A Bíblia tem mesmo razão ?

Em 1955 o jornalista alemão Werner Keller lançou o livro “Und die Bibel hat doch recht”, traduzido em português como “…e a Bíblia tinha razão”. A intenção do autor era mostrar que pesquisas arqueológicas mostravam a verdade história mostrada nos livros da Bíblia e que eventos como a migração de Abraão, o êxodo, a conquista de Canaã por Josué, o reino de Davi e Salomão, o cisma que se seguiu, a destruição do reino idólatra de Israel eram verdades históricas.

O livro fez um grande sucesso, e é vendido até hoje, tendo sido atualizado, mesmo após a morte do autor, com novas descobertas arqueológicas. Até que em 2001 os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman lançaram “The Bible Unearthed”, que algum editor gênio aqui no Brasil resolveu intitular de “A Bíblia não tinha razão”. A intenção dos autores era provar justamente o oposto: que os fatos históricos contidos na Bíblia eram, na sua maior parte, lendas e ficção compiladas e amarradas como uma história coerente que mostrasse a superioridade do culto a Jeová, na época do reinado de Josias, rei de Judá (a metade sul do reino israelita depois da divisão ocorrida quando Salomão morreu, e que supostamente se manteve a maior parte do tempo leal aos desígnios de Jeová) no século VII a.C.

Depois de pelo menos 25 anos estudando história bíblica, e depois de ter lido recentemente “A Bíblia não tinha razão” – procurei esse livro por muitos anos, mas só se acha em sebos ultimamente – eu creio estar capacitado para responder à pergunta que dá titulo a este post: afinal, a Bíblia tem mesmo razão ? E a resposta é (que rufem os tambores!): depende de para quem você pergunta.

Apesar de  Finkelstein e Silberman argumentarem, não sem razão, que a maioria dos arqueólogos hoje apoiam as idéias que eles compilaram em seu livro, eles mesmo apontam que não há consenso. E é normal em ciência que não haja consenso. Até hoje há quem não acredite que o HIV não é a causa principal da AIDS (a famosa hipótese Duesberg), por exemplo.

Se você lê lado a lado os dois livros – coisa que eu fiz – você repara que muitas vezes o mesmo achado arqueológico é interpretado de formas diferentes pelos grupos “a favor” ou “contra” da historicidade bíblica. Há dezenas de exemplos. Vou citar apenas um, já que esse texto corre o grande risco de ficar grande demais.

Megido foi uma fortaleza importante antes mesmo dos israelitas aparecerem na história. Pertenceu a caananitas, egípcios, assírios, babilônios, israelitas, romanos, bizantinos, muçulmanos e cruzados em pelo menos 3000 anos de história. É tão importante que uma das interpretações do Apocalipse (há mais interpretações do Apocalipse do que posts nesse blog, e olha que são mais de 500 posts nesse blog) diz que a batalha do Armagedom, em que Jesus derrotará definitivamente o Anticristo, vai acontecer lá.

Porque Megido é importante para a história bíblica? Por causa desse texto da Bíblia:

Salomão possuía cavalariças para quatro mil cavalos de carros e doze mil cavalgaduras para cavaleiros, que ele colocou nas cidades onde estavam abrigados seus carros assim como em Jerusalém, perto de si. (2 Crônicas, 9:25)

Umas das cidades fortificadas por Salomão, sabemos por outro trecho do livro dos Reis, foi Megido. E, adivinhem o que encontraram em Megido ? Sim, estábulos. Aí estão eles:

Tell_Megiddo_Preservation_2009_037Há pelo menos três interpretações para esses estábulos: há quem, como Keller, que defenda que eles foram construídos sob o reinado de Salomão, como está na Bíblia. Isso provaria que houve um reino unificado, que começou com Saul, passou para Davi e depois para Salomão, antes de ser dividido em dois no reinado do filho dele.

Para Finkelstein e Silberman, os estábulos são mais recentes. Ou são de Omri, no começo do reino do Sul, ou de Menaém, quando este reino era uma potência militar que tentou fazer frente à Assíria.  Para eles essa evidência, junto com outros sítios arqueológicos, provam que não existiu um reino unificado sob Davi e Salomão, e que o reino do Sul (Israel) foi muito mais poderoso e desenvolvido que o reino do Norte (Judá) até pelo menos o século VII a.C.

Há ainda, e esses são a minoria da minoria, quem ache que esses estábulos não são estábulos, são depósitos de grãos, e os chochos que foram encontrados eram para os jumentos que carregavam as cargas até os armazéns.

Agora pegue o exemplo de Megido e transporte para dezenas, quiçá centenas de sítios arqueológicos. Simplesmente não há consenso. Amanhã ou depois uma nova descoberta pode “virar o jogo” para qualquer um dos lados. Poderia até dizer que a resposta para a pergunta que dá título a este post poderia ser também: nós não sabemos.

Uma pergunta que sempre me fizeram quando sabiam que eu estudava esse assunto era: é importante que a Bíblia tenha razão ?

Para quem tem fé, não. Fé não se baseia em fatos. Mas há algo chamado geopolítica, e nesse ponto interessa muito que a Bíblia tenha razão.

Desde que o nacionalismo judaico, ou sionismo, se você preferir, se iniciou, em fins do século XIX, o objetivo sempre foi a volta dos judeus à terra de Israel. É a terra que foi dada a eles pelo próprio Jeová, na promessa à Abraão. E que até hoje ainda impulsiona alguns judeus no sentido de não aceitar a presença palestina na “terra santa”, afinal a terra é deles, não só por direito histórico, mas por direito divino.

Um dia saberemos se a Bíblia tem razão ? Provavelmente, a menos que inventem uma máquina do tempo, o que parecer ser impossível, não. Mas podemos procurar pela resposta, o que já é bem esclarecedor. Afinal, o que importa é a jornada, e não o destino, correto, pequenos gafanhotos ?

A verdade, com pouca roupa e mal passada

Algumas coisas na vida são inevitáveis. Não falo dos impostos, da morte ou do São Paulo ganhar a próxima Libertadores. Do que eu falo, então ? Bem, uma lista, não exaustiva, nem completa, inclui:

  • Não importa o quanto você goste do curso que você está fazendo – do técnico à pós graduação, sempre vai ter uma matéria que você odeia, um professor que você detesta, ou ambos;
  • Amizades não duram para sempre. Não importa que você tenha jurado manter contato com seus amigos da escola, faculdade ou daquele trabalho incrível que só tinha gente legal, a maior parte deles vai acabar esquecendo de você. E vice-versa;
  • Seu coração vai ser partido por um grande amor, pelo menos uma vez, muito provavelmente mais de uma. Não só partido, vai ser esmigalhado, destruído e pisado em cima. Para mais detalhes, leia esse meu outro texto;
  • Trabalhar com o que você gosta não significa que você vai amar absolutamente tudo o que fizer, 24 horas por dia, sete dias por semana, para o resto da vida. Haverá dúvidas, stress, correria e muito mais;
  • A coisa mais agradável que você vai fazer durante a maior parte dos seus dias será chegar em casa e tirar os sapatos (sandálias, tênis, etc);
  • Você vai odiar seu chefe, até o dia em que se tornar um. Aí você odiará o chefe do seu chefe;
  • De um terço (sendo otimista) à metade (sendo pessimista) de tudo que você aprendeu até o Ensino Médio você nunca mais vai usar depois de passar no vestibular;
  • Você vai falhar em alguma coisa, em algum momento, em algum lugar, provavelmente de forma desastrosa. E vão te cobrar muito por isso;
  • Você tomará uma decisão errada. Ou duas. Ou dez. E só vai perceber isso algum (ou muito) tempo depois;
  • Você vai chorar abraçado ao travesseiro. Ou a uma almofada. Ou a um filhote de cachorro. Ou um gato. Resumindo: você vai chorar;
  • Suicídio passará pela sua cabeça pelo menos uma vez;

E por último, mas não menos importante, depois que você ler esse texto vai ficar se perguntando quem sou eu, afinal, para ficar escrevendo essas coisas.

Top 5: os melhores livros lidos em 2014

A única tradição depokafeniana se mantém também em 2015. O primeiro dia do ano é dedicado ao post com o “top five” das leituras de 2014. E olha que esse foi um ano bem difícil para escolher só cinco livros, então vamos logo a eles e parar de enrolar, afinal vocês ainda tem que fazer a digestão da ceia de ontem, não é mesmo ?

Digam a Satã que o recado foi entendido

digam-a-sataO ano já começou bem. “Digam a Satã…” foi uma das melhores leituras do ano, e o carnaval nem tinha chegado ainda. A estrutura incomum de narração – tecnicamente, escrita polifônica – na obra de Daniel Pellizzari foi a primeira coisa que me chamou a atenção nesse livro. Mas ele tem outras qualidades. Um humor sutil, personagens com um que de enigmáticos e dois núcleos que parecem que não vão se cruzar, mas aí tudo faz sentido no fim são outros atrativos do livro. A se destacar, a personagem Patrícia e a revelação da sua verdadeira “identidade” e esse trecho sobre como é amar uma mulher russa:

Basta olhar para uma jovem russa com um mínimo de atenção para compreender que ela pode explodir a qualquer momento. Pode estar montada em cima do camarada e de repente soluçar, cerrar os punhos e golpear o peito do infeliz, depois o colchão, agarrando os lençóis com força suficiente para rasgar, e depois erguer os olhos para o teto berrando fonemas guturais como se estivesse ajoelhada em frente a um trigal nas cercanias de Volgogrado, encarando os céus e amaldiçoando o destino. E mesmo assim, em meio aos murros, às lágrimas, à baba, aos soluços e à gritaria, continuar tão bela quanto as melhores tragédias. Um investimento de alto risco, as jovens russas.

Ao contrário das jovens russas, esse livro não é um investimento de alto risco. Pode comprar, que provavelmente você vai gostar. Ou não.

Falando com os mortos

Falando com os Mortos“Falando com os mortos” conta a história das irmãs Katie e Maggie Fox, que a partir da segunda metade do século XIX fizeram muito sucesso como médiuns em terras estadunidenses e ajudaram a popularizar o espiritualismo por lá e pelo mundo. Um livro que trate de um assunto tão polêmico como espiritualidade corre dois riscos: ou ser crítico demais ou “chapa branca” demais. Mas a autora consegue fazer um livro equilibrado, que tenta mostrar a incrível história das irmãs da forma mais imparcial possível. É fascinante que duas garotas de 11 e 14 anos que simplesmente começaram a ouvir barulhos em sua casa numa zona rural dos Estados Unidos em uma época em que havia muito menos liberdade para as mulheres possam ter chegado tão longe. Engodo ? Fraude ? Verdade ? Cabe ao leitor decidir depois de ler, e isso é ótimo. Se você é espiritualista ou simplesmente cético, vale a leitura desse livro, uma história que, para quem não é espírita é pouco conhecida, mas que é muito interessante.

Eu, Christiane F., a vida apesar de tudo

eu, christiane fEm fins dos anos 80, começo dos anos 90 do século passado, alguns professores achavam que era uma boa idéia passar o filme da Christiane F. (e também Pixote, a lei do mais fraco) para incautos alunos do Ensino Médio a título de educação contra as drogas. Bom, para mim ao menos não serviu para nada serviu para que eu soubesse da existência do livro e o devorasse em uma semana. E agora, mais de 30 anos depois do lançamento do primeiro livro, Christiane F. está de volta para contar como foi a sua vida desde o final do primeiro livro. E o sentimento, pelo menos para mim, é de desperdício. Não do livro, que é ótimo, bem organizado, tem boas fotos, mas da vida da Christiane F. Uma vida desperdiçada. Como disse alguém que resenhou esse livro, ela é uma anti-heroína (não a droga, a forma feminina de herói). E o livro deixa isso bem claro. Ela não se esconde por trás de desculpas, não omite que continuou junkie durante a vida toda e parece se arrepender só a partir do momento que o governo tirou dela a guarda do seu filho. E como nada na vida é cem por cento certo (eu diria, filosoficamente, que a vida é uma sucessão de erros contínuos) ela acabou sendo até uma boa mãe, dentro das circunstâncias, é claro. Não sei se os professores de hoje em dia vão recomendar que seus alunos leiam esse livro. Acho que não. Mas deveriam. É forte sem ser vulgar, verdadeiro sem descambar para o sensacionalismo. Indico, é claro, todos os cinco livros que fazem parte desse post, mas se você puder escolher só um, fique com esse.

Mussum Forévis

mussum-forevis-juliano-barrto-ligia-braslauskas-livroContar a história do Mussum antes dele ser Mussum. Esse é o grande mérito da obra de Juliano Barreto. Da infância pobre até o estrelato na TV, muita coisa aconteceu na vida de Antônio Carlos Bernardes Gomes. Curso técnico em mecânica, o cargo de cabo da Aeronáutica – de onde ele fugia dos plantões para tocar samba, o sucesso com Os originais do Samba (chegaram a tocar até no exterior) até a entrada meio que sem querer na TV, está tudo lá. De bônus, algumas curiosidades sobre os outros Trapalhões, como a fase espiritualista de Zacarias no final da vida – e os boatos maldosos de que ele seria homossexual e teria morrido de AIDS, o fato de que o Didi foi dono da Granja Comari antes da CBF e a briga que separou os Trapalhões por um breve período e levou os outros três a lançarem um filme em separado. Rico em detalhes, imparcial, bem organizado, vale a leitura, tenha você conhecido Os Trapalhões ou só o sucesso recente do Mussum na época dos memes.

Jerusalém – a biografia

jerusalem a biografiaQue outra cidade do mundo mereceria um livro de quase oitocentas páginas só contando a sua história ? Jerusalém, é claro, a “cidade santa” para três das mais importantes religiões deste pálido planeta azul. Desde as origens anteriores aos israelitas até aos acontecimentos atuais como a Intifada, a história de Jerusalém foi longa, e o livro também. Mas o autor – judeu, diga-se de passagem – organiza a sua obra de uma forma que não deixa a leitura cansativa, focando a história nas famílias e pessoas que viveram na cidade. É interessante notar que Jerusalém já foi um lugar de paz e tolerância. Em pouquíssimas ocasiões, já que houve momentos pavorosos, como as frequentes perseguições a judeus e cristãos durante o governo dos muçulmanos e a reconquista da cidade durante a primeira cruzada onde, contam os próprios cronistas cristãos, os cavalos andaram com sangue até os tornozelos. No final da leitura, você percebe que a vendetta entre israelenses e palestinos é bem mais complicada do que parece. Há bons argumentos para se reivindicar a posse da cidade pelos dois lados, e nós nem estamos colocando os cristãos na conta. Se você  gosta de história e quer compreender mais a fundo a questão palestina, vai gostar muito desse livro. São só oitocentas páginas, o George R. R. Martin chama isso de prefácio de um livro de bom tamanho.

Quando um coração se parte

Quando um coração se parte, ele nunca mais será o mesmo.

Você pode usar a cola do tempo para juntar todos os caquinhos, mas sempre ficará uma marca. Uma rachadura grande, um caquinho fora do lugar, um risco que seja, mas sempre fica uma marca. Indelével.

Se o seu coração se partiu de verdade, você nunca mais terá o mesmo coração de novo.

Um coração não se parte numa paixão tórrida, num relacionamento fugaz, por mais intenso que ele tenha sido.

Um coração só se parte se tiver sido amor verdadeiro. Carnal, filial, fraternal, não importa o tipo. Amor de verdade não se encontra nas esquinas da vida.

O amor verdadeiro gosta dos grandes espaços abertos, onde pode se expandir.

Há quem prefira não expor seu coração de novo depois que ele se parte.

Ele é trancado numa caixa de titânio e a chave é jogada na Fossa Mariana. Isso, porém, não muda o fato de que seu coração não é mais o mesmo. E nunca será.

Mas há quem seja valente e não tenha medo de expor seu coração a novas marcas. As marcas vão se acumulando, até que chega um dia que a cola do tempo não funciona mais.

Aí é hora de procurar onde fica a Fossa Mariana.

Mas há pessoas mais afortunadas do que outras, que expõe seu coração e ele não é partido de novo.

Ele encontra aconchego na mão de outra pessoa. Talvez, para sempre.

E aquela rachadurazinha parece cada vez mais insignificante. Mas não desaparece.

Porque quando um coração que conheceu o amor verdadeiro se parte, é para sempre.

Cinco coisas que aprendi ao sair do Facebook

Então que a seis meses atrás eu inativei meu perfil no Facebook. Não foi um ato de rebeldia contra o sistema (seja lá o que for o sistema) nem tampouco um socialcídio (adoro um neologismo, vocês não?) já que continuei em outras redes sociais.

Deixando a motivação de lado, depois desse tempo aprendi algumas coisas e resolvi compartilhar com meus parcos, mas distintos leitores. Vai que ajuda vocês a darem “o grande passo para a frente” e deixar aquela rede social para trás, né ? Então vamos lá.

1 – Esquecer aniversários não é assim tão ruim

Uma das coisas que me deixava preocupado ao abandonar o Facebook era que eu não ia mais lembrar o aniversário de ninguém. Sou péssimo para datas, quem me conhece sabe. Mas eu percebi que não é tão ruim assim esquecer alguns aniversários. Ou muitos.

Não há mérito algum em parabenizar aquele ex-colega de trabalho, seu primo distante ou o irmão da sua cunhada. Eles não vão se importar se você não os parabenizar. É simples assim.

É com as pessoas que vão sentir a falta do seu parabéns que você deve se importar. E, para essas, você dará um jeito de se lembrar. Ou, dizendo em outras palavras, se importe com quem importa.

2 – Nunca mais participarás de um sorteio

Não que eu fosse muito assíduo em participar desses sorteios de brindes no Facebook, mas já tinha ganho um livro uma vez através do Skoob. Bom, agora não posso participar mais. E isso não é ruim.

Algumas marcas abusam nas exigências para você concorrer. Compartilhar a postagem publicamente, curtir três páginas diferentes, tirar uma selfie e alinhar seu computador/notebook/tablet com Meca para você ter a chance de disputar um chaveiro com outras 10 mil pessoas. Não dá, assim já é abuso.

Nunca vou ganhar mais nada de nenhuma empresa. Mas também não vou precisar ficar fazendo propaganda de graça para ninguém. E eu nem preciso de um chaveiro mesmo.

3 – Saia do Facebook e vá ler um livro

Menos Facebook significa mais tempo livre, o que para mim significa ler mais. Muito mais.

Em anos recentes esse é o que eu mais li até agora. Tá certo que ter comprado um Kobo também ajudou nisso, mas ter mais tempo livre é essencial. Não dá para ficar lendo só de madrugada, não é mesmo ?

Para mim, a troca é mais do que vantajosa. Parei de ler citações duvidosas (não, aquele texto de merda não é do Veríssimo), embates políticos (não sei como vocês aguentam Facebook em época de eleição), manifestações explícitas de xenofobia/racismo (sem comentários) e passei a me informar, aprender e me divertir mais, com fontes que eu mesmo escolhi, e sem precisar me estressar com ninguém. É um caminhão de vantagens, como diz aquela propaganda.

Claro que você pode não gostar de ler. Mas você terá mais tempo para o que você gosta, seja assistir aquelas séries estadunidenses ou taxidermia. Vale a pena.

4 – Você não vai ficar desatualizado

Outra coisa que me deixava preocupado ao sair do Facebook era ficar desatualizado com relação aos memes/menes/virais que vão surgindo. Bem, isso não aconteceu. Ou quase, pelo menos.

Tá certo que as vezes os virais demoram a aparecer em outras redes sociais, mas isso não significa que você vá ficar mais desatualizado que o jornal de hoje de manhã. Tem coisas demais viralizando. E nem sempre são coisas realmente engraçadas. Esperar um pouco e conhecer esse conteúdo já mais “filtrado” pode ser uma boa. Ou uma ótima.

Além disso, há os apps de comunicação. Você sempre vai ter aquele amigo sem noção (oi Ester, você está aí ?) que vai te passar aquele meme “engraçadíssimo” no Whatsapp. Então não se preocupe, você não vai virar uma versão moderna de um ermitão.

5 – Facebook é lugar de gente feliz

Essa é a mais importante lição de todas. Facebook é lugar de gente feliz. Se você não está feliz, saia.

Tem muita gente que reclama que a felicidade exposta nas redes sociais é falsa, ou no mínimo exagerada. Eu não acho que as pessoas, ou pelo menos a grande maioria delas, exponha a sua felicidade “por mal”, digamos assim.

Para mim é simples. Pessoas felizes querem mostrar que estão felizes. Me baseio em mim mesmo. No ano passado eu era feliz, e esfreguei minha felicidade na cara de todo mundo várias e várias vezes. Faz parte. Você também já fez isso, seu vizinho já fez isso, seu pai já fez isso. Bom, talvez seu pai não tenha Facebook, mas ele faria se tivesse.

Mas, a partir do momento que você não está e/ou é feliz (há uma diferença, eu expliquei meu ponto de vista aqui) seu lugar não é mais no Facebook. Porque a felicidade dos outros vai passar a te incomodar. E incomodada ficava a sua avó.

——

Então é isso. Não é uma lista exaustiva, nem definitiva, nem tampouco profunda, foram só algumas reflexões soltas. Se ajudar você a se desgarrar do Facebook, que bom. Se você acha que eu só escrevi um monte de besteira, bom também. Não vamos brigar por causa disso, afinal não estamos numa postagem do Facebook.  :)

Lido: A menina mais fria de Coldtown

Eu sou do tipo de pessoa que acha que deve experimentar as coisas para julgar se elas são boas ou não. Imbuído (adoro essa palavra, vocês não ?) deste espírito, resolvi ir audaciosamente até onde nunca tinha ido e ler um livro do (sub- ?)gênero “sobrenatural teen”.

Claro que eu não comecei com Crepúsculo, que é droga pesada demais para um novato ,que é um clássico do (sub-?)gênero. Resolvi encarar um lançamento recente, “A menina mais fria de Coldtown“, de Holly Black.

coldtownPonto positivo para a capa. Alias, já faz um tempo que estão caprichando nas capas aqui no Brasil.

Mas o que mais me agradou foi que o universo criado pela autora faz sentido. Eu acho isso muito importante. A forma com a autora torna o vampirismo uma infecção que pode ser curada antes da transformação definitiva, a glamorização dos vampiros, a existência das “coldtowns” – guetos onde os vampiros são aprisionados – a forma com a epidemia se espalhou, a reação dos vampiros “old school”, tudo isso está bem amarrado e faz sentido.

Some a isso uma protagonista feminina forte, um misterioso vampiro, um garoto infectado, mas ainda não transformado e um massacre logo nos primeiros capítulos e você tem a impressão de que terá um bom livro em mãos.

Infelizmente, fica só na impressão. E daqui para frente haverá alguns (poucos) spoilers. Você foi avisado, não reclame.

O que estraga tudo é…romance. Uma história que poderia ser puro terror, altas aventuras e uma galerinha da pesada (modo Sessão da Tarde ativado) é estragado por romance. Por descrições melosas de beijos e dúvidas existenciais (ou não existenciais, afinal um vampiro é um morto-vivo). E é claro que a protagonista vai se apaixonar pelo vampiro, e claro que o amor deles é impossível porque ela (ainda) é humana. E é claro que tudo vai dar certo no final.

Eu acho que perdi essa fase da evolução humana, esqueceram de me mandar um email. Para mim, vampiros são assustadores. Como em Drácula, por exemplo. Mas pelo visto muita coisa mudou desde que John Polidori publicou “O Vampiro” em 1819. Agora vampiros são “cool”. Vampiros centenários se apaixonam por garotas de 17 anos que eles acabaram de conhecer. Estranho mundo novo.

Mas, divago. Voltando à história, ela não é ruim. Faz sentido, tem umas partes bem interessantes, mas, com o material que a autora tinha em mãos, dava para fazer uma história menos melosa e mais assustadora. Um final mais dramático e menos “foram felizes para sempre” também seria bom.

Enfim, é um livro razoável. Não pretendo voltar ao (sub-?)gênero “sobrenatural teen”, mas se você tem menos de 21 anos, ou é fã de Crepúsculo, ou ambos, você tem boas chances de gostar. Vai fundo, e não me chama.

A chuva

Chovia de novo. Chovia muito naquele lugar. Quase todo dia.
Ela sempre tivera dúvidas se chovia porque ela estava triste, ou se ela estava triste porque chovia.
Até que um dia ela percebeu que ela sempre estava triste, chovendo ou não.
A água batia com força na janela, fazendo muito barulho. Ela queria gritar de medo, mas sabia que isso atrairia a mulher de branco.
Um trovão fez tudo balançar. Ela se aguentou como pode. No segundo, não conseguiu mais. E gritou.
A mulher de branco veio, e daí a pouco ela estava imersa num sono sem sonhos.
—–
Era noite de novo.
A chuva começou mansa. Não era como a tempestade do outro dia. Não tinha vento, não tinha trovões.
Ela ficou olhando a água escorrer lentamente pela janela. Chegou a se levantar e colocar a mão no vidro. Ela queria abrir a janela, mas isso faria barulho.
Ela tinha que evitar o barulho a todo custo.
De repente, o trovão. Sem pensar, ela se esconde debaixo das cobertas, choramingando.
E a mulher de branco apareceu de novo.
—–
Agora era dia. Pelo menos parecia ser. A claridade que vinha de fora era fraca. Talvez estivesse amanhecendo. Ou anoitecendo.
Ela sempre achara esquisito essa questão de noite e dia. Noite era quando estava escuro, haviam dito para ela. Era hora de dormir.
Não fazia sentido. Ela dormia durante o dia. Toda vez que a mulher de branco aparecia, ela dormia. Um sono sem sonhos.
Era uma chuva fraquinha, que mal fazia algumas gotas escorrerem pelo vidro sujo. Ela ficou esperando os trovões.
Não teve trovões.
Ela criou coragem e abriu um pouco o vidro. Seu coração estava aos pulos.
Mas a mulher de branco não apareceu.
Ela esticou o braço por entre as grades. E tocou a chuva pela primeira vez.
Era gelada. Muito gelada. Mas ela gostou.
E o cheiro. Tinha um cheiro gostoso de alguma coisa boa lá fora. Cheiro de grama molhada.
Passou a mão molhada no rosto. Deu uma sensação boa. Era diferente da água morna do banho que lhe davam as vezes.
Ela tinha que provar mais vezes disso.
Sem pensar, correu para a porta. Deu de cara com a mulher de branco.
—–
Se passaram muitos dias sem chuva.
Ela pensou que a mulher de branco tinha mandado secar a chuva. E a culpa era dela.
Só podia ser isso.
O cheiro que vinha do corredor dizia que em breve a mulher de branco traria a sopa de repolho. E depois ficaria escuro.
Começou a chover.
Ela correu para a janela. Mas agora a sua janela tinha um cadeado.
A água caía mansamente, como naquele outro dia.
Nada de trovões de novo. Era um sinal.
Ela tinha que ir de encontro à chuva.
Abriu a porta com cuidado. Correu, silenciosamente, para o gramado dos fundos.
A sensação da grama aos seus pés era tão boa que lhe deu arrepios de algo que ela nem se lembrava mais de quando havia sentido pela última vez.
Felicidade.
Correu e dançou, riu e chorou, e sorveu a gelada água que vinha dos céus.
A mulher de branco apareceu, com cara de poucos amigos, seguida de dois homens.
Não tinha importância. Sempre haveria outro dia chuvoso.
Agora ela não tinha mais medo da chuva.