A casa

Desde criança, sempre que Celeste passava em frente aquela casa, se sentia mal. Como se algo de muito ruim estivesse para acontecer, ou acontecendo, ou tivesse acontecido ali.

Não era uma casa diferente das outras do seu bairro. Pequena, nos fundos do terreno, com uma área de brasilit na frente, algum mato e um cachorro latindo. Alguém morava ali, alguns diziam que era uma velha, outros que era um casal, mas ela nunca via ninguém além do cachorro.

Na adolescência Celeste flertou por um tempo com a magia e o espiritismo, e ela achou que sabia o que estava de errado na casa que, naquela época, tinha sido ampliada e ganhado uma simpática floreira junto ao muro: era tudo obra de espíritos obsessores. Ela chegou a pensar em fazer um ritual lá, se o dono concordasse, é claro, mas ela tinha medo do cachorro e nunca tentou nada.

Celeste se transformou numa jovem adulta e tinha recém se convertido ao neopentecostalismo. Mas a sensação ao passar em frente da casa, que agora tinha uma nova janela vermelha no que deveria ser a sala, era a mesma, senão pior. Só podia ser coisa de demônios, é claro. Enviados do capiroto, do pé-rachado, do inimigo, para atrapalharem a sua vida. Por isso que aquele cachorro latia tanto. Devia ver os demônios.

Quando se casou, Celeste deixou o bairro, mas voltou alguns anos depois com dois filhos, uma cicatriz de cesárea, uma bala alojada na bacia e agnóstica. Com dois bacuris para criar, não tinha muito tempo para pensar em casas, mas evitava sempre que podia passar em frente àquela, que tinha sido reformada de novo: trocaram a grade, e agora ficava mais fácil para o cachorro latir em qualquer um que passasse na rua.

Mais alguns anos se passaram e Celeste era agora uma quase balzaquiana estressada andando pelo bairro quando passou em frente aquela casa, que tinha sido pintada de um verde abacate horrível. O cachorro, como sempre, estava latindo furiosamente mas, saindo pelo portão, estava uma velinha encurvada.

Era a primeira vez que ela via alguém naquela casa ! A velinha parecia inofensiva. Estava trajando uma saia longa e tinha um coque bem arrumado percebeu Celeste, enquanto andava cautelosamente atrás dela. Quando chegaram no cruzamento ela se adiantou e ajudou a velinha atravessar a rua.

-Bom dia, meu nome é Celeste, e o seu ?

-Bom dia, filha. Eu me chamo Celestina.

-A senhora mora naquela casa verde?

-Sim, filha, desde 1981.

-A senhora vai achar graça, mas eu tinha medo da casa da senhora quando era mais jovem.

-Ah é ? Porque, minha filha?

-Não sei, era uma sensação esquisita. E tem aquele cachorro preto que não para de latir e…

-Cachorro ?? Eu nunca tive cachorro, minha filha. Sou alérgica.

E então Celeste compreendeu tudo.

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