Lido: Zelota

Jesus foi um galileu nascido e criado em Nazaré. Trabalhador braçal, ajudou a construir a nova capital da Galiléia, Sefora, onde teve contato com toda a injustiça social do seu tempo.

Tornou-se discípulo de João Batista, mais um dos muitos messias daquela época. Quando ele foi executado, assumiu seu ministério e o levou além. Pregou por toda a Galiléia, sem nunca se aproximar de uma cidade que não fosse judia. Fazia curas gratuitamente, em oposição aos curandeiros pagos que havia aos montes. Fez discípulos, e escolheu doze entre eles. Sua mensagem era clara: a restauração das doze tribos e a volta do reino de Israel à sua glória, derrotando os romanos.

Foi para Jerusalém, onde foi recebido com festa. Atacou os vendedores do templo, que eram controlados pela casta corrupta dos sacerdotes. Foi perseguido. Se refugiou nas cavernas do monte das Oliveiras. Traído, foi preso, julgado e executado por blasfêmia e sedição, mas não – detalhe importante – por curandeirismo. Ninguém duvidava que ele fazia curas.

Morto, seus discípulos espalharam a crença, inédita entre os judeus, que havia ressuscitado. Seus discípulos se tornaram então mais um seita entre as muitas que os judeus tinham à época. Até que surgiu Paulo, que tornou a mensagem de Jesus mais “mística” e universal, ao interpretar que a pregação de Cristo seria de um reino espiritual e não físico e levando a mensagem dele aos não judeus. Houve divergências entre ele e Tiago, irmão de Jesus, que era líder em Jerusalém. Mas Paulo jamais rompeu com a igreja de Jerusalém, apesar dos atritos. E Lucas, amigo dele, escondeu as divergências quando escreveu o Ato dos Apóstolos (mas ela fica clara nas cartas de Paulo).

Até que em 69 esse mesmo Tiago, que tinha por apelido O Justo, e figura muito querida em Jerusalém, foi morto pelo sumo sacerdote do templo judeu. Foi a gota d´água para estourar a revolução. Diferentes grupos de revolucionários judeus se uniram. O sumo sacerdote foi morto no próprio templo. Os soldados romanos também. A Judéia declarou guerra à Roma. Perderam. Jerusalém foi destruída, os judeus espalhados pelo império. Junto com eles, o “cristianismo judeu” de Tiago foi erradicado também. A partir daí o “cristianismo paulino” ganhou força. Quando finalmente ele virou a religião oficial do império, a pregação revolucionária de Jesus foi esquecida para sempre.

Se você é cristão não deve concordar com nada disso. Mas não fique bravo comigo. Esse é um resumo, o mais conciso que consegui fazer, de Zelota, de Reza Aslan.

O próprio autor deixa bem claro que para cada livro ou tese que ele cita para apoiar as suas teorias, há pelo menos outro que prova exatamente o contrário. Ele escolhe as interpretações que favorecem a sua teoria. É um livro honesto, escrito em linguagem simples e que trás conceitos interessantes sobre a figura de Jesus para aqueles que não “são do ramo”.

O autor não é um ateu querendo provar que o cristianismo está errado, ele simplesmente quer resgatar o “Jesus histórico” – sim, há pelo menos uma prova, de fonte não cristã, que atesta a existência de uma pessoa chamada Jesus que foi um líder religioso na Judéia no século I – e nisso ele vai bem. Apresenta explicações simples para assuntos complexos, como por exemplo a teoria das duas fontes ou a multiplicidade de “messias” no século I naquela parte do mundo.

Para quem é “do ramo” como eu – estudo história do cristianismo a pelo menos vinte anos – o livro não trouxe nada de novo, mas seu mérito, como eu disse, é ser simples e trazer esse assunto para o grande público. É honesto, bem documentado – há uma imensa lista de fontes ao final – e bem escrito. Nota 7,5 para ele. Recomendo a leitura, sendo você cristão ou não.

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