Top 5: os melhores livros lidos em 2014

A única tradição depokafeniana se mantém também em 2015. O primeiro dia do ano é dedicado ao post com o “top five” das leituras de 2014. E olha que esse foi um ano bem difícil para escolher só cinco livros, então vamos logo a eles e parar de enrolar, afinal vocês ainda tem que fazer a digestão da ceia de ontem, não é mesmo ?

Digam a Satã que o recado foi entendido

digam-a-sataO ano já começou bem. “Digam a Satã…” foi uma das melhores leituras do ano, e o carnaval nem tinha chegado ainda. A estrutura incomum de narração – tecnicamente, escrita polifônica – na obra de Daniel Pellizzari foi a primeira coisa que me chamou a atenção nesse livro. Mas ele tem outras qualidades. Um humor sutil, personagens com um que de enigmáticos e dois núcleos que parecem que não vão se cruzar, mas aí tudo faz sentido no fim são outros atrativos do livro. A se destacar, a personagem Patrícia e a revelação da sua verdadeira “identidade” e esse trecho sobre como é amar uma mulher russa:

Basta olhar para uma jovem russa com um mínimo de atenção para compreender que ela pode explodir a qualquer momento. Pode estar montada em cima do camarada e de repente soluçar, cerrar os punhos e golpear o peito do infeliz, depois o colchão, agarrando os lençóis com força suficiente para rasgar, e depois erguer os olhos para o teto berrando fonemas guturais como se estivesse ajoelhada em frente a um trigal nas cercanias de Volgogrado, encarando os céus e amaldiçoando o destino. E mesmo assim, em meio aos murros, às lágrimas, à baba, aos soluços e à gritaria, continuar tão bela quanto as melhores tragédias. Um investimento de alto risco, as jovens russas.

Ao contrário das jovens russas, esse livro não é um investimento de alto risco. Pode comprar, que provavelmente você vai gostar. Ou não.

Falando com os mortos

Falando com os Mortos“Falando com os mortos” conta a história das irmãs Katie e Maggie Fox, que a partir da segunda metade do século XIX fizeram muito sucesso como médiuns em terras estadunidenses e ajudaram a popularizar o espiritualismo por lá e pelo mundo. Um livro que trate de um assunto tão polêmico como espiritualidade corre dois riscos: ou ser crítico demais ou “chapa branca” demais. Mas a autora consegue fazer um livro equilibrado, que tenta mostrar a incrível história das irmãs da forma mais imparcial possível. É fascinante que duas garotas de 11 e 14 anos que simplesmente começaram a ouvir barulhos em sua casa numa zona rural dos Estados Unidos em uma época em que havia muito menos liberdade para as mulheres possam ter chegado tão longe. Engodo ? Fraude ? Verdade ? Cabe ao leitor decidir depois de ler, e isso é ótimo. Se você é espiritualista ou simplesmente cético, vale a leitura desse livro, uma história que, para quem não é espírita é pouco conhecida, mas que é muito interessante.

Eu, Christiane F., a vida apesar de tudo

eu, christiane fEm fins dos anos 80, começo dos anos 90 do século passado, alguns professores achavam que era uma boa idéia passar o filme da Christiane F. (e também Pixote, a lei do mais fraco) para incautos alunos do Ensino Médio a título de educação contra as drogas. Bom, para mim ao menos não serviu para nada serviu para que eu soubesse da existência do livro e o devorasse em uma semana. E agora, mais de 30 anos depois do lançamento do primeiro livro, Christiane F. está de volta para contar como foi a sua vida desde o final do primeiro livro. E o sentimento, pelo menos para mim, é de desperdício. Não do livro, que é ótimo, bem organizado, tem boas fotos, mas da vida da Christiane F. Uma vida desperdiçada. Como disse alguém que resenhou esse livro, ela é uma anti-heroína (não a droga, a forma feminina de herói). E o livro deixa isso bem claro. Ela não se esconde por trás de desculpas, não omite que continuou junkie durante a vida toda e parece se arrepender só a partir do momento que o governo tirou dela a guarda do seu filho. E como nada na vida é cem por cento certo (eu diria, filosoficamente, que a vida é uma sucessão de erros contínuos) ela acabou sendo até uma boa mãe, dentro das circunstâncias, é claro. Não sei se os professores de hoje em dia vão recomendar que seus alunos leiam esse livro. Acho que não. Mas deveriam. É forte sem ser vulgar, verdadeiro sem descambar para o sensacionalismo. Indico, é claro, todos os cinco livros que fazem parte desse post, mas se você puder escolher só um, fique com esse.

Mussum Forévis

mussum-forevis-juliano-barrto-ligia-braslauskas-livroContar a história do Mussum antes dele ser Mussum. Esse é o grande mérito da obra de Juliano Barreto. Da infância pobre até o estrelato na TV, muita coisa aconteceu na vida de Antônio Carlos Bernardes Gomes. Curso técnico em mecânica, o cargo de cabo da Aeronáutica – de onde ele fugia dos plantões para tocar samba, o sucesso com Os originais do Samba (chegaram a tocar até no exterior) até a entrada meio que sem querer na TV, está tudo lá. De bônus, algumas curiosidades sobre os outros Trapalhões, como a fase espiritualista de Zacarias no final da vida – e os boatos maldosos de que ele seria homossexual e teria morrido de AIDS, o fato de que o Didi foi dono da Granja Comari antes da CBF e a briga que separou os Trapalhões por um breve período e levou os outros três a lançarem um filme em separado. Rico em detalhes, imparcial, bem organizado, vale a leitura, tenha você conhecido Os Trapalhões ou só o sucesso recente do Mussum na época dos memes.

Jerusalém – a biografia

jerusalem a biografiaQue outra cidade do mundo mereceria um livro de quase oitocentas páginas só contando a sua história ? Jerusalém, é claro, a “cidade santa” para três das mais importantes religiões deste pálido planeta azul. Desde as origens anteriores aos israelitas até aos acontecimentos atuais como a Intifada, a história de Jerusalém foi longa, e o livro também. Mas o autor – judeu, diga-se de passagem – organiza a sua obra de uma forma que não deixa a leitura cansativa, focando a história nas famílias e pessoas que viveram na cidade. É interessante notar que Jerusalém já foi um lugar de paz e tolerância. Em pouquíssimas ocasiões, já que houve momentos pavorosos, como as frequentes perseguições a judeus e cristãos durante o governo dos muçulmanos e a reconquista da cidade durante a primeira cruzada onde, contam os próprios cronistas cristãos, os cavalos andaram com sangue até os tornozelos. No final da leitura, você percebe que a vendetta entre israelenses e palestinos é bem mais complicada do que parece. Há bons argumentos para se reivindicar a posse da cidade pelos dois lados, e nós nem estamos colocando os cristãos na conta. Se você  gosta de história e quer compreender mais a fundo a questão palestina, vai gostar muito desse livro. São só oitocentas páginas, o George R. R. Martin chama isso de prefácio de um livro de bom tamanho.

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