Fiquei obsoleto ! E agora ?

Eu fiquei obsoleto.

De todas as coisas que me aconteceram desde que o médico bateu na minha bunda e disse “está vivo, é um menino” (foi um parto de emergência) essa foi com certeza uma das mais surpreendentes.

Achei que nunca ficaria obsoleto. Trabalhando com TI (só um jeito mais esnobe de dizer que trabalho com informática) e tendo sempre contato com jovens, achei que permaneceria sempre atual. Ledo engano.

Havia, é claro, muitos sinais disso, mas eu não soube ver. Esse blog, por exemplo, é um deles.

Sou de uma geração que se acostumou a adquirir e transmitir conhecimento através da palavra escrita. Por exemplo, quando algum professor nos tempos de escola queria complementar alguma matéria, ele não passava um vídeo, ou um gráfico. Ele passava mais xerox da mesma matéria.

Na verdade, na minha época de escola ainda não tinham inventado o xerox e a gente usava pergaminhos escritos à mão com tinta extraída de moluscos, à luz de velas de sebo (as de óleo de baleia eram caras) mas não posso entregar a minha idade assim tão fácil.

Então, cresci na era da palavra escrita, mas essa era acabou. A era dos blogs pessoais acabou. Ou talvez não tenha acabado e os blogs involuam e voltem a ser o que eram no início, diários virtuais. Esse blog mesmo está virando isso.

Agora o que está atual são os vídeos, os vlogs, os youtubers. Tentei entrar na onda fazendo uns vídeos no meu outro blog sobre política local, mas não deu certo, não levo jeito, falo rápido demais, etc, etc. Ou seja, fiquei obsoleto.

Claro que esse é um exemplo, há outros, como eu não saber para que serve afinal o Snapchat, não conhecer nenhuma banda/cantor/cantora/dupla musical que tenha surgindo a menos de dez anos ou o fato de usar tecnologia antiga no meu trabalho (em TI, tecnologia antiga é aquela com mais de cinco anos).

OK, estou obsoleto. O que eu faço agora ?

Se uma coisa fica obsoleta, você joga num fundo de gaveta, manda para o lixo ou vende pelo Mercado Livre (outro sinal da minha obsolescência, a moda agora é OLX). E quando uma pessoa fica obsoleta, o que fazemos com ela ?

Geralmente os obsoletos são os mais velhos, os idosos. Esses são mandados para os depósitos de gente chamados asilos. Mas eu fiquei obsoleto cedo demais, não posso ir para um asilo.

E agora, José ? (Citando Drummond, eu tiro meu atestado definitivo de obsolescência).

O outono da alma

Quando chega o outono da alma, você desacelera. Em parte porque você está cansado e cada subida se transforma num Everest. E em parte porque você aprendeu que devagar se vai longe.

Quando chega o outono da alma, você esfria. Porque o fogo da primavera não pode durar para sempre. Porque o seu idealismo não mudou o mundo como você esperava. Porque você não se importa mais.

Quando chega o outono da alma, você sente dor. Um dia no pé, outro dia no ombro, outro dia em partes do corpo que você nem sabia que existia. Seus anos pesam, todos eles.

Quando chega o outono da alma, você ri dos erros dos mais jovens. Porque você cometeu os mesmos erros quando foi a sua vez. E você percebe que as pessoas são mais previsíveis do que você pensava, e que você nem é nem nunca foi especial.

Quando chega o outono da alma, você se torna sábio. E descobre que o mundo não liga para o que você sabe, nem para a experiência que você acumulou. Você poderia ajudar muitos, mas ninguém te ouve.

Quando chega o outono da alma, você perde a fé na humanidade. Porque você percebe que evolução contínua é um mito, e que para cada dois passos adiante são dados um e meio para trás.

Quando chega o outono da alma, você se anestesia. Porque você já viu tanta coisa ruim, no atacado e no particular, que nada mais te espanta ou te comove. Porque você já esse filme antes, muitas e muitas vezes, até enjoar.

Quando chega o outono da alma, você torce para os dias passarem rápido, para que você saia dessa névoa imprecisa e embarque de vez nos derradeiros dias do inverno.

Quando chega o outono da alma, você quase não aguenta mais, mas sabe que ainda tem alguns quilômetros pela frente. E que cada metro, cada centímetro, cada milímetro, será sofrido.

Quando chega o outono da alma, você quer que ele acabe o mais rápido possível.

Porque você não aguenta mais.

A esotérica

– Miga, vamos sair hoje ?
– Não posso, amore ! Marte está na terceira casa de Leão, isso não é coisa boa !
– Para com isso ! Você tá arrumando desculpa de novo !
– Não é desculpa ! Lembra o que aconteceu da última vez que você me convenceu a sair quando eu não queria ?
– Huuuum…não lembro ! (risos)
– Falsa ! Lembra sim ! (mais risos)
– Não foi tão grave assim, vai.
– Claro que não ! Eu só fui parar num motel com um broxa, o carro dele quebrou na volta e nós fomos assaltados. Eu te disse, Saturno na quarta casa de Sagitário é desastre na certa !
– Então tá. Vamos sair no Carnaval então !
– Nem pensar ! Eu tenho um retiro de meditação com a Marília num sítio ali em…
– Com a Marília ? AQUELA Marília ?
– Aquela mesmo, miga, a que estudou com a gente ! Lembra dela ?
– Se eu lembro dela ? Miga, a Marília é LOUCA !
– Outras pessoas mais velhas e mais sábias do que você já confundiram sabedoria com loucura e…
– Ela jogou água benta no nosso professor de Filosofia ! Na sala de aula ! Numa noite de quarta-feira !
– Ah, ela teve os motivos dela. Eram bons motivos, inclusive.
– Quais ? Tinha uma conjunção de Marte e Vénus na décima terceira casa ? O Gasparzinho apareceu e mandou ela fazer isso ?
– Não, nem tem décima terceira casa, miga, não fala besteira ! Ela tinha feito o mapa astral dele e descoberto que…
– Não, não me conte, não quero saber. Você vai preferir passar o final de semana com a maluca da Marília do que comigo ! Magoei…
– Ah, a Marília está muito melhor agora, mais calma. Ela está praticando um zen-bahaísmo-budismo originário das montanhas do sul de Uttar Pradesh. Você tem que conhecer, miga !
– Deus me livre ! Prefiro ter todas as minhas unhas arrancadas com um alicate. Sem anestesia.
– Não fala assim !
– Tô magoada com você ! Mas me convida para comer uma pizza aí na sua casa que eu te perdoo !
– Não posso, miga ! Agora eu sou vegana grau três. Não como nada que faça sombra !
– O que ??? Desde quando ?
– Desde anteontem !
– E você está comendo o que, mulher ?
– Basicamente iogurte e bebendo minha própria urina…
– Você tá bebendo seu próprio xixi ????
– Sim, é bom para a saúde, miga !
– Qual o próximo passo ? Viver de luz ?
– Ah, eu queria muito, mas não tenho força de vontade ! Miga, eu vou desligar, tenho que fazer um ritual para a Lua agora.
– Ritual para a Lua ? São três horas da tarde !
– É complicado miga, é complicado.
– Eu sei, miga. Você é complicada.
(CONTINUA. OU NÃO)

A vida é uma grande rodoviária

Atenção: esse texto terá uso intenso de metáforas e observações dentro de parênteses (como essa, completamente desnecessária, aliás). Se você não sabe o que é ou como identificar uma metáfora ou não gosta de interrupções na leitura, saia daqui agora. Você foi avisado.

Um dos passatempos preferidos da forma de vida baseada em carbono, descendente dos primatas e com polegares opositores que domina esse planetinha brega na borda da Via Láctea é filosofar sobre a vida. Na verdade, é uma das poucas coisas que nos distinguem das baratas, que um dia vão tomar o que é delas por direito.

Há muitas metáforas para definir o que afinal é a vida, e qual o seu sentido (meus estudos dizem que o sentido da vida é horário, mas isso é assunto para outro post) mas a minha preferida é: a vida é uma grande rodoviária.

É uma metáfora pobre, eu sei. Poderia dizer que a vida é um grande aeroporto, ou um bucólico porto na Riviera francesa, mas quem já esteve num lugar assim ? Em rodoviária todo mundo já esteve, ou estará.

A vida é uma grande rodoviária porque as pessoas estão sempre chegando e partindo da sua vida. É simples assim.

Há quem goste de uma rodoviária cheia, como um terminal Tietê em véspera de feriados, ou há quem preferia (eu incluído) uma pequena rodoviária do interior. Mas o fato é que sempre há pessoas chegando e saindo da sua vida.

Algumas são esperadas, com você nervoso na plataforma com uma rosa na mão aguardando. Outras chegam de repente, pulam nas suas costas e vocês dois vão para o chão rindo. Outras, ainda, você nem pediu para que elas chegassem, mas elas estarão lá mesmo assim, e você se esconde atrás do pilar para que não te veja.

Mas o fato que mais assemelha a vida a uma rodoviária é, por mais pessoas que chegam, sempre haverá partidas na rodoviária que é a sua vida.

Eu nem estou falando de morte, a grande viagem final com parada no Além (isso também fica para outro post) mas a verdade é que você sempre terá alguém partindo da sua vida.

Pode ser uma partida repentina, e quando você pensa na pessoa ela já pegou o próximo ônibus e te deletou do Whatsapp. Há as partidas demoradas e sofridas, com você acenando da plataforma, correndo atrás do ônibus desesperado, caindo na rua e ralando o joelho enquanto levanta as mãos para os céus e pragueja inutilmente contra o destino.

Mas, e isso é importante, nós temos que aprender que, ás vezes, nós somos só uma parada na vida de outra pessoa. Uma interseção, um atalho. Coincidiu de nós estarmos ali, rumando para o mesmo destino, mas alguma coisa acontece (um casamento, um emprego melhor, o fim de um namoro, uma mudança para outro hemisfério) e de repente o destino da outra pessoa muda. E ela parte, ás vezes acenando, outras vezes te ameaçando com uma ordem de restrição. Para sempre.

É esse ponto que causa sofrimento. Temos que aceitar que, ás vezes, somos só uma baldeação na vida da outra pessoa. Que temos que seguir nosso caminho sozinhos, ou com novos companheiros de jornada.

A sua vida é uma rodoviária. Haverá chegadas e partidas. Faça o tempo entre elas valer a pena. E não tente segurar ninguém. Pode ser que seus caminhos se cruzem de novo um dia. Mas, se não se cruzarem, certifique-se de que dividiram uma boa coxinha juntos e riram bastante. E compre uma garrafa d’agua para ela. É sempre importante se manter hidratado, a viagem pode ser longa.

Gabinete de crise

– Senhores, a situação da nossa empresa é calamitosa. Nossas vendas caíram pela metade nos principais mercados, nosso estoque está abarrotado de mercadorias e nossos funcionários estão cogitando uma greve por aumento de salários. Precisamos nos unir nesse momento de crise e….
– AHDADJFÇAJEOILAJDFLÇAHDFÇLKAFD…
– O que é isso ?
– É só o Adenor do Financeiro, chefe. Ele tem um ataque toda vez que ouve falar em crise.
– Chamem um médico, porra !
– Não precisa, é só jogar água no rosto dele que passa. Veja só:
SPLASH !
– Pronto, chefe, pode continuar.
– Que bom. Como eu dizia, a situação exige medidas drásticas para contornarmos a crise e…
– ADFADFJÇLADFEPOJFADFÇADJFADF
– AVJDÇFLAJDFJAÉRJDFJADFAJEFAF
– Mas que merda é essa ???
– É a Angela do Recursos Humanos. Acho que ela pegou a mesma doença do Adenor…
– Também acho, ela sempre foi muito impressionável mesmo…
– Joguem água neles agora !
SPLASH !
SPLASH !
– Pronto, chefe.
– Esse não é momento para fraquezas ! Não podemos ficar tendo chiliques por causa da crise !
– ADHFALDSFHQPEOIRASDFADFALHFDA
– AÇDLJASÇDFLHAEFJAFDJAÇSLFDJAÇLDF
– JLAHLELAJEAELJAWEJADSFHADFHA
– O que ? Até o Cláudio da Embalagem e Expedição ?
– Ele nunca foi dos mais equilibrados, se me permite dizer, chefe.
– Mas que merda, estamos em crise e vocês de frescura…
– ADFHADFJHAERALSDÇFHALDHFA
– O que ? A Raquel do Almoxarifado também ?
– Chefe querido, acho o senhor muito competente e preparado, mas talvez não seja bom falar de crise nesse momento..
– AHERHÇEWHREÇLHREÇRHAELRKHAERHAE
– Estamos perdidos, a doença pegou o Dr. José Carlos do Jurídico…
– Só sobramos eu e você, Aderbal.
– Sim, chefe.
– Temos que ser fortes.
– Sim chefe.
– Não vamos falar mais em crise e…Ops…
– AEÇLHREWHFADLHAEHRÇALHFDÇALHDF
– Até tu, Aderbal ! Meu conselho todo tendo chilique ! E estamos em crise e… HAÇLERÇAHAÇHRÇEWAHRÇAHERÇALHERÇALH
ERÇAHERÇALHERÇLAHERÇLAHESRÇALHERÇLAES

Notícias do fundo do poço

Então, senhores, senhoras e senhoritas, estamos aqui no fundo do poço…Não, espera, não está bom. Eu deveria me apresentar antes. Será que deveria mesmo ? Quem se preocuparia com alguém que está no fundo do poço, né ? Ninguém se preocuparia. Nem eu me preocuparia. Isso é irrelevante. Vamos começar de novo.
Bom dia, senhores, senhoras e senhoritas…senhoritas ? Alguém aí ainda fala “senhoritas” ? Não devem nem saber o que é “senhoritas”, podem achar até que é ofensa. Preciso melhorar isso.
Boa tarde senhores, senhoras e novinhas, estamos aqui direto do fundo do poço… Não, não, também não tá bom. Sem novinhas, não combinou. E também sem essa de plural majestático, “nós”, é muito pedante. Extremamente pedante. Até dizer “extremamente pedante” chega a ser pedante. Credo. Justo eu, tão humilde…vamos de novo.
Boa noite, senhoras e senhores, estou aqui no fundo do poço. É meio apertado aqui, na verdade. Não é um do poço dos maiores, esse aqui. É de pedra clara, mas tem umas manchas de limo aqui e ali, e água no chão. Meio fedida, inclusive. A água, eu digo. O limo é pegajoso, verde musgo, tem cara de estar bem grosso e…
Não, não, não, tem “aquis” demais ! E está muito detalhista… Porque as pessoas iam querer tantos detalhes sobre o fundo do poço ? Não, tá ruim. Vamos melhorar, vou (sem plural majestático, sem plural majestático) tentar ser mais direto.
Bom dia, senhoras e senhores, estamos aqui…não, estou aqui…droga, vamos – vou, vou, vou ! de novo.
Boa tarde, senhoras e senhores, estou aqui no fundo do poço. Apertado, mal cheiroso e cheio de limo, este fundo do poço é literalmente…o fundo do poço !
Ficou bom, ficou muito bom, serve de introdução. Agora vamos para a parte principal e…não, espera, tem uma coisa dura aqui. Deixa eu ver o que é…
É uma pá ! Olha só, uma pá…tá meio lascada, esse cabo tá horrível, mas dá para usar na parte principal e…
Espera…
Isso é uma…pá…
Uma pá…
Então, se isso é uma pá…
Aqui não é o fundo do poço !

A Bíblia tem mesmo razão ?

Em 1955 o jornalista alemão Werner Keller lançou o livro “Und die Bibel hat doch recht”, traduzido em português como “…e a Bíblia tinha razão”. A intenção do autor era mostrar que pesquisas arqueológicas mostravam a verdade história mostrada nos livros da Bíblia e que eventos como a migração de Abraão, o êxodo, a conquista de Canaã por Josué, o reino de Davi e Salomão, o cisma que se seguiu, a destruição do reino idólatra de Israel eram verdades históricas.

O livro fez um grande sucesso, e é vendido até hoje, tendo sido atualizado, mesmo após a morte do autor, com novas descobertas arqueológicas. Até que em 2001 os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman lançaram “The Bible Unearthed”, que algum editor gênio aqui no Brasil resolveu intitular de “A Bíblia não tinha razão”. A intenção dos autores era provar justamente o oposto: que os fatos históricos contidos na Bíblia eram, na sua maior parte, lendas e ficção compiladas e amarradas como uma história coerente que mostrasse a superioridade do culto a Jeová, na época do reinado de Josias, rei de Judá (a metade sul do reino israelita depois da divisão ocorrida quando Salomão morreu, e que supostamente se manteve a maior parte do tempo leal aos desígnios de Jeová) no século VII a.C.

Depois de pelo menos 25 anos estudando história bíblica, e depois de ter lido recentemente “A Bíblia não tinha razão” – procurei esse livro por muitos anos, mas só se acha em sebos ultimamente – eu creio estar capacitado para responder à pergunta que dá titulo a este post: afinal, a Bíblia tem mesmo razão ? E a resposta é (que rufem os tambores!): depende de para quem você pergunta.

Apesar de  Finkelstein e Silberman argumentarem, não sem razão, que a maioria dos arqueólogos hoje apoiam as idéias que eles compilaram em seu livro, eles mesmo apontam que não há consenso. E é normal em ciência que não haja consenso. Até hoje há quem não acredite que o HIV não é a causa principal da AIDS (a famosa hipótese Duesberg), por exemplo.

Se você lê lado a lado os dois livros – coisa que eu fiz – você repara que muitas vezes o mesmo achado arqueológico é interpretado de formas diferentes pelos grupos “a favor” ou “contra” da historicidade bíblica. Há dezenas de exemplos. Vou citar apenas um, já que esse texto corre o grande risco de ficar grande demais.

Megido foi uma fortaleza importante antes mesmo dos israelitas aparecerem na história. Pertenceu a caananitas, egípcios, assírios, babilônios, israelitas, romanos, bizantinos, muçulmanos e cruzados em pelo menos 3000 anos de história. É tão importante que uma das interpretações do Apocalipse (há mais interpretações do Apocalipse do que posts nesse blog, e olha que são mais de 500 posts nesse blog) diz que a batalha do Armagedom, em que Jesus derrotará definitivamente o Anticristo, vai acontecer lá.

Porque Megido é importante para a história bíblica? Por causa desse texto da Bíblia:

Salomão possuía cavalariças para quatro mil cavalos de carros e doze mil cavalgaduras para cavaleiros, que ele colocou nas cidades onde estavam abrigados seus carros assim como em Jerusalém, perto de si. (2 Crônicas, 9:25)

Umas das cidades fortificadas por Salomão, sabemos por outro trecho do livro dos Reis, foi Megido. E, adivinhem o que encontraram em Megido ? Sim, estábulos. Aí estão eles:

Tell_Megiddo_Preservation_2009_037Há pelo menos três interpretações para esses estábulos: há quem, como Keller, que defenda que eles foram construídos sob o reinado de Salomão, como está na Bíblia. Isso provaria que houve um reino unificado, que começou com Saul, passou para Davi e depois para Salomão, antes de ser dividido em dois no reinado do filho dele.

Para Finkelstein e Silberman, os estábulos são mais recentes. Ou são de Omri, no começo do reino do Sul, ou de Menaém, quando este reino era uma potência militar que tentou fazer frente à Assíria.  Para eles essa evidência, junto com outros sítios arqueológicos, provam que não existiu um reino unificado sob Davi e Salomão, e que o reino do Sul (Israel) foi muito mais poderoso e desenvolvido que o reino do Norte (Judá) até pelo menos o século VII a.C.

Há ainda, e esses são a minoria da minoria, quem ache que esses estábulos não são estábulos, são depósitos de grãos, e os chochos que foram encontrados eram para os jumentos que carregavam as cargas até os armazéns.

Agora pegue o exemplo de Megido e transporte para dezenas, quiçá centenas de sítios arqueológicos. Simplesmente não há consenso. Amanhã ou depois uma nova descoberta pode “virar o jogo” para qualquer um dos lados. Poderia até dizer que a resposta para a pergunta que dá título a este post poderia ser também: nós não sabemos.

Uma pergunta que sempre me fizeram quando sabiam que eu estudava esse assunto era: é importante que a Bíblia tenha razão ?

Para quem tem fé, não. Fé não se baseia em fatos. Mas há algo chamado geopolítica, e nesse ponto interessa muito que a Bíblia tenha razão.

Desde que o nacionalismo judaico, ou sionismo, se você preferir, se iniciou, em fins do século XIX, o objetivo sempre foi a volta dos judeus à terra de Israel. É a terra que foi dada a eles pelo próprio Jeová, na promessa à Abraão. E que até hoje ainda impulsiona alguns judeus no sentido de não aceitar a presença palestina na “terra santa”, afinal a terra é deles, não só por direito histórico, mas por direito divino.

Um dia saberemos se a Bíblia tem razão ? Provavelmente, a menos que inventem uma máquina do tempo, o que parecer ser impossível, não. Mas podemos procurar pela resposta, o que já é bem esclarecedor. Afinal, o que importa é a jornada, e não o destino, correto, pequenos gafanhotos ?