O lacaio

A madrugada estava gelada. Como fazia frio naquele lugar ! Ele acelerou o passo e olhou para o relógio. Meia hora de caminhada. Hora de fazer a meia volta e retornar para o seu apartamento.

Mas ele estava perto do Monumento pelos Mártires da Grande Purificação e resolveu continuar em frente. Mais uma quadra e ele virou à direita e chegou na praça do monumento. Riu por dentro ao se lembrar que na infância tinha medo da expressão das estátuas das crianças no monumento. Ele não compreendia a importância dele. E pensar que a uma geração atrás aquela praça era considerada um local perigoso e ele nunca poderia estar caminhando naquele horário. Tempos bárbaros, pensou ele.

Apertou mais o passo agora, não podia se atrasar. Sentia-se cansado, mas menos que na semana anterior. O governo estava mais uma vez certo ao instituir o Grande Plano Nacional de Atividade Física Continuada. Que a sorte a dele viver nessa época !

Subir as escadas para chegar no apartamento era a pior parte do exercício matinal, mas elevadores eram um luxo que seu prédio não tinha. Chegou no quente e acolhedor apartamento e ouviu barulhos vindos da cozinha. Sua esposa com certeza estava preparando o desjejum. Foi direto para o banho, para não perder tempo precioso.

Enquanto tomava seu banho gelado (ajudava na circulação, tinha dito o governo) repassou mentalmente as tarefas do dia. Ia chegar na casa do Patrão a tempo de supervisionar a montagem da bandeja do café da manhã. Depois de servi-lo, seria a hora de ajudar o Patrão a se vestir e arrumar seu quarto enquanto a família fazia a sua devoção diária. Hoje era quarta-feira, então o Patrão iria jogar bridge no clube com os amigos, o que daria tempo para ele ajudar a governanta na limpeza da casa. Depois, servir o almoço com os outros lacaios, tarefa que ele não gostava. Considerava os outros lacaios preguiçosos e desatentos.

Mas, eram ossos do ofício. A tarde do Patrão seria no campo de golfe, e ele torcia para ser escolhido para acompanhá-lo. Gostava do ar livre, e carregar os tacos nem era uma tarefa tão pesada assim. Antes do toque de recolher o patrão já estaria em casa e ele ajudaria a servir o jantar. O Patrão não receberia ninguém naquela noite, então ele estaria de volta a sua família bem cedo.

Tinha muita sorte de ter um bom emprego de lacaio para uma família tão distinta pensou ele, enquanto se enxugava rapidamente. O cheiro do chá preparado pela esposa enchia o pequeno apartamento e ele já ouvia o burburinho dos cinco filhos conversando na cozinha.

Se serviu de uma xícara bem grande do seu chá favorito e escolheu o menor pedaço de pão, como sempre. Seus filhos, respeitosamente, aguardaram ele se servir primeiro, então atacaram o que sobrou avidamente. Sentiu falta do seu filho mais velho.

– O Elifaz ainda não se levantou, nobre esposa ? perguntou, distraidamente

A esposa levantou os olhos da sua xícara e ele viu desconforto nos olhos dela.

– Ainda não, querido esposo, ela respondeu, baixo. Deu mais um gole no chá. Ele está um pouco…chateado nos últimos dias – completou ela, hesitante.

– Com o que, nobre esposa ? – ele estava surpreso. Elifaz era o seu primogênito e um jovem rapaz muito ajuizado.

– Amanhã é o Dia da Seleção dele, querido esposo.

Ah, o dia da Seleção ! Como o tempo tinha passado rápido! Ainda se lembrava de como tinha sido na sua vez. A insegurança, o medo. Justificável, ele ainda não confiava plenamente nos algoritmos de seleção do governo, por mais que isso tivesse sido ensinado a ele na escola. Tudo tinha dado certo. Afinal, ele tinha um bom emprego, uma família amorosa e não faltava comida na sua despensa.

Olhou no relógio. Podia tirar cinco minutos para falar com o filho, se corresse o caminho entre o ponto de ônibus e a casa do Patrão. Valia o sacrifício.

– Vou falar com ele, nobre esposa, e se levantou. Ato continuo, todos na mesa se levantaram também. Podem continuar comendo, pessoal, riu ele.

Elifaz tinha o seu próprio quarto. Era seu direito, como primogênito. Bateu na porta três vezes. Chamou. Não tinha tempo a perder. Abriu a porta.

A primeira coisa que ele viu foram as pernas dependuradas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s