Lido: Barba ensopada de sangue

barba

“Barba ensopada de sangue” é um livro em que a forma supera o conteúdo. E pronto, eu poderia acabar esse texto aqui, desligar o computador e aproveitar o sábado de sol, mas está chovendo, então vou me alongar um pouco. Só um pouco. Tá, talvez seja muito.

Daniel Galera tinha tudo para escrever um bom livro de suspense ou policial. Os requisitos estavam todos lá: o suicídio do pai logo no início, o misterioso desaparecimento do avô, a pequena cidade litorânea onde todos escondem um segredo, um protagonista gato, que pega todas as menininhas da cidade mas que é atormentado por uma estranha doença mental que faz com que ele não memorize os rostos das pessoas, o conflito com o irmão e a cunhada.

Mas o autor prefere focar no personagem principal e sua “jornada de auto-conhecimento”, onde a procura pelo avô se torna uma procura por si mesmo, ou algo parecido. Pessoas mais cultas e/ou mais estudadas do que eu devem ter enxergado influências de grandes psicólogos e/ou filósofos no livro de Daniel Galera. Como não é meu caso, vou poupar vocês de meus comentários a esses respeito. O resultado é muito parecido com uma novela da Globo em formato de livro. Dá até para imaginar o Luigi Baricelli como o protagonista-sem-nome, a Isis Valverde como a Dália, a Sheron Menezes  como a Jasmin, o Francisco Cuoco como o pai e o José de Abreu  como o avô. Teria até o “núcleo de humor” com o “budista hardcore” Bonobo (você vai ter que ler para entender).

Ela não responde mas seu olhar se reconfigura. Agora é um olhar de despedida no qual se entreve que ela não está se despedindo propriamente dele, porque ainda vão se ver por aí, e sim de um outro mundo idêntico a esse exceto pelo detalhe de que eles teriam ficado juntos, teriam se apaixonado e teria durado, um mundo que foi imaginado em detalhes e acalentando por algum tempo e do qual ela só está se desapegando nesse instante.

Mas “Barba ensopada de sangue” está longe de ser um livro ruim. O estilo de escrita de Daniel Galera, com os detalhes da vida do protagonista-sem-nome sendo desvendados aos poucos, as lacunas propositais que mexem com a imaginação do leitor e os excelentes diálogos tornam o livro interessante. É muito difícil escrever um bom diálogo, mas o autor o faz de forma natural e a leitura fica, como disse uma pessoa que resenhou o livro, “fluida”. Um dos melhores personagens sequer tem qualquer fala: é a cachorra Beta, que vai ter participação essencial no final, que é onde um pouco de ação acontece e onde você vai saber porque, afinal, o livro tem esse título.

Tu podes deixar para trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que isso é justificável, mas não tem o direito de deixar para trás um cachorro depois de cuidar dele por um tempo, disse-lhe uma vez quando ainda era criança e a família completa vivia numa casa em Ipanema pela qual passaram meia dúzia de cães. Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto para viver com as pessoas e nunca mais podem recupera-lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. Um cachorro pode desfaze-lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito.

Pesando tudo, “Barba ensopada de sangue” é até um bom livro. Nada especial, e não acho que mereça todo o barulho feito em torno dele, mas diverte, faz pensar às vezes e a técnica do autor é inegável. Se você for ler, uma dica: ao terminar, volte e leia o prólogo de novo, senão o final não fará qualquer sentido. Nota sete para ele, e até a próxima, pessoal.

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