Eu tive um futuro promissor ?

“Eu tive um futuro promissor” era uma das comunidades mais legais do falecido Orkut (saudades imensas !). Eu estava lá porque…bem, porque acharam que eu tinha um futuro promissor. Estavam errados, é claro, mas eu não culpo quem pensou isso. Eu enganei todos direitinho. E foi sem querer – ou pelo menos, inconscientemente.

O fato é que depois que aprendi a ler eu adquiri uma verdadeira adoração pela palavra escrita. Parte da culpa disso é dos meus pais, que eram – ainda são – leitores vorazes. Junte a isso uma biblioteca escolar bem abastecida e sempre acessível e o “estrago” estava feito.

Daí que aos sete, oito anos eu lia muito mais do que qualquer criança da minha idade. As consequências foram óbvias: melhorei meu vocabulário e minha escrita. Fazia sucesso nas redações da época. E é claro que as minhas gentis professoras acharam que isso era um sinal de inteligência. Não era. Eu só lia bastante e era curioso.

Aí chegou a temida quinta série, quando teríamos aulas com vários professores e eu adicionei mais uma arma ao meu arsenal. Spoilers. Sim, spoilers. Eu lia os livros escolares assim que os recebia, no começo do ano. Não entendia tudo, é claro, mas conseguia captar alguma coisa (a memória sempre foi boa), o que me levava a fazer perguntas sagazes durante as aulas. Pronto, mais um falso sinal de inteligência.

Os anos foram se passando e mais um item se juntou aos outros: confiança. Depois de anos ouvindo de seus professores, pais e colegas que você é inteligente, você acaba se convencendo disso. E aí eu ia para as provas, principalmente a de professores mais exigentes, sem medo ou ansiedade. Enquanto meus colegas se descabelavam,eu ia sereno e tranquilo. Isso, é claro, fazia toda a diferença.

A última cartada nessa comédia de erros foi um pouco de engenharia social, apesar de na época eu nem saber que isso existia. Eu tinha facilidade para perceber o que fazer para agradar os professores. O de Ciências, por exemplo, gostava de piadas, não reclamava que interrompesse as aulas dele e as provas eram fáceis – se você desse uma resposta que fosse vagamente correta, ele já considerava certa. Estava doido para aprovar todo mundo sem esforço.

Já o professor de História era rígido e exigente, principalmente com datas. Aí não tinha jeito, era decoreba mesmo. Suas aulas expositivas eram ótimas, bastava prestar atenção nelas que você saia na frente. E se você fosse fazer uma pergunta, que fosse inteligente, caso contrário ele te fuzilava com os olhos.

Então foi assim que alguém sem nenhum talento especial a não ser curiosidade, uma memória um pouco acima do razoável e gostar de ler passou pelo ensino fundamental com fama de super inteligente. Depois o “mundo lá fora” me mostrou que as coisas não eram bem assim, mas isso é assunto para outro dia. Ou não.

Invejas

Tem uma coisa que eu invejo muito nas outras pessoas. Quer dizer, há milhares de coisas que eu invejo nas outras pessoas. São tantas que daria para encher a memória do meu Kobo (Kindle é muito mainstream para mim) e ainda faltaria espaço. Mas, para fins desse texto, vou me fixar em uma única coisa.

Eu invejo pessoas que sabem distinguir gêneros musicais. Sou péssimo nisso. Esses dias mesmo comecei a ouvir uma banda que jurava ser indie. Até que me disseram que na verdade era folk. Comparei com Belle and Sebastian, que pelo menos todo mundo concorda que é indie. Para mim são muito parecidos, e não faço a mínima ideia do que seja folk ou que bandas são folk, ou de onde surgiu o folk.

Mas chique mesmo é saber distinguir os gêneros do jazz. Esse é um nível que eu nunca atingirei, nem que reencarnação exista (não existe). É só começar a tocar o saxofone e o sujeito já sabe na hora se é hard bop ou cool jaz. Não que eu goste muito de jazz, mas não espalhe isso por aí. Alguém com a fama de ser “tão inteligente”  como eu (só a fama, garanto) tem que gostar de coisas como jazz, ópera e autores russos mortos (ainda bem que não os vivos).

O fato é que na cesta genética que eu recebi veio muito pobre em recursos musicais. Se tem uma coisa que meus parentes, amigos e conhecidos concordam é que eu sou a pessoa menos capacitada neste planeta brega na borda oriental da galáxia para cantar uma canção. E eles estão certos. Canto todas as músicas no mesmo ritmo – o errado, é claro.

A minha completa inabilidade musical é o meu segundo não-talento mais evidente – o primeiro é a minha total e absoluta inadequação social, que as pessoas percebem de longe. Isso não me impede, é claro, de estar só de cuecas cantarolando Zeca Baleiro enquanto escrevo esse texto (calma alma minha, calminha, você tem muito o que aprender !).

Durma com essa imagem na sua mente agora. De nada. 🙂

 

 

Fiquei obsoleto ! E agora ?

Eu fiquei obsoleto.

De todas as coisas que me aconteceram desde que o médico bateu na minha bunda e disse “está vivo, é um menino” (foi um parto de emergência) essa foi com certeza uma das mais surpreendentes.

Achei que nunca ficaria obsoleto. Trabalhando com TI (só um jeito mais esnobe de dizer que trabalho com informática) e tendo sempre contato com jovens, achei que permaneceria sempre atual. Ledo engano.

Havia, é claro, muitos sinais disso, mas eu não soube ver. Esse blog, por exemplo, é um deles.

Sou de uma geração que se acostumou a adquirir e transmitir conhecimento através da palavra escrita. Por exemplo, quando algum professor nos tempos de escola queria complementar alguma matéria, ele não passava um vídeo, ou um gráfico. Ele passava mais xerox da mesma matéria.

Na verdade, na minha época de escola ainda não tinham inventado o xerox e a gente usava pergaminhos escritos à mão com tinta extraída de moluscos, à luz de velas de sebo (as de óleo de baleia eram caras) mas não posso entregar a minha idade assim tão fácil.

Então, cresci na era da palavra escrita, mas essa era acabou. A era dos blogs pessoais acabou. Ou talvez não tenha acabado e os blogs involuam e voltem a ser o que eram no início, diários virtuais. Esse blog mesmo está virando isso.

Agora o que está atual são os vídeos, os vlogs, os youtubers. Tentei entrar na onda fazendo uns vídeos no meu outro blog sobre política local, mas não deu certo, não levo jeito, falo rápido demais, etc, etc. Ou seja, fiquei obsoleto.

Claro que esse é um exemplo, há outros, como eu não saber para que serve afinal o Snapchat, não conhecer nenhuma banda/cantor/cantora/dupla musical que tenha surgindo a menos de dez anos ou o fato de usar tecnologia antiga no meu trabalho (em TI, tecnologia antiga é aquela com mais de cinco anos).

OK, estou obsoleto. O que eu faço agora ?

Se uma coisa fica obsoleta, você joga num fundo de gaveta, manda para o lixo ou vende pelo Mercado Livre (outro sinal da minha obsolescência, a moda agora é OLX). E quando uma pessoa fica obsoleta, o que fazemos com ela ?

Geralmente os obsoletos são os mais velhos, os idosos. Esses são mandados para os depósitos de gente chamados asilos. Mas eu fiquei obsoleto cedo demais, não posso ir para um asilo.

E agora, José ? (Citando Drummond, eu tiro meu atestado definitivo de obsolescência).

O outono da alma

Quando chega o outono da alma, você desacelera. Em parte porque você está cansado e cada subida se transforma num Everest. E em parte porque você aprendeu que devagar se vai longe.

Quando chega o outono da alma, você esfria. Porque o fogo da primavera não pode durar para sempre. Porque o seu idealismo não mudou o mundo como você esperava. Porque você não se importa mais.

Quando chega o outono da alma, você sente dor. Um dia no pé, outro dia no ombro, outro dia em partes do corpo que você nem sabia que existia. Seus anos pesam, todos eles.

Quando chega o outono da alma, você ri dos erros dos mais jovens. Porque você cometeu os mesmos erros quando foi a sua vez. E você percebe que as pessoas são mais previsíveis do que você pensava, e que você nem é nem nunca foi especial.

Quando chega o outono da alma, você se torna sábio. E descobre que o mundo não liga para o que você sabe, nem para a experiência que você acumulou. Você poderia ajudar muitos, mas ninguém te ouve.

Quando chega o outono da alma, você perde a fé na humanidade. Porque você percebe que evolução contínua é um mito, e que para cada dois passos adiante são dados um e meio para trás.

Quando chega o outono da alma, você se anestesia. Porque você já viu tanta coisa ruim, no atacado e no particular, que nada mais te espanta ou te comove. Porque você já esse filme antes, muitas e muitas vezes, até enjoar.

Quando chega o outono da alma, você torce para os dias passarem rápido, para que você saia dessa névoa imprecisa e embarque de vez nos derradeiros dias do inverno.

Quando chega o outono da alma, você quase não aguenta mais, mas sabe que ainda tem alguns quilômetros pela frente. E que cada metro, cada centímetro, cada milímetro, será sofrido.

Quando chega o outono da alma, você quer que ele acabe o mais rápido possível.

Porque você não aguenta mais.

A vida é uma grande rodoviária

Atenção: esse texto terá uso intenso de metáforas e observações dentro de parênteses (como essa, completamente desnecessária, aliás). Se você não sabe o que é ou como identificar uma metáfora ou não gosta de interrupções na leitura, saia daqui agora. Você foi avisado.

Um dos passatempos preferidos da forma de vida baseada em carbono, descendente dos primatas e com polegares opositores que domina esse planetinha brega na borda da Via Láctea é filosofar sobre a vida. Na verdade, é uma das poucas coisas que nos distinguem das baratas, que um dia vão tomar o que é delas por direito.

Há muitas metáforas para definir o que afinal é a vida, e qual o seu sentido (meus estudos dizem que o sentido da vida é horário, mas isso é assunto para outro post) mas a minha preferida é: a vida é uma grande rodoviária.

É uma metáfora pobre, eu sei. Poderia dizer que a vida é um grande aeroporto, ou um bucólico porto na Riviera francesa, mas quem já esteve num lugar assim ? Em rodoviária todo mundo já esteve, ou estará.

A vida é uma grande rodoviária porque as pessoas estão sempre chegando e partindo da sua vida. É simples assim.

Há quem goste de uma rodoviária cheia, como um terminal Tietê em véspera de feriados, ou há quem preferia (eu incluído) uma pequena rodoviária do interior. Mas o fato é que sempre há pessoas chegando e saindo da sua vida.

Algumas são esperadas, com você nervoso na plataforma com uma rosa na mão aguardando. Outras chegam de repente, pulam nas suas costas e vocês dois vão para o chão rindo. Outras, ainda, você nem pediu para que elas chegassem, mas elas estarão lá mesmo assim, e você se esconde atrás do pilar para que não te veja.

Mas o fato que mais assemelha a vida a uma rodoviária é, por mais pessoas que chegam, sempre haverá partidas na rodoviária que é a sua vida.

Eu nem estou falando de morte, a grande viagem final com parada no Além (isso também fica para outro post) mas a verdade é que você sempre terá alguém partindo da sua vida.

Pode ser uma partida repentina, e quando você pensa na pessoa ela já pegou o próximo ônibus e te deletou do Whatsapp. Há as partidas demoradas e sofridas, com você acenando da plataforma, correndo atrás do ônibus desesperado, caindo na rua e ralando o joelho enquanto levanta as mãos para os céus e pragueja inutilmente contra o destino.

Mas, e isso é importante, nós temos que aprender que, ás vezes, nós somos só uma parada na vida de outra pessoa. Uma interseção, um atalho. Coincidiu de nós estarmos ali, rumando para o mesmo destino, mas alguma coisa acontece (um casamento, um emprego melhor, o fim de um namoro, uma mudança para outro hemisfério) e de repente o destino da outra pessoa muda. E ela parte, ás vezes acenando, outras vezes te ameaçando com uma ordem de restrição. Para sempre.

É esse ponto que causa sofrimento. Temos que aceitar que, ás vezes, somos só uma baldeação na vida da outra pessoa. Que temos que seguir nosso caminho sozinhos, ou com novos companheiros de jornada.

A sua vida é uma rodoviária. Haverá chegadas e partidas. Faça o tempo entre elas valer a pena. E não tente segurar ninguém. Pode ser que seus caminhos se cruzem de novo um dia. Mas, se não se cruzarem, certifique-se de que dividiram uma boa coxinha juntos e riram bastante. E compre uma garrafa d’agua para ela. É sempre importante se manter hidratado, a viagem pode ser longa.

Gabinete de crise

– Senhores, a situação da nossa empresa é calamitosa. Nossas vendas caíram pela metade nos principais mercados, nosso estoque está abarrotado de mercadorias e nossos funcionários estão cogitando uma greve por aumento de salários. Precisamos nos unir nesse momento de crise e….
– AHDADJFÇAJEOILAJDFLÇAHDFÇLKAFD…
– O que é isso ?
– É só o Adenor do Financeiro, chefe. Ele tem um ataque toda vez que ouve falar em crise.
– Chamem um médico, porra !
– Não precisa, é só jogar água no rosto dele que passa. Veja só:
SPLASH !
– Pronto, chefe, pode continuar.
– Que bom. Como eu dizia, a situação exige medidas drásticas para contornarmos a crise e…
– ADFADFJÇLADFEPOJFADFÇADJFADF
– AVJDÇFLAJDFJAÉRJDFJADFAJEFAF
– Mas que merda é essa ???
– É a Angela do Recursos Humanos. Acho que ela pegou a mesma doença do Adenor…
– Também acho, ela sempre foi muito impressionável mesmo…
– Joguem água neles agora !
SPLASH !
SPLASH !
– Pronto, chefe.
– Esse não é momento para fraquezas ! Não podemos ficar tendo chiliques por causa da crise !
– ADHFALDSFHQPEOIRASDFADFALHFDA
– AÇDLJASÇDFLHAEFJAFDJAÇSLFDJAÇLDF
– JLAHLELAJEAELJAWEJADSFHADFHA
– O que ? Até o Cláudio da Embalagem e Expedição ?
– Ele nunca foi dos mais equilibrados, se me permite dizer, chefe.
– Mas que merda, estamos em crise e vocês de frescura…
– ADFHADFJHAERALSDÇFHALDHFA
– O que ? A Raquel do Almoxarifado também ?
– Chefe querido, acho o senhor muito competente e preparado, mas talvez não seja bom falar de crise nesse momento..
– AHERHÇEWHREÇLHREÇRHAELRKHAERHAE
– Estamos perdidos, a doença pegou o Dr. José Carlos do Jurídico…
– Só sobramos eu e você, Aderbal.
– Sim, chefe.
– Temos que ser fortes.
– Sim chefe.
– Não vamos falar mais em crise e…Ops…
– AEÇLHREWHFADLHAEHRÇALHFDÇALHDF
– Até tu, Aderbal ! Meu conselho todo tendo chilique ! E estamos em crise e… HAÇLERÇAHAÇHRÇEWAHRÇAHERÇALHERÇALH
ERÇAHERÇALHERÇLAHERÇLAHESRÇALHERÇLAES

Notícias do fundo do poço

Então, senhores, senhoras e senhoritas, estamos aqui no fundo do poço…Não, espera, não está bom. Eu deveria me apresentar antes. Será que deveria mesmo ? Quem se preocuparia com alguém que está no fundo do poço, né ? Ninguém se preocuparia. Nem eu me preocuparia. Isso é irrelevante. Vamos começar de novo.
Bom dia, senhores, senhoras e senhoritas…senhoritas ? Alguém aí ainda fala “senhoritas” ? Não devem nem saber o que é “senhoritas”, podem achar até que é ofensa. Preciso melhorar isso.
Boa tarde senhores, senhoras e novinhas, estamos aqui direto do fundo do poço… Não, não, também não tá bom. Sem novinhas, não combinou. E também sem essa de plural majestático, “nós”, é muito pedante. Extremamente pedante. Até dizer “extremamente pedante” chega a ser pedante. Credo. Justo eu, tão humilde…vamos de novo.
Boa noite, senhoras e senhores, estou aqui no fundo do poço. É meio apertado aqui, na verdade. Não é um do poço dos maiores, esse aqui. É de pedra clara, mas tem umas manchas de limo aqui e ali, e água no chão. Meio fedida, inclusive. A água, eu digo. O limo é pegajoso, verde musgo, tem cara de estar bem grosso e…
Não, não, não, tem “aquis” demais ! E está muito detalhista… Porque as pessoas iam querer tantos detalhes sobre o fundo do poço ? Não, tá ruim. Vamos melhorar, vou (sem plural majestático, sem plural majestático) tentar ser mais direto.
Bom dia, senhoras e senhores, estamos aqui…não, estou aqui…droga, vamos – vou, vou, vou ! de novo.
Boa tarde, senhoras e senhores, estou aqui no fundo do poço. Apertado, mal cheiroso e cheio de limo, este fundo do poço é literalmente…o fundo do poço !
Ficou bom, ficou muito bom, serve de introdução. Agora vamos para a parte principal e…não, espera, tem uma coisa dura aqui. Deixa eu ver o que é…
É uma pá ! Olha só, uma pá…tá meio lascada, esse cabo tá horrível, mas dá para usar na parte principal e…
Espera…
Isso é uma…pá…
Uma pá…
Então, se isso é uma pá…
Aqui não é o fundo do poço !