Duas histórias na rodoviária

Ele desceu do ônibus e recebeu o golpe frio do vento. Praguejou baixinho por não ter escolhido uma blusa mais quente. Entrou na fila para pegar a bagagem de mal humor e com sono.

Ainda era de madrugada mas a rodoviária estava lotada. Tenso por estar pela primeira vez em uma cidade estranha ele desabou numa cadeira desconfortável enquanto pensava nos eventos improváveis que o tinham levado até lá.

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Ela estava tão nervosa que nem esperou o carro parar direito no estacionamento e já estava descendo apressada. Olhou pela décima vez para o relógio do celular e saiu andando rápido.

A mãe a chamou. Parecia de mal humor, não estava acostumada a acordar tão cedo. Não precisa ter pressa, ainda faltam alguns minutos, disse a ela. Só então ela reparou na quantidade de gente ao redor. Muitas malas e vai e vem de pessoas, elas poderiam se perder. Relutante e impaciente, esperou.

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Enquanto os pensamentos voavam em sua cabeça ele começou a observar as pessoas ao seu redor. Apressadas em sua maior parte, cheias de malas e tensão. Então, sem mais nem menos, sua atenção foi voltada para duas pessoas a sua frente.

Eram mãe e filha, os rostos semelhantes não deixavam margem para engano. A mãe estava impecavelmente vestida, tanto que destoava da multidão ao redor. A filha estava mais despojada e mexia a toda no celular.

Estavam obviamente esperando alguém, pois olhavam toda hora para a plataforma de desembarque. A mãe parecia desconfortável, como se sentisse deslocada naquele ambiente. A filha roia as unhas de vez em quando, ansiosa.

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Demoraram a encontrar a plataforma certa e se acomodaram nas horríveis cadeiras laranjas. Ela olhou de novo no celular. Ainda faltavam dez minutos, se não houvesse atraso.

Um homem a sua frente chamou a sua atenção. Ele parecia tenso, deslocado e com frio. Olhava a todo momento para os lados, enquanto mandava mensagens no celular.

Sua mente viajou um pouco. Quem seria ele ? Pelo tamanho da mala ou estava de partida ou tinha acabado de chegar. Os braços cruzados diziam que ele estava com frio, não devia ser mesmo da cidade. Será que estava esperando alguém ? Quem seria?

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Ele ficou observando as duas, enquanto se acalmava. Quem será que elas esperavam ? Um pai, um amigo, o namorado da garota ? Mil conjecturas passaram na sua cabeça cansada.

Sua atenção se voltou para uma mensagem no celular. O motivo pelo qual a sua viagem fora feita estava a caminho, quase chegando. A tensão aumentou. Era chegada a hora tão esperada. O estomago revirou. As borboletas estavam ativas de novo, a todo vapor.

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Notou que ele a olhava. De relance, seu olhar pareceu assustado e perdido, como se estivesse divagando. De repente uma mensagem no celular o fez sorrir. A tensão pareceu se desvanecer do seu rosto como um passe de mágica.

Ela se voltou para o próprio celular. A hora tinha chegado, ele estava para desembarcar. Olhou nervosamente para a plataforma, a espera do ônibus. Que estava encostando. Ela se levantou correndo.

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Ele mal reparou quando a garota se levantou apressada e foi abraçar uma pessoa que chegava. Um senhor de meia idade, obviamente cansado. Devia ser seu pai. A felicidade no rosto da menina era evidente. A mãe reagiu mais polidamente e o cumprimentou com um beijo no rosto.

Então tudo perdeu a importância quando ela chegou, e eles se abraçaram e se beijaram, e o tempo parou, e uma nova era começou.

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Quando se soltou dos braços do pai ela ainda teve tempo de reparar que o homem estava agarrado a uma negra bonita, beijando-a com paixão. “Todos estão esperando alguém” pensou ela. “Que sejam felizes”.

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Ela não sabia que seu desejo seria transformado em realidade. Sempre e para sempre.

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