A chuva

Chovia de novo. Chovia muito naquele lugar. Quase todo dia.
Ela sempre tivera dúvidas se chovia porque ela estava triste, ou se ela estava triste porque chovia.
Até que um dia ela percebeu que ela sempre estava triste, chovendo ou não.
A água batia com força na janela, fazendo muito barulho. Ela queria gritar de medo, mas sabia que isso atrairia a mulher de branco.
Um trovão fez tudo balançar. Ela se aguentou como pode. No segundo, não conseguiu mais. E gritou.
A mulher de branco veio, e daí a pouco ela estava imersa num sono sem sonhos.
—–
Era noite de novo.
A chuva começou mansa. Não era como a tempestade do outro dia. Não tinha vento, não tinha trovões.
Ela ficou olhando a água escorrer lentamente pela janela. Chegou a se levantar e colocar a mão no vidro. Ela queria abrir a janela, mas isso faria barulho.
Ela tinha que evitar o barulho a todo custo.
De repente, o trovão. Sem pensar, ela se esconde debaixo das cobertas, choramingando.
E a mulher de branco apareceu de novo.
—–
Agora era dia. Pelo menos parecia ser. A claridade que vinha de fora era fraca. Talvez estivesse amanhecendo. Ou anoitecendo.
Ela sempre achara esquisito essa questão de noite e dia. Noite era quando estava escuro, haviam dito para ela. Era hora de dormir.
Não fazia sentido. Ela dormia durante o dia. Toda vez que a mulher de branco aparecia, ela dormia. Um sono sem sonhos.
Era uma chuva fraquinha, que mal fazia algumas gotas escorrerem pelo vidro sujo. Ela ficou esperando os trovões.
Não teve trovões.
Ela criou coragem e abriu um pouco o vidro. Seu coração estava aos pulos.
Mas a mulher de branco não apareceu.
Ela esticou o braço por entre as grades. E tocou a chuva pela primeira vez.
Era gelada. Muito gelada. Mas ela gostou.
E o cheiro. Tinha um cheiro gostoso de alguma coisa boa lá fora. Cheiro de grama molhada.
Passou a mão molhada no rosto. Deu uma sensação boa. Era diferente da água morna do banho que lhe davam as vezes.
Ela tinha que provar mais vezes disso.
Sem pensar, correu para a porta. Deu de cara com a mulher de branco.
—–
Se passaram muitos dias sem chuva.
Ela pensou que a mulher de branco tinha mandado secar a chuva. E a culpa era dela.
Só podia ser isso.
O cheiro que vinha do corredor dizia que em breve a mulher de branco traria a sopa de repolho. E depois ficaria escuro.
Começou a chover.
Ela correu para a janela. Mas agora a sua janela tinha um cadeado.
A água caía mansamente, como naquele outro dia.
Nada de trovões de novo. Era um sinal.
Ela tinha que ir de encontro à chuva.
Abriu a porta com cuidado. Correu, silenciosamente, para o gramado dos fundos.
A sensação da grama aos seus pés era tão boa que lhe deu arrepios de algo que ela nem se lembrava mais de quando havia sentido pela última vez.
Felicidade.
Correu e dançou, riu e chorou, e sorveu a gelada água que vinha dos céus.
A mulher de branco apareceu, com cara de poucos amigos, seguida de dois homens.
Não tinha importância. Sempre haveria outro dia chuvoso.
Agora ela não tinha mais medo da chuva.

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