Fila de reencarnação

– Próximo ! Cartão na mão, por favor.

– OK, alma 9.765.876.543. Seu portão é o número 74B e você vai reencarnar em Uganda e…

– Uganda ? Porque Uganda ?

– Olha, você piorou o seu carma em 750 pontos na sua última encarnação…

– Mas o que eu fiz de errado ?

– Comeu um brigadeiro.

– Como é que é ?

– Você comeu o último brigadeiro na festa da sua prima Mariquinha quando tinha treze anos. Era para você ter oferecido para a Artemísia. Vocês ficariam amigos, se afastariam, se reencontrariam depois da faculdade, casariam, teriam dois filhos, cinco netos e um gato. Mas você comeu o brigadeiro e nunca encontrou sua alma gêmea…

– Mas eu me casei três vezes !

– E se divorciou em todas. Sua última ex-esposa dançou macarena no seu velório. Em cima do seu caixão.

– Eu não sabia disso. Mas tinha a minha filha lá, que gostava de mim, a Maristela…

– É Marilissa. Ela tá fazendo terapia agora porque ficou feliz com a sua morte e está mal com isso.

– Ah, tá. Uganda, então ?

– Ou Sibéria. Você quem escolhe.

– Uganda é melhor.

– Então corre que seu trem parte em cinco minutos. Portão 74B. Você será mulher, terá cinco filhos e vai morrer antes dos 40. Acho que isso vai dar uma equilibrada nos seus pontos de carma. Próximo !

– Isso, me dá o cartão. Alma 6.987.098.755. Sua plataforma é a 99C. Você pode escolher o destino, Coréia do Norte ou Eritreia. Qual vai ser ?

– Mas porque ? O que eu fiz de errado na última encarnação ?

– Basicamente você transou. Era para você ter sido freira carmelita descalça e ter morrido virgem in odoris sanctati…

– Em odor do que ?

– In odoris sanctati. É quando a pessoa morre e…

– Tá, não importa. Se era para eu ser freira, vocês tinham que ter me mandado o chamado. E não mandaram !

– Mandamos sim.

– Não mandaram.

– Sim, mandamos.

– Quando ?

– Deixa eu ver aqui…você tinha quinze anos e estava tomando banho de banheira…

– Eu não me lembro…

– O chamado geralmente começa com um arrepio na base da coluna que vai subindo e…

– Ah, achei que fosse um orgasmo….

– E aí começa uma voz bem baixinha e…

– Achei que fosse o gato miando…

– Pois é, não temos culpa. Eritreia, Coréia do Norte ou Sibéria ? Seu trem parte em dez minutos…

– Coréia do Norte então.

– OK, você será um camponês e vai morrer de fome depois de uma seca. Vou acrescentar a morte de uns dois filhos assim você fica com saldo nos seus pontos de carma, ok ? Só porque eu fui com o seu perispírito…

– OK, obrigada.

– Obrigado. Pode ir se acostumando, você será um homem dessa vez. Próximo !

Ok, me dá o cartão. Alma 17,877.547.321. Seu caso é especial. Você vai reencarnar na mesma família de onde veio. Ficou um assunto pendente e…

– Assunto pendente ? Mas eu amava a minha família !

– Sim, senhor, é que…

– Eu doei um rim para o meu filho !

– Sim, eu sei, está no sistema, mas é que…

– Eu enfrentei um rottweiller para defender a minha esposa e perdi os meus genitais !

– Está tudo no sistema. Mas acontece que o seu neto vai precisar de um rim e seu filho não vai poder doar e…

– E o que eu tenho a ver com isso ?

– Você vai reencarnar como filho do seu filho, irmão do seu neto, e vai doar um rim para ele quando for necessário.

– Toda aquela trabalheira de novo ?

– É isso ou Sibéria…

– O que tem de tão ruim nessa Sibéria que você ameaça mandar todo mundo para lá ?

– Faz um frio do cacete.

-Mas eu morava em Curitiba !

– Entendo. Sibéria então ?

– Prefiro ir para lá do que doar um rim de novo. Meu neto que se vire.

– OK, Sibéria, portão 1D. Você será trabalhador de uma mina de carvão e vai morrer de doença pulmonar obstrutiva crônica. Assim você garante um período maior aqui no Além do Aquém na próxima, ok ?

– Tá certo. Mas me conta, eu fiz tudo certo da última vez. Qual foi o assunto pendente que eu deixei lá no Brasil ?

– Você votou no Bolsonaro. Próximo !

 

 

Tzadikim Nistarim

– Mestre…

– Fala, seu verme estúpido. Espero que seja importante para você ter interrompido a minha orgia matinal…

– Eu encontrei, Mestre…eu…encontrei…

– Encontrou o que, verme ? O seu cérebro ?

– Encontrei um dos Tzadikim Nistarim, Mestre…

– Você ???? Você encontrou um Tzadikim Nistarim ????

– Sim, sim, Mestre, eu encontrei, eu encontrei sim !

– Você não saberia reconhecer um Tzadikim Nistarim nem se ele estivesse debaixo desse seu nariz bexiguento, seu verme. Você sabe a quantos anos procuramos por eles ?

– Sim, Mestre, eu sei sim. Desde o começo do Universo a seis mil anos.

– E você sabe o que é um Tzadikim Nistarim, seu saco de vermes ambulante ?

– Um dos trinta e seis homens justos que justificam a existência do Universo, Mestre…

– E você, seu verme imbecil, encontrou um. Um demônio de quinta categoria como você…

– Sim, eu juro pelo nosso Pai Luci…

– Não use o nome do nosso Pai Lúcifer – a ele toda a honra e toda glória – em vão, seu verme !

– Desculpe, Mestre.

– Eu deveria punir essa sua insolência. Eu, Asmodeu, príncipe do inferno, perdendo meu tempo com um demônio estupido que diz ter encontrado um Tzadikim Nistarim. Você, um demônio insignificante, vai dar início ao Apocalipse !

– Mas Mestre, eu posso provar…

– Provar como, seu inútil ?

– Eu trouxe uma iguaria que ela prepara, Mestre, que é a prova de que…

– Ela ? É uma filha de Eva, seu estúpido ? Qual a parte de trinta e seis HOMENS justos você não entendeu ?

– Mas os escritos antigos não dizem claramente que uma filha de Eva não pode ser uma Tzadikim Nistarim Mestre…

– Você está querendo me dar aulas sobre os escritos antigos, seu imbecil ? Sua insolência será castigada severamente ! Vou mandar essa sua carcaça podre para nosso Pai Lúcifer – a ele toda honra e toda glória – e…

– Mas Mestre, a prova…eu tenho a prova…

– E que prova é essa, seu energúmeno ?

– Essa aqui, Mestre. É uma iguaria chamada brigadeiro e…

– Essa bolinha que parece um coco ?

– Sim, Mestre, sim, coma, coma, o Senhor vai entender…

-Huuuum…e como se chama a pessoa que você acha que é uma Tzadikim Nistarim ?

– É dona Neide, Mestre.

– Eu vou provar, e se isso não for o que você diz que é, eu vou vaporizar a sua existência agora mesmo, seu verme.

– Sim, Mestre, prove Mestre, prove.

– Huuuum…huuuum…huuuuuuuuuuuuuuuuum…

– E então, Mestre ?

– Convoque imediatamente Belzebu, Asterot e Leviatã ! Precisamos imediatamente ver nosso Pai Lúcifer – a ele toda a honra e toda glória. Eu encontrei um dos Tzadikim Nistarim !

– Agora mesmo, Mestre !

– Mas antes…você tem outro desses brigadeiros aí com você?

Amor, uma doença

Daqui uns cinquenta anos no futuro, uma equipe de cientistas de uma prestigiosa universidade ocidental publicará uma pesquisa num importante periódico científico.

A pesquisa, cheia de palavras difíceis como “neurotransmissores”, “sinapses” e “neuropeptídeos” chegará a conclusão de que, em tese, é possível impedir uma pessoa de se apaixonar através de uma substância química que imite certas combinações de neurotransmissores.

A notícia chegará nos portais de internet, com manchetes como”Grupo de cientistas conclui que o amor é uma doença”. E eles não estarão assim tão errados. O nível do jornalismo vai melhorar muito daqui cinco décadas, como vocês podem ver.

Porém, o comitê de ética da prestigiosa universidade ocidental onde a pesquisa original começará não vai consentir na realização de testes em humanos. O que será um erro muito grande. Quase catastrófico.

Uma parte dos pesquisadores partirá então para a China do Norte, onde os controles éticos são mais frouxos, para não dizer inexistentes. A China do Norte daqui a cinco décadas ocupará a maior parte do que hoje conhecemos como China, porém a região de Guandong e arredores se separá do resto do país e se declará “China do Sul” depois de uma breve guerra civil em 2030.

Os pesquisadores ocidentais vão trabalhar por muitos anos, quase vão desistir muitas vezes, terão um pouco de sorte e conseguirão atingir seu objetivo. Será possível sintetizar uma vacina que impede a pessoa de se apaixonar. Porém, nem tudo vai sair como o esperado: seu efeito será permanente, e não transitório.

Os cientistas terão noção das implicações sociais de uma substância assim. Mas nada poderão fazer, porque a pesquisa deles pertencerá ao glorioso governo da China do Norte – no momento em guerra com a Sibéria do Sul pelo controle de regiões ricas em petróleo no permafrost siberiano.

A substância, jamais testada em larga escala, será guardada a sete chaves, com muitas salas de controle, e reconhecimento de iris, e soldados armados.

Porém, essas precauções todas não vão parar um monge budista-terrorista-tibetano da Frente de Libertação do Tibet, que rouba uma grande quantidade da substância. Alguns meses depois, o monge, ou seus colaboradores, nunca ficará claro, jogará toda a sustância no abastecimento de água da cidade chinesa de Urumqi.

O sistema de informações estatal da China do Norte chamará o ato de “terrorismo covarde” e declarará pomposamente que “todas as medidas de contenção foram tomadas imediatamente ninguém foi afetado”. Será mentira.

Toda a população da cidade será afetada. Milhões de pessoas. A cidade será cercada, num primeiro momento. Não se sabia como as pessoas iam reagir. A notícia vaza na internet ocidental, e Urumqi passará a ser conhecida na internet como “a cidade sem amor”.

As pessoas de Urumqi reagirão…normalmente. Nada mudará na vida deles. Pelo contrário. As coisas até vão melhorar. O número de suicídios cairá drasticamente. O de violência às mulheres chegará praticamente à zero. Um ou outro negócio tipo de negócio irá falir: floriculturas, maternidades e fábricas de preservativo, mas não chegará a ter um impacto econômico relevante. O exército da China do Norte, convencido que seus cidadãos não se transformarão em zumbis, liberará o acesso à cidade.

A substância chegará, clandestinamente, em poucos meses, ao ocidente. Será vendida para jovens e vai se disseminar rapidamente. A China do Norte, sob pressão das potências ocidentais, mandará destruir todos os seus estoques.

Será tarde demais. A substância será fácil de ser reproduzida e laboratórios clandestinos o farão em massa em vários países do mundo. Paulatinamente, a situação sairá do controle. Quase toda uma geração envelhecerá sem se reproduzir. Alguns países entrarão em colapso. Outros, simplesmente, deixarão de existir.

A repressão finalmente vencerá, mas a humanidade demorará várias décadas para se recuperar do que será chamado, muito tempo depois, de “os anos sem amor”. Toda a pesquisa dos cientistas originais, já mortos a bastante tempo, será destruída e seus nomes serão proscritos.

Moral da história: o amor é uma doença. Mas não vivemos sem ele.

Desculpe o transtorno, mas…

…eu tenho que falar de você.

Você não foi meu primeiro amor. Não foi minha primeira paixão.

Mas foi minha primeira namorada. Meu primeiro beijo em público. Meu primeiro andar de mãos dadas.

O amor chegou tarde em minha vida. Por onde você andava, enquanto eu te procurava ?

Não tivemos uma história bonita para contar. Nos conhecemos pela internet, como muitos outros. A primeira vez que nos encontramos foi numa rodoviária, abarrotada de gente. E ainda tomamos uma bronca por estávamos atravancando o caminho !

Comemoramos aniversário de relacionamento em Habbibs. Não fizemos filme juntos. Nem sequer fomos ao cinema uma única vez. Sempre adiávamos. Haveria tempo.

Não houve. Terminamos. Eu morri um pouquinho naquele dia.

Foi sem glamour. Foi sem história bonita. Não foi igual aprendemos com nossos pais.

Mas foi intenso. Foi bom. Enquanto durou.

O que eu te dei foi pouco, foi quase nada. O que você me deu foi muito.

Você me deu lembranças.

Não deu para plantar você aqui no meu quintal.

Acontece.

Obrigado por tudo.

Amigas

– Minha mãe está um fera comigo…

– A minha também…Elas dizem que nós temos que ser amigas…

-Sim, porque elas são amigas desde a época da escola e blablabla..

-Já ouvi aquela história da lancheira umas mil vezes. Haja saco !

-O que é uma lancheira mesmo ?

-Ah, acho que era uma coisa que elas levavam lanche de casa.

-Não tinha cantina naquela época ?

-Acho que ainda não tinham inventado. Acho que nem McDonalds existia!

-Tá, e o que a gente vai fazer ?

-Vamos fingir que somos amigas para elas não torrarem a nossa paciência. Pelo menos até a viagem para a praia, depois a gente vê o que faz.

-Aí, nós vamos para Ubatuba de novo ! Eu tinha esquecido completamente.

-Ah, eu até que gosto de lá.

-Eu sei que você gosta, eu te vi pegando um menino da última vez.

-Ah, foi só uns amassos. Ele nem beijava bem. E era de Minas. Mineiros não são confiáveis. Minha mãe quem disse.

-Tá, então a gente finge até a volta da praia, depois dizemos que brigamos e foi definitivo, tá ?

-Para mim tudo bem. A gente é muito diferente, nossas mães não entendem.

-Verdade. Eu sou são paulina. Você é corintiana.

-Eu sou católica, você é budista.

-Eu gosto de Belle and Sebastian, você de Arcade Fire.

-Totalmente diferentes !

-Mas, falando de Ubatuba, eu nunca vi você pegando ninguém lá…

-Ah, é que eu sou discreta.

-Quer fama de santinha, né ?

-Não, é que eu sou homossexual.

-Ah tá. Sua mãe sabe ?

-Não contei. Ela ia querer me levar no padre para me curar…

-Ah, que chato.

-Olha só, eu te contei um segredo. Isso é coisa de amigas.

-Ah, nada a ver, não somos amigas por causa disso.

-É, tem razão.

-Então vamos sair e dizer para nossas mães que está tudo bem e…

-Não, espera. Eu te contei um segredo. Você tem que me contar um também. Para igualar as coisas.

-Ah, eu não tenho segredos !

-Sei, e aquele papo que rola lá na escola ? Aquele que…

-Que eu não sou mais virgem ? Ah, é verdade.

-Jura ? Que bom para você ! Foi com o carinha da sua classe ?

-Não, você não conhece, foi um garoto que eu conheci lá na ioga.

-Você faz ioga ? Eu sempre quis fazer, mas minha mãe não deixa, diz que é coisa do demônio e tals.

-Olha, se você quiser eu posso te ensinar umas posições mais fáceis.

-Eu quero ! Tá vendo, aconteceu de novo…

-O que ???

-Você me ajudando. Isso é coisa de amigas.

-Para com isso ! Nós não somos amigas…

-Mas podíamos ser. Você não ficou me julgando quando eu disse que era homossexual. Foi legal da sua parte.

-É, e nem você ficou me olhando feio quando eu disse que não era mais virgem…

-Então, a gente já trocou segredos, podíamos tentar ser amigas. Topa ?

-Tá, vamos tentar. E o que a gente faz agora ?

-Huuum…que tal perguntar para sua mãe o que é uma lancheira, afinal ?

Eu tive um futuro promissor ?

“Eu tive um futuro promissor” era uma das comunidades mais legais do falecido Orkut (saudades imensas !). Eu estava lá porque…bem, porque acharam que eu tinha um futuro promissor. Estavam errados, é claro, mas eu não culpo quem pensou isso. Eu enganei todos direitinho. E foi sem querer – ou pelo menos, inconscientemente.

O fato é que depois que aprendi a ler eu adquiri uma verdadeira adoração pela palavra escrita. Parte da culpa disso é dos meus pais, que eram – ainda são – leitores vorazes. Junte a isso uma biblioteca escolar bem abastecida e sempre acessível e o “estrago” estava feito.

Daí que aos sete, oito anos eu lia muito mais do que qualquer criança da minha idade. As consequências foram óbvias: melhorei meu vocabulário e minha escrita. Fazia sucesso nas redações da época. E é claro que as minhas gentis professoras acharam que isso era um sinal de inteligência. Não era. Eu só lia bastante e era curioso.

Aí chegou a temida quinta série, quando teríamos aulas com vários professores e eu adicionei mais uma arma ao meu arsenal. Spoilers. Sim, spoilers. Eu lia os livros escolares assim que os recebia, no começo do ano. Não entendia tudo, é claro, mas conseguia captar alguma coisa (a memória sempre foi boa), o que me levava a fazer perguntas sagazes durante as aulas. Pronto, mais um falso sinal de inteligência.

Os anos foram se passando e mais um item se juntou aos outros: confiança. Depois de anos ouvindo de seus professores, pais e colegas que você é inteligente, você acaba se convencendo disso. E aí eu ia para as provas, principalmente a de professores mais exigentes, sem medo ou ansiedade. Enquanto meus colegas se descabelavam,eu ia sereno e tranquilo. Isso, é claro, fazia toda a diferença.

A última cartada nessa comédia de erros foi um pouco de engenharia social, apesar de na época eu nem saber que isso existia. Eu tinha facilidade para perceber o que fazer para agradar os professores. O de Ciências, por exemplo, gostava de piadas, não reclamava que interrompesse as aulas dele e as provas eram fáceis – se você desse uma resposta que fosse vagamente correta, ele já considerava certa. Estava doido para aprovar todo mundo sem esforço.

Já o professor de História era rígido e exigente, principalmente com datas. Aí não tinha jeito, era decoreba mesmo. Suas aulas expositivas eram ótimas, bastava prestar atenção nelas que você saia na frente. E se você fosse fazer uma pergunta, que fosse inteligente, caso contrário ele te fuzilava com os olhos.

Então foi assim que alguém sem nenhum talento especial a não ser curiosidade, uma memória um pouco acima do razoável e gostar de ler passou pelo ensino fundamental com fama de super inteligente. Depois o “mundo lá fora” me mostrou que as coisas não eram bem assim, mas isso é assunto para outro dia. Ou não.

Invejas

Tem uma coisa que eu invejo muito nas outras pessoas. Quer dizer, há milhares de coisas que eu invejo nas outras pessoas. São tantas que daria para encher a memória do meu Kobo (Kindle é muito mainstream para mim) e ainda faltaria espaço. Mas, para fins desse texto, vou me fixar em uma única coisa.

Eu invejo pessoas que sabem distinguir gêneros musicais. Sou péssimo nisso. Esses dias mesmo comecei a ouvir uma banda que jurava ser indie. Até que me disseram que na verdade era folk. Comparei com Belle and Sebastian, que pelo menos todo mundo concorda que é indie. Para mim são muito parecidos, e não faço a mínima ideia do que seja folk ou que bandas são folk, ou de onde surgiu o folk.

Mas chique mesmo é saber distinguir os gêneros do jazz. Esse é um nível que eu nunca atingirei, nem que reencarnação exista (não existe). É só começar a tocar o saxofone e o sujeito já sabe na hora se é hard bop ou cool jaz. Não que eu goste muito de jazz, mas não espalhe isso por aí. Alguém com a fama de ser “tão inteligente”  como eu (só a fama, garanto) tem que gostar de coisas como jazz, ópera e autores russos mortos (ainda bem que não os vivos).

O fato é que na cesta genética que eu recebi veio muito pobre em recursos musicais. Se tem uma coisa que meus parentes, amigos e conhecidos concordam é que eu sou a pessoa menos capacitada neste planeta brega na borda oriental da galáxia para cantar uma canção. E eles estão certos. Canto todas as músicas no mesmo ritmo – o errado, é claro.

A minha completa inabilidade musical é o meu segundo não-talento mais evidente – o primeiro é a minha total e absoluta inadequação social, que as pessoas percebem de longe. Isso não me impede, é claro, de estar só de cuecas cantarolando Zeca Baleiro enquanto escrevo esse texto (calma alma minha, calminha, você tem muito o que aprender !).

Durma com essa imagem na sua mente agora. De nada. 🙂