Lido: Digam a Satã que o recado foi entendido

Atenção: isso NÃO é uma resenha.

Os meus leitores mais antigos, se é que sobrou algum, vão se lembrar da minha série, a uns dois anos atrás, em que eu comentava livros que havia lido. Pois então, ela está de volta. Salva de palmas.

Esse ano eu resolvi que vou dar uma chance a autores brasileiros. Para começar, fiquei entre este e “Barba ensopada de sangue” de Daniel Galera. Bom, pode-se dizer qualquer coisa dos autores brasileiros modernos, menos que eles não sabem colocar títulos de impacto nos seus livros.

A primeira coisa que chama a atenção em “Digam a Satã…” é a bela capa colorida com motivos geométricos. Junte a isso a um título incomum e é uma ótima isca para “pescar” leitores desavidos numa estante de livraria.

digam-a-sata

A estrutura do texto também é incomum. É narrado em primeira pessoa, mas por seis personagens diferentes. Tecnicamente o nome disso é escrita polifônica. Até onde eu me lembre, só li um outro livro assim, o excelente Os rostos de Lenora, de Daltro Conrad. Se alguém quiser eu tenho o ebook, e não é pirataria, ele foi publicado assim, na época pré-Amazon. Sim, faz tempo.

O fio condutor da história é Magnus Factor, um imigrante sem origem revelada que mora em Dublin, Irlanda, onde se passa a história. Magnus é atraído por russas, o que para ele é qualquer mulher eslava – o par romântico dele acaba sendo uma eslovena. Ele e seus amigos que são donos de um city tour que passa por lugares assombrados de Dublin são um dos núcleos onde se desenvolve a história. Detalhe que os lugares são todos inventados por eles mesmos.

Basta olhar para uma jovem russa com um mínimo de atenção para compreender que ela pode explodir a qualquer momento. Pode estar montada em cima do camarada e de repente soluçar, cerrar os punhos e golpear o peito do infeliz, depois o colchão, agarrando os lençóis com força suficiente para rasgar, e depois erguer os olhos para o teto berrando fonemas guturais como se estivesse ajoelhada em frente a um trigal nas cercanias de Volgogrado, encarando os céus e amaldiçoando o destino. E mesmo assim, em meio aos murros, às lágrimas, à baba, aos soluços e à gritaria, continuar tão bela quanto as melhores tragédias. Um investimento de alto risco, as jovens russas.

O outro núcleo é composto por uma seita esquistotérica maluca que acredita em ETs, batalhas cósmicas e no poder dos ofidios. Sim, cobras. Nesse núcleo está a melhor personagem de todas, Patrícia, uma pré-adolescente que faz excelentes reflexões sobre a vida, o Universo e todas as coisas. A revelação da verdadeira “identidade” dessa personagem, quase no final, é um dos pontos mais engraçados do livro. Seu queixo vai cair. Literalmente.

…Não é porque eu vou fazer treze anos daqui a dois meses que sei menos coisas que o meu pai, por exemplo. Estou de mal com ele faz mais de um ano. Ele não entende nada. Nadinha. Mas eu também não. É outra coisa que aprendi bem cedo. Ser humano é estar confuso. Não. Ser humano e medíocre é fingir que não existe confusão nenhuma. Que está tudo bem, que tudo é fácil, que qualquer coisa vai dar certo. Mas ser humano, humano mesmo, é admitir que não é bem assim. Admitir o fingimento e deixar só a confusão.

Parece que os dois núcleos nunca vão se cruzar, e você só sabe a relação entre os dois bem no final, nas últimas páginas mesmo. Aí todas as pontas são amarradas de forma coerente, apesar do autor deixar margem para interpretações a gosto do leitor.

Só acho que faltou um capítulo narrado pela namorada de Magnus, a Stefanija. Teria sido interessante, bem interessante. Poderia ser colocado no lugar do capítulo ocupado por um dos sócios de Magnus, o polonês  Zbigniew, que eu achei totalmente dispensável.

No fim, você fica sem saber exatamente como classificar “Digam a Satã…”. Não é um livro de humor, apesar de ser sutilmente engraçado em alguns pontos. Não é um romance, apesar de ter um que conduz a história, e ele ser vendido como um. Mas é um livro divertido, que faz rir e pensar ás vezes. A estrutura é meio caótica, parece que nada faz sentido, mas de repente faz. Vale a leitura. Nota sete de dez.

——

Para breve, o comentário de “1565” que estou lendo e depois, de “Barba ensopada de sangue”, que pretendo ler, ou “Zelota”, que eu já li, mas que estou digerindo ainda. Estou perseguindo minha meta, dois autores nacionais lidos em três esse ano e serão três em quatro em breve. Se alguém tiver mais algum livro nacional para me indicar, os comentários estão aí para isso. Até a vista então!

Anúncios

Um comentário sobre “Lido: Digam a Satã que o recado foi entendido

  1. “Enquanto Agonizo” (As I Lay Dying), de William Faukner, também é narrado por vários personagens, no caso 15. Vi o filme semana passada e agora quero ler o livro. Essa técnica de narração múltipla é que tinha me interessado no livro, mas vi que a história também é muito boa.
    Gostei da resenha, o “Satã” parece bem interessante. Mas como esse pessoal é criativo com os títulos, não? 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s