A alma da festa

Estênio (com “E”, como ele gostava de frisar) era presença garantida em todas as festas da cidade. Espirituoso, galanteador, sempre bem vestido, ele era dono de uma “personalidade magnética” como o havia descrito a coluna social do jornal da cidade. Era a alma da festa.

Não havia um evento em que Estênio (com “E”, é sempre bom dizer) deixasse de comparecer, desde quermesses de bairro até bailes de debutantes no clube mais chique. Sempre sorrindo, sempre com um martini na mão (mesmo quando não serviam o drink na festa), sempre com as melhores piadas e cercado das mulheres mais bonitas.

Mas Estênio (com “E”, sempre ) também tinha um lado misterioso. Ninguém sabia direito onde ele trabalhava, por exemplo. Os boatos diziam que ele era desembargador, mas ninguém sabia direito o que era ou que fazia um desembargador. Também nunca tinha sido visto com uma companhia fixa. Até onde se sabia não tinha namorada, esposa ou amante. “Sou de todas”, ele costumava dizer, entre um sorriso e outro.

Por isso causou comoção o fato de Estênio (já disse que é com “E”, né ?) ter faltado no grande baile de encerramento da Festa da Acerola, o maior evento do terceiro bimestre na cidade. Era o primeiro evento que ele faltava desde…bem, desde sempre. Ninguém se lembrava de outra festa em que ele não estivesse presente.

Os boatos começaram a correr pela cidade. Alguns diziam que Estênio (é com “E”) tinha sido sequestrado, outros garantiam que ele tinha sido morto por um marido traído que tinha pego ele na cama com a esposa grávida e um anão e outros juraram por suas mães mortas atrás da porta que tinham visto ele deixar a cidade numa limousine branca. Segurando um martini.

O principal jornal da cidade colocou seu melhor jornalista investigativo no caso. Sidraque era o nome dele, tinha 75 anos e estava semi-aposentado. Ele ia todos os dias até a redação, datilografava sua coluna numa velha Remmington, passava para o estagiário digitar e voltava para casa a tempo de almoçar macarrão com feijão. Mas era a mente mais arguta da cidade. Ele que tinha desvendado o famoso caso de corrupção que ficou conhecido como Quadrilha das Enfermeiras, que desviavam AAS do posto de saúde. Era a pessoa perfeita para a missão. Assim que foi informado, Sidraque passou a mão na lista telefônica e fez uma ligação.

No dia seguinte, Sidraque soltou a matéria bomba. Estênio (ele nem fez questão de dizer que era com “E”) tinha se aposentado. Estava com problemas hepáticos (“acho que é a azeitona do martini”) e o dinheiro da herança estava acabando (“me recuso a sair de casa com uma roupa que já usei”). Estava recluso em casa, e não aceitaria mais convites para festas, convescotes, quermesses ou bailes (“o único evento que eu irei agora será meu velório. e vai ser a contragosto”).

E assim nasceu a lenda de Stênio.

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