Amor, uma doença

Daqui uns cinquenta anos no futuro, uma equipe de cientistas de uma prestigiosa universidade ocidental publicará uma pesquisa num importante periódico científico.

A pesquisa, cheia de palavras difíceis como “neurotransmissores”, “sinapses” e “neuropeptídeos” chegará a conclusão de que, em tese, é possível impedir uma pessoa de se apaixonar através de uma substância química que imite certas combinações de neurotransmissores.

A notícia chegará nos portais de internet, com manchetes como”Grupo de cientistas conclui que o amor é uma doença”. E eles não estarão assim tão errados. O nível do jornalismo vai melhorar muito daqui cinco décadas, como vocês podem ver.

Porém, o comitê de ética da prestigiosa universidade ocidental onde a pesquisa original começará não vai consentir na realização de testes em humanos. O que será um erro muito grande. Quase catastrófico.

Uma parte dos pesquisadores partirá então para a China do Norte, onde os controles éticos são mais frouxos, para não dizer inexistentes. A China do Norte daqui a cinco décadas ocupará a maior parte do que hoje conhecemos como China, porém a região de Guandong e arredores se separá do resto do país e se declará “China do Sul” depois de uma breve guerra civil em 2030.

Os pesquisadores ocidentais vão trabalhar por muitos anos, quase vão desistir muitas vezes, terão um pouco de sorte e conseguirão atingir seu objetivo. Será possível sintetizar uma vacina que impede a pessoa de se apaixonar. Porém, nem tudo vai sair como o esperado: seu efeito será permanente, e não transitório.

Os cientistas terão noção das implicações sociais de uma substância assim. Mas nada poderão fazer, porque a pesquisa deles pertencerá ao glorioso governo da China do Norte – no momento em guerra com a Sibéria do Sul pelo controle de regiões ricas em petróleo no permafrost siberiano.

A substância, jamais testada em larga escala, será guardada a sete chaves, com muitas salas de controle, e reconhecimento de iris, e soldados armados.

Porém, essas precauções todas não vão parar um monge budista-terrorista-tibetano da Frente de Libertação do Tibet, que rouba uma grande quantidade da substância. Alguns meses depois, o monge, ou seus colaboradores, nunca ficará claro, jogará toda a sustância no abastecimento de água da cidade chinesa de Urumqi.

O sistema de informações estatal da China do Norte chamará o ato de “terrorismo covarde” e declarará pomposamente que “todas as medidas de contenção foram tomadas imediatamente ninguém foi afetado”. Será mentira.

Toda a população da cidade será afetada. Milhões de pessoas. A cidade será cercada, num primeiro momento. Não se sabia como as pessoas iam reagir. A notícia vaza na internet ocidental, e Urumqi passará a ser conhecida na internet como “a cidade sem amor”.

As pessoas de Urumqi reagirão…normalmente. Nada mudará na vida deles. Pelo contrário. As coisas até vão melhorar. O número de suicídios cairá drasticamente. O de violência às mulheres chegará praticamente à zero. Um ou outro negócio tipo de negócio irá falir: floriculturas, maternidades e fábricas de preservativo, mas não chegará a ter um impacto econômico relevante. O exército da China do Norte, convencido que seus cidadãos não se transformarão em zumbis, liberará o acesso à cidade.

A substância chegará, clandestinamente, em poucos meses, ao ocidente. Será vendida para jovens e vai se disseminar rapidamente. A China do Norte, sob pressão das potências ocidentais, mandará destruir todos os seus estoques.

Será tarde demais. A substância será fácil de ser reproduzida e laboratórios clandestinos o farão em massa em vários países do mundo. Paulatinamente, a situação sairá do controle. Quase toda uma geração envelhecerá sem se reproduzir. Alguns países entrarão em colapso. Outros, simplesmente, deixarão de existir.

A repressão finalmente vencerá, mas a humanidade demorará várias décadas para se recuperar do que será chamado, muito tempo depois, de “os anos sem amor”. Toda a pesquisa dos cientistas originais, já mortos a bastante tempo, será destruída e seus nomes serão proscritos.

Moral da história: o amor é uma doença. Mas não vivemos sem ele.

Amigas

– Minha mãe está um fera comigo…

– A minha também…Elas dizem que nós temos que ser amigas…

-Sim, porque elas são amigas desde a época da escola e blablabla..

-Já ouvi aquela história da lancheira umas mil vezes. Haja saco !

-O que é uma lancheira mesmo ?

-Ah, acho que era uma coisa que elas levavam lanche de casa.

-Não tinha cantina naquela época ?

-Acho que ainda não tinham inventado. Acho que nem McDonalds existia!

-Tá, e o que a gente vai fazer ?

-Vamos fingir que somos amigas para elas não torrarem a nossa paciência. Pelo menos até a viagem para a praia, depois a gente vê o que faz.

-Aí, nós vamos para Ubatuba de novo ! Eu tinha esquecido completamente.

-Ah, eu até que gosto de lá.

-Eu sei que você gosta, eu te vi pegando um menino da última vez.

-Ah, foi só uns amassos. Ele nem beijava bem. E era de Minas. Mineiros não são confiáveis. Minha mãe quem disse.

-Tá, então a gente finge até a volta da praia, depois dizemos que brigamos e foi definitivo, tá ?

-Para mim tudo bem. A gente é muito diferente, nossas mães não entendem.

-Verdade. Eu sou são paulina. Você é corintiana.

-Eu sou católica, você é budista.

-Eu gosto de Belle and Sebastian, você de Arcade Fire.

-Totalmente diferentes !

-Mas, falando de Ubatuba, eu nunca vi você pegando ninguém lá…

-Ah, é que eu sou discreta.

-Quer fama de santinha, né ?

-Não, é que eu sou homossexual.

-Ah tá. Sua mãe sabe ?

-Não contei. Ela ia querer me levar no padre para me curar…

-Ah, que chato.

-Olha só, eu te contei um segredo. Isso é coisa de amigas.

-Ah, nada a ver, não somos amigas por causa disso.

-É, tem razão.

-Então vamos sair e dizer para nossas mães que está tudo bem e…

-Não, espera. Eu te contei um segredo. Você tem que me contar um também. Para igualar as coisas.

-Ah, eu não tenho segredos !

-Sei, e aquele papo que rola lá na escola ? Aquele que…

-Que eu não sou mais virgem ? Ah, é verdade.

-Jura ? Que bom para você ! Foi com o carinha da sua classe ?

-Não, você não conhece, foi um garoto que eu conheci lá na ioga.

-Você faz ioga ? Eu sempre quis fazer, mas minha mãe não deixa, diz que é coisa do demônio e tals.

-Olha, se você quiser eu posso te ensinar umas posições mais fáceis.

-Eu quero ! Tá vendo, aconteceu de novo…

-O que ???

-Você me ajudando. Isso é coisa de amigas.

-Para com isso ! Nós não somos amigas…

-Mas podíamos ser. Você não ficou me julgando quando eu disse que era homossexual. Foi legal da sua parte.

-É, e nem você ficou me olhando feio quando eu disse que não era mais virgem…

-Então, a gente já trocou segredos, podíamos tentar ser amigas. Topa ?

-Tá, vamos tentar. E o que a gente faz agora ?

-Huuum…que tal perguntar para sua mãe o que é uma lancheira, afinal ?

O Brasil do futuro

Essa noite eu tive uma visão sobre como será o Brasil no futuro. Ou foi um sonho, talvez. Foi mais ou menos assim:

-Cremilda, acorde ! Tem alguém aí querendo se aposentar…

-Hã ? O que ? E quantos anos ele tem ?

-Disse que tem noventa e sete.

-Novo demais, mas deixa ele entrar. Tem meses que eu não atendo ninguém.

-Bom dia, moça.

-Bom dia, qual o seu nome ?

-É Welerson da Silva, moça.

-E o senhor trouxe todos os documentos ?

-Meu bisneto está trazendo…ah, olha ele aí.

-Pode me dar a primeira caixa aqui garoto. Isso, pode colocar as outras nove caixas ali no canto, obrigado.

-Está tudo certo ?

-Vejamos, senhor Welerson, vejamos. Aqui no meu sistema diz que o senhor é fichado na polícia…

-É, eu ocupei uma escola na época do gol…, digo, da revolução.

-Isso foi em 2020 ?

-Não, foi no primeiro gol.., digo, revolução. Em 2016. Em 2020 eu já estava na faculdade…

-Aqui consta que o senhor não contribuiu por cinco anos nessa época.

-Sim, eu me exilei na Venezuela depois de 2020, mas tive que voltar depois que os EUA invadiram e transforam o país no seu 51º estado.

-Ah sim. O senhor se formou em história ? Estou surpresa !

-Sim, dei aula por alguns anos até o primeiro governo de São Geraldo Alckmin, O Benevolente, quando ele extinguiu essa disciplina e substituiu por OSPB. Aí eu passei a ser empacotador em um supermercado.

-Sua documentação parece estar em dia, sr. Welerson, mas o senhor não atingiu a idade mínima para aposentadoria. Faltam três anos.

-Mas como ? Eu contribui por 75 anos !

-Sim, mas na revisão das regras do ano passado são necessários 75 anos de contribuição e 100 anos de idade para se aposentar, senhor.

-Mas eu tenho direito a aposentadoria proporcional. Eu conheço meus direitos !

-Sim, o senhor tem direito. Deixe eu colocar os seus dados aqui no sistema…Bem, o senhor tem direito a 75%…

-75% do salário ? Eu aceito !

-Não, 75% de desconto. Pelo sistema aqui isso daria hoje…

-Mas isso é um absurdo ! Como eu vou viver ?

-O que o senhor queria, senhor Welerson ? Que o estado o sustentasse ? Porque o senhor não fez um plano de aposentadoria privada ?

-Porque eu ganhava tão pouco que mal dava para viver !

-Isso não é culpa do governo. O senhor poderia ter mais de um emprego. Na meritocracia em que vivemos…

-Eu vou lhe dizer onde você enfia essa sua meritocracia !

-Contenha-se, sr. Welerson ! Ou o senhor pode ser enquadrado como livre-pensador e seus direitos serão cassados !

-Tudo bem, desculpe. Eu volto em três anos…

-Ou mais, as regras podem ser revisadas de novo, o senhor sabe.

A esotérica

– Miga, vamos sair hoje ?
– Não posso, amore ! Marte está na terceira casa de Leão, isso não é coisa boa !
– Para com isso ! Você tá arrumando desculpa de novo !
– Não é desculpa ! Lembra o que aconteceu da última vez que você me convenceu a sair quando eu não queria ?
– Huuuum…não lembro ! (risos)
– Falsa ! Lembra sim ! (mais risos)
– Não foi tão grave assim, vai.
– Claro que não ! Eu só fui parar num motel com um broxa, o carro dele quebrou na volta e nós fomos assaltados. Eu te disse, Saturno na quarta casa de Sagitário é desastre na certa !
– Então tá. Vamos sair no Carnaval então !
– Nem pensar ! Eu tenho um retiro de meditação com a Marília num sítio ali em…
– Com a Marília ? AQUELA Marília ?
– Aquela mesmo, miga, a que estudou com a gente ! Lembra dela ?
– Se eu lembro dela ? Miga, a Marília é LOUCA !
– Outras pessoas mais velhas e mais sábias do que você já confundiram sabedoria com loucura e…
– Ela jogou água benta no nosso professor de Filosofia ! Na sala de aula ! Numa noite de quarta-feira !
– Ah, ela teve os motivos dela. Eram bons motivos, inclusive.
– Quais ? Tinha uma conjunção de Marte e Vénus na décima terceira casa ? O Gasparzinho apareceu e mandou ela fazer isso ?
– Não, nem tem décima terceira casa, miga, não fala besteira ! Ela tinha feito o mapa astral dele e descoberto que…
– Não, não me conte, não quero saber. Você vai preferir passar o final de semana com a maluca da Marília do que comigo ! Magoei…
– Ah, a Marília está muito melhor agora, mais calma. Ela está praticando um zen-bahaísmo-budismo originário das montanhas do sul de Uttar Pradesh. Você tem que conhecer, miga !
– Deus me livre ! Prefiro ter todas as minhas unhas arrancadas com um alicate. Sem anestesia.
– Não fala assim !
– Tô magoada com você ! Mas me convida para comer uma pizza aí na sua casa que eu te perdoo !
– Não posso, miga ! Agora eu sou vegana grau três. Não como nada que faça sombra !
– O que ??? Desde quando ?
– Desde anteontem !
– E você está comendo o que, mulher ?
– Basicamente iogurte e bebendo minha própria urina…
– Você tá bebendo seu próprio xixi ????
– Sim, é bom para a saúde, miga !
– Qual o próximo passo ? Viver de luz ?
– Ah, eu queria muito, mas não tenho força de vontade ! Miga, eu vou desligar, tenho que fazer um ritual para a Lua agora.
– Ritual para a Lua ? São três horas da tarde !
– É complicado miga, é complicado.
– Eu sei, miga. Você é complicada.
(CONTINUA. OU NÃO)

A chuva

Chovia de novo. Chovia muito naquele lugar. Quase todo dia.
Ela sempre tivera dúvidas se chovia porque ela estava triste, ou se ela estava triste porque chovia.
Até que um dia ela percebeu que ela sempre estava triste, chovendo ou não.
A água batia com força na janela, fazendo muito barulho. Ela queria gritar de medo, mas sabia que isso atrairia a mulher de branco.
Um trovão fez tudo balançar. Ela se aguentou como pode. No segundo, não conseguiu mais. E gritou.
A mulher de branco veio, e daí a pouco ela estava imersa num sono sem sonhos.
—–
Era noite de novo.
A chuva começou mansa. Não era como a tempestade do outro dia. Não tinha vento, não tinha trovões.
Ela ficou olhando a água escorrer lentamente pela janela. Chegou a se levantar e colocar a mão no vidro. Ela queria abrir a janela, mas isso faria barulho.
Ela tinha que evitar o barulho a todo custo.
De repente, o trovão. Sem pensar, ela se esconde debaixo das cobertas, choramingando.
E a mulher de branco apareceu de novo.
—–
Agora era dia. Pelo menos parecia ser. A claridade que vinha de fora era fraca. Talvez estivesse amanhecendo. Ou anoitecendo.
Ela sempre achara esquisito essa questão de noite e dia. Noite era quando estava escuro, haviam dito para ela. Era hora de dormir.
Não fazia sentido. Ela dormia durante o dia. Toda vez que a mulher de branco aparecia, ela dormia. Um sono sem sonhos.
Era uma chuva fraquinha, que mal fazia algumas gotas escorrerem pelo vidro sujo. Ela ficou esperando os trovões.
Não teve trovões.
Ela criou coragem e abriu um pouco o vidro. Seu coração estava aos pulos.
Mas a mulher de branco não apareceu.
Ela esticou o braço por entre as grades. E tocou a chuva pela primeira vez.
Era gelada. Muito gelada. Mas ela gostou.
E o cheiro. Tinha um cheiro gostoso de alguma coisa boa lá fora. Cheiro de grama molhada.
Passou a mão molhada no rosto. Deu uma sensação boa. Era diferente da água morna do banho que lhe davam as vezes.
Ela tinha que provar mais vezes disso.
Sem pensar, correu para a porta. Deu de cara com a mulher de branco.
—–
Se passaram muitos dias sem chuva.
Ela pensou que a mulher de branco tinha mandado secar a chuva. E a culpa era dela.
Só podia ser isso.
O cheiro que vinha do corredor dizia que em breve a mulher de branco traria a sopa de repolho. E depois ficaria escuro.
Começou a chover.
Ela correu para a janela. Mas agora a sua janela tinha um cadeado.
A água caía mansamente, como naquele outro dia.
Nada de trovões de novo. Era um sinal.
Ela tinha que ir de encontro à chuva.
Abriu a porta com cuidado. Correu, silenciosamente, para o gramado dos fundos.
A sensação da grama aos seus pés era tão boa que lhe deu arrepios de algo que ela nem se lembrava mais de quando havia sentido pela última vez.
Felicidade.
Correu e dançou, riu e chorou, e sorveu a gelada água que vinha dos céus.
A mulher de branco apareceu, com cara de poucos amigos, seguida de dois homens.
Não tinha importância. Sempre haveria outro dia chuvoso.
Agora ela não tinha mais medo da chuva.

O primeiro dia

Ele acordou e se sentiu confuso. Estranhou a textura dos lençóis, o colchão, a decoração da quarto…aí ele se lembrou. Tinha se casado. Era o primeiro dia no seu novo apartamento.

Virou-se com um sorriso no rosto esperando encontrar a sua esposa, dormindo de bruços com a cara enfiada no travesseiro, como sempre. Mas só encontrou o vazio.

“Ela deve estar fazendo o meu café para trazer na cama” pensou ele. Apurou o ouvido, esperando ouvir os sons familiares vindo da cozinha que ela tinha tido o capricho de montar. Não ouviu nada.

“Será que ela saiu para comprar pão? A essa hora ? ” ele sabia que ela era maluca por pão, mas justo no primeiro dia? Resolveu esperar um pouco. Meia hora se passou e nada. Ele resolveu se levantar.

Grudado com fita adesiva no espelho do banheiro havia um bilhete. “Me encontre no lugar do primeiro beijo”.

Ah, então ela queria fazer um joguinho. Era uma maluca mesmo, aquela sua esposa. Fazer ele atravessar a cidade e ir até a rodoviária. Tudo bem, ele se vestiu e foi.

Tinha sido ali, defronte aquele mesmo portão que ele, nervoso e vindo de longe, a tinha beijado pela primeira vez. Lembrou até da cadeira onde ele estava sentado, e do coração batendo forte como um tambor. Ela não esta ali naquele momento. Talvez estivesse escondida esperando. Resolveu se sentar e entrar no jogo, fingindo estar despreocupado.

Uma criança se aproximou dali a instantes. Trazia uma bilhete que “uma moça bonita” tinha deixado para entregar para ele. “No lugar da primeira noite” era tudo que estava escrito no pedaço de papel.

Ah, então ela tinha ido para o hotel onde tinham passado a primeira noite juntos. Muito legal, mas ela podia ter contado os planos. Foi a pé mesmo, era ali perto, caminhando por aquela cidade fria que agora também era a dele.

Chegou na recepção e perguntou se havia uma reserva em nome da sua esposa. Não tinha. Nem no seu nome. Estranho. Onde ela estaria ?

Estava saindo confuso do hotel quando um entregador venho correndo e chamando seu nome. Havia um outro bilhete na sua mão.

“Onde passeamos pela primeira vez”. No shopping, ele bem se lembrava. Era ali perto também. Tinham ido passear, ele quisera comprar uma aliança e pedi-la em namoro ali mesmo, mas resolvera esperar. E tinham comido fast-food. Passou pelos corredores agora familiares. Observou a praça de alimentação de longe, esperando vê-la. Ela não estava lá.

Desceu até lá assim mesmo, na espera de outro bilhete, outra indicação. Qualquer coisa. Não havia nada. Onde aquela maluca tinha se metido ? Onde ela estaria?

Se sentou no mesmo fast-food da primeira vez, a espera dela. Uma atendente veio até ele. E graças aos céus ela tinha outro bilhete.

“Me encontre onde estiver o seu coração”. E então ele soube onde ela estava. E dirigiu a toda até lá.

E quando ele abriu a porta do quarto ela estava lá, esperando. E eles se amaram. E foi só o primeiro dia.

E no segundo dia ele abriu os olhos, virou para o lado e…

Ela estava lá, dormindo de bruços com a cara enfiada no travesseiro. E sorrindo.

Duas histórias na rodoviária

Ele desceu do ônibus e recebeu o golpe frio do vento. Praguejou baixinho por não ter escolhido uma blusa mais quente. Entrou na fila para pegar a bagagem de mal humor e com sono.

Ainda era de madrugada mas a rodoviária estava lotada. Tenso por estar pela primeira vez em uma cidade estranha ele desabou numa cadeira desconfortável enquanto pensava nos eventos improváveis que o tinham levado até lá.

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Ela estava tão nervosa que nem esperou o carro parar direito no estacionamento e já estava descendo apressada. Olhou pela décima vez para o relógio do celular e saiu andando rápido.

A mãe a chamou. Parecia de mal humor, não estava acostumada a acordar tão cedo. Não precisa ter pressa, ainda faltam alguns minutos, disse a ela. Só então ela reparou na quantidade de gente ao redor. Muitas malas e vai e vem de pessoas, elas poderiam se perder. Relutante e impaciente, esperou.

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Enquanto os pensamentos voavam em sua cabeça ele começou a observar as pessoas ao seu redor. Apressadas em sua maior parte, cheias de malas e tensão. Então, sem mais nem menos, sua atenção foi voltada para duas pessoas a sua frente.

Eram mãe e filha, os rostos semelhantes não deixavam margem para engano. A mãe estava impecavelmente vestida, tanto que destoava da multidão ao redor. A filha estava mais despojada e mexia a toda no celular.

Estavam obviamente esperando alguém, pois olhavam toda hora para a plataforma de desembarque. A mãe parecia desconfortável, como se sentisse deslocada naquele ambiente. A filha roia as unhas de vez em quando, ansiosa.

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Demoraram a encontrar a plataforma certa e se acomodaram nas horríveis cadeiras laranjas. Ela olhou de novo no celular. Ainda faltavam dez minutos, se não houvesse atraso.

Um homem a sua frente chamou a sua atenção. Ele parecia tenso, deslocado e com frio. Olhava a todo momento para os lados, enquanto mandava mensagens no celular.

Sua mente viajou um pouco. Quem seria ele ? Pelo tamanho da mala ou estava de partida ou tinha acabado de chegar. Os braços cruzados diziam que ele estava com frio, não devia ser mesmo da cidade. Será que estava esperando alguém ? Quem seria?

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Ele ficou observando as duas, enquanto se acalmava. Quem será que elas esperavam ? Um pai, um amigo, o namorado da garota ? Mil conjecturas passaram na sua cabeça cansada.

Sua atenção se voltou para uma mensagem no celular. O motivo pelo qual a sua viagem fora feita estava a caminho, quase chegando. A tensão aumentou. Era chegada a hora tão esperada. O estomago revirou. As borboletas estavam ativas de novo, a todo vapor.

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Notou que ele a olhava. De relance, seu olhar pareceu assustado e perdido, como se estivesse divagando. De repente uma mensagem no celular o fez sorrir. A tensão pareceu se desvanecer do seu rosto como um passe de mágica.

Ela se voltou para o próprio celular. A hora tinha chegado, ele estava para desembarcar. Olhou nervosamente para a plataforma, a espera do ônibus. Que estava encostando. Ela se levantou correndo.

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Ele mal reparou quando a garota se levantou apressada e foi abraçar uma pessoa que chegava. Um senhor de meia idade, obviamente cansado. Devia ser seu pai. A felicidade no rosto da menina era evidente. A mãe reagiu mais polidamente e o cumprimentou com um beijo no rosto.

Então tudo perdeu a importância quando ela chegou, e eles se abraçaram e se beijaram, e o tempo parou, e uma nova era começou.

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Quando se soltou dos braços do pai ela ainda teve tempo de reparar que o homem estava agarrado a uma negra bonita, beijando-a com paixão. “Todos estão esperando alguém” pensou ela. “Que sejam felizes”.

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Ela não sabia que seu desejo seria transformado em realidade. Sempre e para sempre.