O funeral

Eram sete da manhã de um dia de sol. O que significava que já estava um calor infernal.

Tinha sido um erro mudar para aquela tigela poeirenta na beira da floresta ? Talvez. Mas pelo menos o salário era bom, pensou ele, enquanto aumentava o ar condicionado do carro para o máximo.

Aquela estrada era péssima, cheia de buracos, e de vez em quando um galho caído. Mas era a única que ligava o seu condomínio à cidade. Se é que podia chamar aquele lugar deprimente de cidade. Mas o salário era bom. Ele suspirou.

E ainda tinha os gêmeos. Lindos, um sonho realizado mas, por Deus, como davam trabalho. Ainda mais agora que já estavam andando. Tinha sido mais uma noite de pouco sono. Acelerou o carro. Precisava urgentemente de uma dose generosa do café extra forte da firma. E o salário ainda era bom !

O carro deu uma vibrada. Era algum problema no amortecedor, tinha dito o mecânico. Ele precisava trocar, mas não tinha outro carro e não tinha como ficar sem. Quem sabe nas férias. Afinal, o salário dele era bom. Podia viajar para a praia. Ou para Campos do Jordão.

Deu um branco nele. Devo ter apagado por alguns segundos, pensou. Balançou a cabeça para dissipar a névoa e acelerou o carro. A pista estava ótima, o tempo estava fresco, o carro respondia bem. Acelerou mais. Mas onde ele estava indo mesmo ? A mente dele pareceu um pouco confusa por um momento. Claro, claro, estava indo num velório. Como pode esquecer ?

A bucólica cidadezinha só tinha um velório. Ele passou pelo portal da cidade. Nunca tinha reparado muito bem nele. Parecia até bonito se você olhasse do angulo certo. Virou à esquerda. Pronto. Estava na rua do cemitério.

Tinha poucos carros em frente ao modesto edifício. O morto não deveria ser muito popular. Quem era mesmo ? Ele não conseguia se lembrar. Entrou no recinto. O cheiro misturado de velas e flores estava enjoativo demais, então ele ficou parado perto da entrada observando. A mulher ao lado do caixão lhe parecia estranhamente familiar. Quem era ela mesmo ?

Duas crianças passaram correndo. Uma delas parou ao seu lado e sorriu. Ele sorriu de volta e mostrou a língua para a criança, que saiu correndo gritando papa, papa, papa… Bonitinho, pensou ele. Tão parecido com um dos meus filhos…

Ele tinha chegado no final do velório. O padre encomendou o corpo o melhor que pode. Parecia com pressa e fedia a álcool . Então os funcionários da funerária fecharam o caixão e começaram o transporte. Ele saiu do caminho e seguiu no final do pequeno cortejo. A mulher do falecido chorava muito. Uma das crianças de antes estava no seu colo. A outra, estranhamente, seguia ao seu lado. Ela continuava repetindo…papa, papa, papa…

O caixão foi colocado ao lado da sepultura. A esposa pediu para abrirem por uma última vez. A última despedida! Ele se aproximou, curioso. Não conseguia se lembrar de quem era o funeral…

Quando a tampa foi retirada, ele gritou, e então tudo ficou claro.

O morto era ele mesmo.

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