A vida é uma grande rodoviária

Atenção: esse texto terá uso intenso de metáforas e observações dentro de parênteses (como essa, completamente desnecessária, aliás). Se você não sabe o que é ou como identificar uma metáfora ou não gosta de interrupções na leitura, saia daqui agora. Você foi avisado.

Um dos passatempos preferidos da forma de vida baseada em carbono, descendente dos primatas e com polegares opositores que domina esse planetinha brega na borda da Via Láctea é filosofar sobre a vida. Na verdade, é uma das poucas coisas que nos distinguem das baratas, que um dia vão tomar o que é delas por direito.

Há muitas metáforas para definir o que afinal é a vida, e qual o seu sentido (meus estudos dizem que o sentido da vida é horário, mas isso é assunto para outro post) mas a minha preferida é: a vida é uma grande rodoviária.

É uma metáfora pobre, eu sei. Poderia dizer que a vida é um grande aeroporto, ou um bucólico porto na Riviera francesa, mas quem já esteve num lugar assim ? Em rodoviária todo mundo já esteve, ou estará.

A vida é uma grande rodoviária porque as pessoas estão sempre chegando e partindo da sua vida. É simples assim.

Há quem goste de uma rodoviária cheia, como um terminal Tietê em véspera de feriados, ou há quem preferia (eu incluído) uma pequena rodoviária do interior. Mas o fato é que sempre há pessoas chegando e saindo da sua vida.

Algumas são esperadas, com você nervoso na plataforma com uma rosa na mão aguardando. Outras chegam de repente, pulam nas suas costas e vocês dois vão para o chão rindo. Outras, ainda, você nem pediu para que elas chegassem, mas elas estarão lá mesmo assim, e você se esconde atrás do pilar para que não te veja.

Mas o fato que mais assemelha a vida a uma rodoviária é, por mais pessoas que chegam, sempre haverá partidas na rodoviária que é a sua vida.

Eu nem estou falando de morte, a grande viagem final com parada no Além (isso também fica para outro post) mas a verdade é que você sempre terá alguém partindo da sua vida.

Pode ser uma partida repentina, e quando você pensa na pessoa ela já pegou o próximo ônibus e te deletou do Whatsapp. Há as partidas demoradas e sofridas, com você acenando da plataforma, correndo atrás do ônibus desesperado, caindo na rua e ralando o joelho enquanto levanta as mãos para os céus e pragueja inutilmente contra o destino.

Mas, e isso é importante, nós temos que aprender que, ás vezes, nós somos só uma parada na vida de outra pessoa. Uma interseção, um atalho. Coincidiu de nós estarmos ali, rumando para o mesmo destino, mas alguma coisa acontece (um casamento, um emprego melhor, o fim de um namoro, uma mudança para outro hemisfério) e de repente o destino da outra pessoa muda. E ela parte, ás vezes acenando, outras vezes te ameaçando com uma ordem de restrição. Para sempre.

É esse ponto que causa sofrimento. Temos que aceitar que, ás vezes, somos só uma baldeação na vida da outra pessoa. Que temos que seguir nosso caminho sozinhos, ou com novos companheiros de jornada.

A sua vida é uma rodoviária. Haverá chegadas e partidas. Faça o tempo entre elas valer a pena. E não tente segurar ninguém. Pode ser que seus caminhos se cruzem de novo um dia. Mas, se não se cruzarem, certifique-se de que dividiram uma boa coxinha juntos e riram bastante. E compre uma garrafa d’agua para ela. É sempre importante se manter hidratado, a viagem pode ser longa.

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