O ônibus

Todas as semanas quando entrava naquele ônibus ela sentia algo esquisito. Era uma sensação indefinida, que ela não saberia explicar com palavras, um misto de arrepio que subia pela espinha e uma sensação de que algo estava muito, muito errado.

Naquela sexta-feira em particular a sensação estava mais forte, a ponto de deixá-la desconfortável. Enquanto as outras pessoas assumiam os seus lugares, ela ficava cada vez mais aflita. Chegou a cogitar descer antes do embarque. Mas não podia fazer isso. Não havia outro horário, e ela estava com saudades da família. Apertou com força o pingente no seu pescoço com a imagem de São Bento, rezando uma prece muda.

Quando o ônibus saiu da rodoviária o desconforto dela já tinha quase virado desespero. Conforme o veículo avançava depressa para a rodovia, ela tentou se acalmar observando os outros passageiros.

Já tinha um tempo que ela dava apelidos aos passageiros, velhos conhecidos seus de outras sextas-feiras. Hoje, do seu lado ia A Faladeira, uma senhora de seus trinta anos que passava metade da viagem no celular falando com, ela suspeitava, o próprio marido. Ou talvez fosse o amante. Mas hoje ela estava quieta.

Do outro lado do corredor estava o Zé Canceroso, um senhor dos seus sessenta anos que ficava ao lado do ônibus fumando um cigarro atrás do outro e que só embarcava no último minuto. Mas hoje ele não estava fedendo fumaça.

Do lado dele estava A Alienada, uma adolescente com cara de entojada que ficava o tempo todo no celular. Mas hoje ela estava…lendo um livro ! Tinha uma coisa errada. Uma coisa muito errada. Tudo estava muito…incomum.

Conforme os quilômetros foram passando o desespero dela foi se materializando num suor gelado escorrendo pela nuca. Se levantou e foi para o final do ônibus pegar uma água. Passou pela Dorminhoca, que estava bem acordada conversando com o Bonitinho, parecendo não reparar na espinha gigante que tinha brotado na testa dele.

Voltou para o seu lugar tremendo. Mal conseguiu abrir o copo de água. Ainda faltava mais de uma hora para a primeira parada. Fechou os olhos, como se o gesto pudesse afastar os seus temores e acalmar o seu coração disparado.

Então o ônibus parou. Ele nunca parava antes da rodoviária. Ela abriu os olhos. Tinha alguém vestido de preto entrando. Do outro lado da estrada ela conseguiu visualizar uma placa: Cemitério São João Batista. Seu estômago se revirou, o gosto de bile chegou na garganta.

Ela se levantou tão rápido que quase tropeçou nas próprias pernas. O medo lhe deu uma velocidade sobrenatural e no segundo seguinte estava brigando com o motorista que não queria deixar ela descer ali. Quando os outros passageiros começaram a xingar e reclamar que a briga estava atrasando a viagem, ele abriu a porta relutante e ela desceu, decidida a chegar até ao posto de gasolina que tinha visto alguns quilômetros antes. Depois veria o que fazer.

Alguns dias depois o legista estava examinando o corpo de uma jovem mulher, bonita mesmo na lividez da morte, quando notou uma medalinha de São Bento no pescoço dela. A retirou delicadamente, enquanto fazia uma anotação no formulário.

A poucos quilômetros dali, o coveiro do Cemitério São João Batista abria mais uma cova. Ele cantarolava, feliz.

Um comentário sobre “O ônibus

  1. Seria o ônibus dos defuntos? Por duas vezes, sonhei com ônibus assim.

    Numa, entrei numa fila para pegar o ônibus. No entanto, na hora de apresentar o “passe” de papel (antigo VT), a cobradora do ônibus que aquele “passe” não me dava direito a passar a catraca. Tive de descer antes que o ônibus partisse em viagem.

    Em outra “viagem”, cheguei a entrar no ônibus e sentar. Porém, quando vi que o ônibus ia para longe, por uma rodovia que eu não conhecia, quis descer do ônibus e o motorista não queria parar. Por fim, consegui fazer com que ele parasse.

    Para mim, em ambos os casos, tratava-se de ônibus de almas defuntas, no Astral Inferior.

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