Breve história

“A bilhões de anos, o Universo foi criado. Ou ele sempre existiu e não teve começo, ou surgiu do nada. Na verdade, ninguém sabe, e ninguém se importa hoje em dia.”

“Se tinham passado alguns bilhões de anos do surgimento do Universo quando, num planeta insignificante na borda de uma galáxia comum uma espécie de seres que se alimentavam do leite das suas mães desceu das árvores e achou que seria uma boa ideia caminhar em dois pés.”

“Alguns milhares de anos se passaram e essa espécie adquiriu polegares opositores como os nossos e cérebros um pouco maiores do que os seus primos de espécies aparentadas, o que os levou a andar por todo o planeta. Eles gostavam de andar, e sempre em bandos, cada vez maiores.”

“Um dia um grupo desses resolveu que era mais inteligente parar de andar e se fixar num único lugar. Eles passaram a erguer casas, templos para seres místicos chamados deuses e plantar comida. Dessa forma eles foram aumentando ainda mais o tamanho dos seus bandos.”

“Não demorou muito tempo e um outro bando desses seres inventou uma forma de repassar conhecimento para as gerações futuras sem que precisasse ser oralmente. Foi uma grande invenção, e então esses seres se espalharam ainda mais pelo planeta e multiplicaram grandemente o seu número, que chegou a bilhões.”

“Essa espécie, que se auto denominou “humanos” era muito alta. Alguns chegavam a ter mais de dois metros! Eles se tornaram uma espécie orgulhosa. Eles conseguiam ir de um lado a outro do planeta em naves voadoras primitivas e tinham um sistema de comunicação rudimentar que chegava em quase todo o planeta e se chamava internet.”

“Mas eles não eram tão inteligentes quanto pensavam, e estavam envenenando propositalmente o seu planeta, que eles tinham colocado o nome de “Terra”. Ninguém até hoje entendeu o porque, mas parece que tinha a ver com a circulação de uns objetos retangulares e finos pintados com números que esses humanos chamavam de “dinheiro”. Alguns historiadores acham que esse tal de dinheiro era tóxico, mas nunca saberemos. Quando as condições ficaram quase insalubres, alguns migraram para outro planeta um pouco mais distante da sua estrela. O planeta era inóspito e eles nunca conseguiram voltar a ter o mesmo número de habitantes do que no seu planeta natal.”

“Mas foi ali, naquele planeta, que os humanos batizaram de “Marte” que, a milhares de anos atrás, a nossa espécie começou a evoluir e onde emergiu o Grande Império que temos hoje, meu filho.”

– Nem fodendo que eu vou passar as férias em Marte, pai ! É deprimente ! Eu quero ir para Órion ou Betelguese !

-Manassés Raoni, você vai para Marte sim ! Eu já paguei o seu teletransporte !

 

 

 

A alma da festa

Estênio (com “E”, como ele gostava de frisar) era presença garantida em todas as festas da cidade. Espirituoso, galanteador, sempre bem vestido, ele era dono de uma “personalidade magnética” como o havia descrito a coluna social do jornal da cidade. Era a alma da festa.

Não havia um evento em que Estênio (com “E”, é sempre bom dizer) deixasse de comparecer, desde quermesses de bairro até bailes de debutantes no clube mais chique. Sempre sorrindo, sempre com um martini na mão (mesmo quando não serviam o drink na festa), sempre com as melhores piadas e cercado das mulheres mais bonitas.

Mas Estênio (com “E”, sempre ) também tinha um lado misterioso. Ninguém sabia direito onde ele trabalhava, por exemplo. Os boatos diziam que ele era desembargador, mas ninguém sabia direito o que era ou que fazia um desembargador. Também nunca tinha sido visto com uma companhia fixa. Até onde se sabia não tinha namorada, esposa ou amante. “Sou de todas”, ele costumava dizer, entre um sorriso e outro.

Por isso causou comoção o fato de Estênio (já disse que é com “E”, né ?) ter faltado no grande baile de encerramento da Festa da Acerola, o maior evento do terceiro bimestre na cidade. Era o primeiro evento que ele faltava desde…bem, desde sempre. Ninguém se lembrava de outra festa em que ele não estivesse presente.

Os boatos começaram a correr pela cidade. Alguns diziam que Estênio (é com “E”) tinha sido sequestrado, outros garantiam que ele tinha sido morto por um marido traído que tinha pego ele na cama com a esposa grávida e um anão e outros juraram por suas mães mortas atrás da porta que tinham visto ele deixar a cidade numa limousine branca. Segurando um martini.

O principal jornal da cidade colocou seu melhor jornalista investigativo no caso. Sidraque era o nome dele, tinha 75 anos e estava semi-aposentado. Ele ia todos os dias até a redação, datilografava sua coluna numa velha Remmington, passava para o estagiário digitar e voltava para casa a tempo de almoçar macarrão com feijão. Mas era a mente mais arguta da cidade. Ele que tinha desvendado o famoso caso de corrupção que ficou conhecido como Quadrilha das Enfermeiras, que desviavam AAS do posto de saúde. Era a pessoa perfeita para a missão. Assim que foi informado, Sidraque passou a mão na lista telefônica e fez uma ligação.

No dia seguinte, Sidraque soltou a matéria bomba. Estênio (ele nem fez questão de dizer que era com “E”) tinha se aposentado. Estava com problemas hepáticos (“acho que é a azeitona do martini”) e o dinheiro da herança estava acabando (“me recuso a sair de casa com uma roupa que já usei”). Estava recluso em casa, e não aceitaria mais convites para festas, convescotes, quermesses ou bailes (“o único evento que eu irei agora será meu velório. e vai ser a contragosto”).

E assim nasceu a lenda de Stênio.

A casa

Desde criança, sempre que Celeste passava em frente aquela casa, se sentia mal. Como se algo de muito ruim estivesse para acontecer, ou acontecendo, ou tivesse acontecido ali.

Não era uma casa diferente das outras do seu bairro. Pequena, nos fundos do terreno, com uma área de brasilit na frente, algum mato e um cachorro latindo. Alguém morava ali, alguns diziam que era uma velha, outros que era um casal, mas ela nunca via ninguém além do cachorro.

Na adolescência Celeste flertou por um tempo com a magia e o espiritismo, e ela achou que sabia o que estava de errado na casa que, naquela época, tinha sido ampliada e ganhado uma simpática floreira junto ao muro: era tudo obra de espíritos obsessores. Ela chegou a pensar em fazer um ritual lá, se o dono concordasse, é claro, mas ela tinha medo do cachorro e nunca tentou nada.

Celeste se transformou numa jovem adulta e tinha recém se convertido ao neopentecostalismo. Mas a sensação ao passar em frente da casa, que agora tinha uma nova janela vermelha no que deveria ser a sala, era a mesma, senão pior. Só podia ser coisa de demônios, é claro. Enviados do capiroto, do pé-rachado, do inimigo, para atrapalharem a sua vida. Por isso que aquele cachorro latia tanto. Devia ver os demônios.

Quando se casou, Celeste deixou o bairro, mas voltou alguns anos depois com dois filhos, uma cicatriz de cesárea, uma bala alojada na bacia e agnóstica. Com dois bacuris para criar, não tinha muito tempo para pensar em casas, mas evitava sempre que podia passar em frente àquela, que tinha sido reformada de novo: trocaram a grade, e agora ficava mais fácil para o cachorro latir em qualquer um que passasse na rua.

Mais alguns anos se passaram e Celeste era agora uma quase balzaquiana estressada andando pelo bairro quando passou em frente aquela casa, que tinha sido pintada de um verde abacate horrível. O cachorro, como sempre, estava latindo furiosamente mas, saindo pelo portão, estava uma velinha encurvada.

Era a primeira vez que ela via alguém naquela casa ! A velinha parecia inofensiva. Estava trajando uma saia longa e tinha um coque bem arrumado percebeu Celeste, enquanto andava cautelosamente atrás dela. Quando chegaram no cruzamento ela se adiantou e ajudou a velinha atravessar a rua.

-Bom dia, meu nome é Celeste, e o seu ?

-Bom dia, filha. Eu me chamo Celestina.

-A senhora mora naquela casa verde?

-Sim, filha, desde 1981.

-A senhora vai achar graça, mas eu tinha medo da casa da senhora quando era mais jovem.

-Ah é ? Porque, minha filha?

-Não sei, era uma sensação esquisita. E tem aquele cachorro preto que não para de latir e…

-Cachorro ?? Eu nunca tive cachorro, minha filha. Sou alérgica.

E então Celeste compreendeu tudo.

O ônibus

Todas as semanas quando entrava naquele ônibus ela sentia algo esquisito. Era uma sensação indefinida, que ela não saberia explicar com palavras, um misto de arrepio que subia pela espinha e uma sensação de que algo estava muito, muito errado.

Naquela sexta-feira em particular a sensação estava mais forte, a ponto de deixá-la desconfortável. Enquanto as outras pessoas assumiam os seus lugares, ela ficava cada vez mais aflita. Chegou a cogitar descer antes do embarque. Mas não podia fazer isso. Não havia outro horário, e ela estava com saudades da família. Apertou com força o pingente no seu pescoço com a imagem de São Bento, rezando uma prece muda.

Quando o ônibus saiu da rodoviária o desconforto dela já tinha quase virado desespero. Conforme o veículo avançava depressa para a rodovia, ela tentou se acalmar observando os outros passageiros.

Já tinha um tempo que ela dava apelidos aos passageiros, velhos conhecidos seus de outras sextas-feiras. Hoje, do seu lado ia A Faladeira, uma senhora de seus trinta anos que passava metade da viagem no celular falando com, ela suspeitava, o próprio marido. Ou talvez fosse o amante. Mas hoje ela estava quieta.

Do outro lado do corredor estava o Zé Canceroso, um senhor dos seus sessenta anos que ficava ao lado do ônibus fumando um cigarro atrás do outro e que só embarcava no último minuto. Mas hoje ele não estava fedendo fumaça.

Do lado dele estava A Alienada, uma adolescente com cara de entojada que ficava o tempo todo no celular. Mas hoje ela estava…lendo um livro ! Tinha uma coisa errada. Uma coisa muito errada. Tudo estava muito…incomum.

Conforme os quilômetros foram passando o desespero dela foi se materializando num suor gelado escorrendo pela nuca. Se levantou e foi para o final do ônibus pegar uma água. Passou pela Dorminhoca, que estava bem acordada conversando com o Bonitinho, parecendo não reparar na espinha gigante que tinha brotado na testa dele.

Voltou para o seu lugar tremendo. Mal conseguiu abrir o copo de água. Ainda faltava mais de uma hora para a primeira parada. Fechou os olhos, como se o gesto pudesse afastar os seus temores e acalmar o seu coração disparado.

Então o ônibus parou. Ele nunca parava antes da rodoviária. Ela abriu os olhos. Tinha alguém vestido de preto entrando. Do outro lado da estrada ela conseguiu visualizar uma placa: Cemitério São João Batista. Seu estômago se revirou, o gosto de bile chegou na garganta.

Ela se levantou tão rápido que quase tropeçou nas próprias pernas. O medo lhe deu uma velocidade sobrenatural e no segundo seguinte estava brigando com o motorista que não queria deixar ela descer ali. Quando os outros passageiros começaram a xingar e reclamar que a briga estava atrasando a viagem, ele abriu a porta relutante e ela desceu, decidida a chegar até ao posto de gasolina que tinha visto alguns quilômetros antes. Depois veria o que fazer.

Alguns dias depois o legista estava examinando o corpo de uma jovem mulher, bonita mesmo na lividez da morte, quando notou uma medalinha de São Bento no pescoço dela. A retirou delicadamente, enquanto fazia uma anotação no formulário.

A poucos quilômetros dali, o coveiro do Cemitério São João Batista abria mais uma cova. Ele cantarolava, feliz.

O funeral

Eram sete da manhã de um dia de sol. O que significava que já estava um calor infernal.

Tinha sido um erro mudar para aquela tigela poeirenta na beira da floresta ? Talvez. Mas pelo menos o salário era bom, pensou ele, enquanto aumentava o ar condicionado do carro para o máximo.

Aquela estrada era péssima, cheia de buracos, e de vez em quando um galho caído. Mas era a única que ligava o seu condomínio à cidade. Se é que podia chamar aquele lugar deprimente de cidade. Mas o salário era bom. Ele suspirou.

E ainda tinha os gêmeos. Lindos, um sonho realizado mas, por Deus, como davam trabalho. Ainda mais agora que já estavam andando. Tinha sido mais uma noite de pouco sono. Acelerou o carro. Precisava urgentemente de uma dose generosa do café extra forte da firma. E o salário ainda era bom !

O carro deu uma vibrada. Era algum problema no amortecedor, tinha dito o mecânico. Ele precisava trocar, mas não tinha outro carro e não tinha como ficar sem. Quem sabe nas férias. Afinal, o salário dele era bom. Podia viajar para a praia. Ou para Campos do Jordão.

Deu um branco nele. Devo ter apagado por alguns segundos, pensou. Balançou a cabeça para dissipar a névoa e acelerou o carro. A pista estava ótima, o tempo estava fresco, o carro respondia bem. Acelerou mais. Mas onde ele estava indo mesmo ? A mente dele pareceu um pouco confusa por um momento. Claro, claro, estava indo num velório. Como pode esquecer ?

A bucólica cidadezinha só tinha um velório. Ele passou pelo portal da cidade. Nunca tinha reparado muito bem nele. Parecia até bonito se você olhasse do angulo certo. Virou à esquerda. Pronto. Estava na rua do cemitério.

Tinha poucos carros em frente ao modesto edifício. O morto não deveria ser muito popular. Quem era mesmo ? Ele não conseguia se lembrar. Entrou no recinto. O cheiro misturado de velas e flores estava enjoativo demais, então ele ficou parado perto da entrada observando. A mulher ao lado do caixão lhe parecia estranhamente familiar. Quem era ela mesmo ?

Duas crianças passaram correndo. Uma delas parou ao seu lado e sorriu. Ele sorriu de volta e mostrou a língua para a criança, que saiu correndo gritando papa, papa, papa… Bonitinho, pensou ele. Tão parecido com um dos meus filhos…

Ele tinha chegado no final do velório. O padre encomendou o corpo o melhor que pode. Parecia com pressa e fedia a álcool . Então os funcionários da funerária fecharam o caixão e começaram o transporte. Ele saiu do caminho e seguiu no final do pequeno cortejo. A mulher do falecido chorava muito. Uma das crianças de antes estava no seu colo. A outra, estranhamente, seguia ao seu lado. Ela continuava repetindo…papa, papa, papa…

O caixão foi colocado ao lado da sepultura. A esposa pediu para abrirem por uma última vez. A última despedida! Ele se aproximou, curioso. Não conseguia se lembrar de quem era o funeral…

Quando a tampa foi retirada, ele gritou, e então tudo ficou claro.

O morto era ele mesmo.

O lacaio

A madrugada estava gelada. Como fazia frio naquele lugar ! Ele acelerou o passo e olhou para o relógio. Meia hora de caminhada. Hora de fazer a meia volta e retornar para o seu apartamento.

Mas ele estava perto do Monumento pelos Mártires da Grande Purificação e resolveu continuar em frente. Mais uma quadra e ele virou à direita e chegou na praça do monumento. Riu por dentro ao se lembrar que na infância tinha medo da expressão das estátuas das crianças no monumento. Ele não compreendia a importância dele. E pensar que a uma geração atrás aquela praça era considerada um local perigoso e ele nunca poderia estar caminhando naquele horário. Tempos bárbaros, pensou ele.

Apertou mais o passo agora, não podia se atrasar. Sentia-se cansado, mas menos que na semana anterior. O governo estava mais uma vez certo ao instituir o Grande Plano Nacional de Atividade Física Continuada. Que a sorte a dele viver nessa época !

Subir as escadas para chegar no apartamento era a pior parte do exercício matinal, mas elevadores eram um luxo que seu prédio não tinha. Chegou no quente e acolhedor apartamento e ouviu barulhos vindos da cozinha. Sua esposa com certeza estava preparando o desjejum. Foi direto para o banho, para não perder tempo precioso.

Enquanto tomava seu banho gelado (ajudava na circulação, tinha dito o governo) repassou mentalmente as tarefas do dia. Ia chegar na casa do Patrão a tempo de supervisionar a montagem da bandeja do café da manhã. Depois de servi-lo, seria a hora de ajudar o Patrão a se vestir e arrumar seu quarto enquanto a família fazia a sua devoção diária. Hoje era quarta-feira, então o Patrão iria jogar bridge no clube com os amigos, o que daria tempo para ele ajudar a governanta na limpeza da casa. Depois, servir o almoço com os outros lacaios, tarefa que ele não gostava. Considerava os outros lacaios preguiçosos e desatentos.

Mas, eram ossos do ofício. A tarde do Patrão seria no campo de golfe, e ele torcia para ser escolhido para acompanhá-lo. Gostava do ar livre, e carregar os tacos nem era uma tarefa tão pesada assim. Antes do toque de recolher o patrão já estaria em casa e ele ajudaria a servir o jantar. O Patrão não receberia ninguém naquela noite, então ele estaria de volta a sua família bem cedo.

Tinha muita sorte de ter um bom emprego de lacaio para uma família tão distinta pensou ele, enquanto se enxugava rapidamente. O cheiro do chá preparado pela esposa enchia o pequeno apartamento e ele já ouvia o burburinho dos cinco filhos conversando na cozinha.

Se serviu de uma xícara bem grande do seu chá favorito e escolheu o menor pedaço de pão, como sempre. Seus filhos, respeitosamente, aguardaram ele se servir primeiro, então atacaram o que sobrou avidamente. Sentiu falta do seu filho mais velho.

– O Elifaz ainda não se levantou, nobre esposa ? perguntou, distraidamente

A esposa levantou os olhos da sua xícara e ele viu desconforto nos olhos dela.

– Ainda não, querido esposo, ela respondeu, baixo. Deu mais um gole no chá. Ele está um pouco…chateado nos últimos dias – completou ela, hesitante.

– Com o que, nobre esposa ? – ele estava surpreso. Elifaz era o seu primogênito e um jovem rapaz muito ajuizado.

– Amanhã é o Dia da Seleção dele, querido esposo.

Ah, o dia da Seleção ! Como o tempo tinha passado rápido! Ainda se lembrava de como tinha sido na sua vez. A insegurança, o medo. Justificável, ele ainda não confiava plenamente nos algoritmos de seleção do governo, por mais que isso tivesse sido ensinado a ele na escola. Tudo tinha dado certo. Afinal, ele tinha um bom emprego, uma família amorosa e não faltava comida na sua despensa.

Olhou no relógio. Podia tirar cinco minutos para falar com o filho, se corresse o caminho entre o ponto de ônibus e a casa do Patrão. Valia o sacrifício.

– Vou falar com ele, nobre esposa, e se levantou. Ato continuo, todos na mesa se levantaram também. Podem continuar comendo, pessoal, riu ele.

Elifaz tinha o seu próprio quarto. Era seu direito, como primogênito. Bateu na porta três vezes. Chamou. Não tinha tempo a perder. Abriu a porta.

A primeira coisa que ele viu foram as pernas dependuradas.

O primeiro conto

Atenção: esse é um conto (levemente) erótico com temática BDSM. Se você não gosta desse tipo de conteúdo, não prossiga. Você foi avisado. De nada.

Ela escutou o silvo do chicote cortando o ar e retesou as costas esperando o impacto. Mas ele não veio.

Ele sempre faz isso, pensou ela. Esse alarme falso. Não é a toa que ele é sádico e…

O impacto veio com tudo, sem ela estar preparada. A onda de dor subiu pelas suas costas e a fez gemer e tentar fugir instintivamente da dor. O segundo golpe veio, e depois o terceiro, e ela mordeu forte a mordaça, enquanto tudo o que ela sentia eram ondas de dor e prazer misturadas.


Ele amarrou a última tira e agora ela estava totalmente imobilizada. Ela sentiu o hálito dele próximo do seu rosto. Ele colocou o fone de ouvido gentilmente. Logo começou a tocar aquele mesmo som de sempre, meio hipnótico, que a deixava relaxada ao mesmo tempo que não permitia que ela ouvisse mais nada.

Sentiu seu mamilo direito começar a ser chupado, lambido e mordiscado. Sua excitação foi crescendo, aumentando ainda mais quando ele parou e colocou a garra. Ela sabia o que viria a seguir.

Mas ele se demorou. Aquele som, entrando na cabeça dela, a fazia perder a noção do tempo. Não é a toa que ele é sádico e…

O choque veio com tudo, sem aviso. Os seus peitos pularam loucamente, a dor se espalhando mais e mais. Ela quis gritar, mas não podia.

Assim como começou, o choque parou repentinamente. Ela ainda arfava quando sentiu as garras sendo colocadas na sua vulva. Fechou e apertou os olhos, mesmo estando vendada, como se aquilo pudesse ajudá-la a suportar a dor.

O choque veio rápido dessa vez. Ela cravou os dentes na mordaça, a dor e sensação de queimação a fazendo tremer violentamente. Então veio o prazer, rápido e intenso. Era a melhor e a pior coisa do mundo, ao mesmo tempo, juntas e misturadas.


Aquela sensação do plug dentro do seu anus era uma das que ela mais gostava. Geladinho, molhado de lubrificante, doendo, mas ao mesmo tempo gentil, como se seu anus tivesse sido preparado a vida toda para recebê-lo.

Ela estava ali, imobilizada de quatro a muito tempo. Ou seria pouco? Ela perdera a noção do tempo, com aquele som entrando ininterruptamente no seu ouvido. Tentou se mexer um pouco, mas as algemas presas na argola no chão a machucaram. Melhor ficar quieta.

Percebeu que o plug estava sendo tirado. Lentamente, muito lentamente, milimetro por milimetro. Ela soltava gemidos a cada pequena puxada. Ele estava fazendo de propósito, é claro. Não é a toa que ele é sádico e…

O plug terminou de ser puxado e ela soltou um suspiro de alívio. Mas ele durou pouco tempo. Ela sentiu o pênis intumescido dele adentrando seu anus sem dó. Ela mordeu a mordaça e ele continuou, metodicamente, na mesma velocidade. A dor aumentando mais e mais, e ela tenta se soltar das algemas, o que a machuca mais. Ele aumenta a velocidade e a intensidade, e o prazer dela vem forte, enquanto ela percebe que seus pulsos estão sangrando.


Ela gostava daquela sensação. A mão grande e pesada dele passando a pomada calmante nas suas costas enquanto ela estava imobilizada na cama.

Um pouco antes ela tinha fumado um cigarro de maconha. Ela não gostava de maconha no dia a dia mas a analgesia que ela trazia era perfeita para aquele momento. Ele prosseguiu com movimentos delicados por suas costas machucadas. Nem parecia que era aquela mesma mão que, minutos antes, a tinha castigado severamente.

O efeito da cannabis começou a ficar mais forte e ela relaxou e sorriu. Sentiu a mão dele se mover gentilmente pelas suas nádegas, em suaves movimentos circulares espalhando a pomada. A mesma bunda que ele havia espancado com um remo. Parecia ter sido a séculos atrás.

Sem aviso, ele começou a masturbá-la. Ela gemeu baixinho, mas ele fez shhhh e ela se calou imediatamente. Ele aumentou a velocidade, ela foi ficando mais e mais excitada, lutando consigo mesma para não gemer. Quando ela estava quase chegando a mais um orgasmo, ele parou.

Não é a toa que ele é um sádico.