradores não podiam desconfiar de nada. Não agora, que ele havia prometido nunca mais fazer aquilo de novo.

O final de semana foi de muita chuva. Os céu parecia estar ajudando seus planos. A grama cresceria rápido, e ele poderia se mudar para uma nova casa, uma nova cidade, ter uma nova vida. No domingo ele adormeceu satisfeito e quase feliz, por ter resistido pela primeira vez em semanas. Dormiu ao som de uma chuva torrencial.

Na madrugada, a enxurrada tinha levado tudo. Invadindo os quintais, derrubando cercas e revelando uma estranha caixa de madeira muito bem trabalhada enterrada no quintal de um pacato cidadão. Foi uma criança, a caminho da escola pela manhã, que a encontrou. Quando a abriu, deu um grito de horror. Seu pacato vizinho, aquele que o cumprimentava quase toda a manhã, era leitor da revista Veja. Estava lá, na caixa, a prova irrefutável. Vários exemplares recentes, de semanas consecutivas. A criança correu chamar os pais.

Ele finalmente se mudou, mas não da forma que gostaria. Saiu sob o olhar de reprovação dos vizinhos, no domingo seguinte. Juntou suas poucas coisas pessoais e seguiu o caminhão da transportadora. No caminho, sentiu-se compelido a parar numa banca de revistas. Ele tinha algo importante para comprar.

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