O cachorro

Max se levantou lentamente. O sol estava nascendo e já iluminava parte da área. Ele se deslocou preguiçosamente até a vasilha de água. Bebeu sofregadamente, refrescando a língua suada e foi se deitar esticado no sol.

-O sol é gostoso a essa hora, Lisa. Vem para cá – latiu ele.

Lisa levantou a cabeça da sua cama e grunhiu alguma coisa que Max não entendeu. Ela era uma grande e velha cadela rabugenta de pelo curto e negro. Vivia mais tempo naquela cama do que em qualquer outro lugar. Parecia estar sempre cansada.

Ela não havia recebido bem Max quando ele havia chegado a um ano atrás. Mas agora eles se toleravam. Desde que ele não chegasse perto do pote de ração dela, é claro.

Vários minutos se passaram. Max estava começando a ficar preocupado. Trocou de posição ao sol, bebeu mais água, até que não aguentou de ansiedade.

-O Homem Grande está demorando para levantar – latiu Max. Lisa ia responder quando eles foram interrompidos.

-O Homem Grande vai morrer em breve.

Max levantou a cabeça e viu Vassourinha, o gato malhado, se equilibrando na travessa do telhado. Num salto ágil, ele pulou para a mesa que ficava no centro da área. Cheirou o seu pote de ração, mas como era do dia anterior se afastou e começou a se lavar tranquilamente, como se seu comentário não tivesse sido nada.

-Por que você disse isso ? – perguntou Max, aflito. Tem algo errado com o Homem Grande ?

-Eu vi a morte rondando a casa, replicou Vassourinha, enquanto lavava o rabo. Diante da cara de incredulidade de Max, ele continuou: é por isso que os humanos nos querem por perto. Nós vemos espíritos, explicou ele.

Max chorou baixinho e ia fazer mais perguntas mas foi interrompido por Lisa. Ela latia furiosamente:

-Pare de conversa fiada, sua bola de pelos inútil. Você está mentindo só para assustar o pirralho.

Nesse momento a porta dos fundos se abriu e o Homem Grande saiu. Lisa e Max foram lhe fazer festa e ganharam afagos e uma boa dose de ração. Vassourinha recusou a ração e foi se esfregando nas pernas do Homem Grande até a cozinha, querendo a sua dose matinal de leite.

-Será que o Homem Grande vai mesmo morrer ? perguntou Max, com a boca cheia de ração.

-Pare de falar de boca cheia, pirralho ! grunhiu Lisa. É claro que o gato só está fazendo troça com você. Não vai acontecer nada.

Por via das dúvidas, Max ficou o tempo todo grudado no Homem Grande aquele dia. Ficou sentado aos seus pés enquanto ele se sentava em frente a uma tela esquisita e batucava numas teclas pela manhã. Latiu no Homem de Uniforme que trazia a comida do Homem Grande. Brincou de correr atrás de bolinha com ele depois do almoço e ficou feliz quando foram passear mais cedo naquele dia.

Os passeios eram longos por causa de Lisa, que andava devagar e ofegante. Mas o Homem Grande tinha paciência e deixava Lisa fazer xixi em todas as árvores que ela queria. Geralmente depois que Max tinha feito o mesmo. Mas naquele dia o passeio foi curto, e eles voltaram logo. O Homem Grande se trancou na sua sala de trabalhar e não deixou Max entrar. Lisa foi se jogar em sua cama, sem nem beber água. Parecia mais exausta do que o normal.

O jovem cão sem raça definida estava a cada minuto mais preocupado. Queria conversar mais com Vassourinha, mas o gato permaneceu o dia todo fora de vista, provavelmente dormindo no telhado. O gato parecia saber das coisas, andava por todos os quintais e com certeza conversava  com outros gatos. Era um gato sábio. Já era quase noite e sem opções, Max foi procurar Lisa.

-O que acontece se o Homem Grande morrer ? A gente morre também ?

-Ele não vai morrer, pirralho. Não caia na conversa daquele felino desprezível.

Lisa às vezes usava umas palavras que Max não entendia. Ele nem sabia o que era desprezível, mas não tinha cara de ser algo bom.

-Tá, mas e se ele morrer, o que acontece com a gente?

-Outro Homem Grande virá para cuidar da gente. Ou nós seremos levados até ele – replicou calmamente a cadela idosa.

-Mas eu gosto desse Homem Grande, não quero outro – chorou Max.

-Vocês vão para a casa do Irmão do Homem Grande – disse Vassourinha, que havia se materializado, Max não sabia como, em cima da mesa. – Eu ouvi eles conversando ontem – completou ele, entre uma lambida e outra.

Quando Max chegou ele chamava o Irmão do Homem Grande de Homem Ainda Mais Grande porque…bem, porque ele era bem maior do que o Homem Grande. Ele tinha uma cadela enorme, maior do que Lisa, chamada Princesa. Ela era brava e de pouca conversa. A primeira vez que eles se encontraram ela chamou Max de “verme desprezível”. Ele não sabia o que era um verme desprezível, mas o gato tinha contado que não era nada bom, nada bom mesmo.

-Eu não quero morar com a Princesa – Max estava desolado.

-Cala a boca, seu felino de merda ! – Lisa latia furiosamente. Estava mais raivosa do que Max jamais tinha visto – Pare de enganar assim o pobre coitado. Não vê que ele está quase chorando ? O Irmão do Homem Grande nem esteve aqui ontem !

Isso reacendeu uma chama de esperança no coraçãozinho de Max, mas Vassourinha não se deu por vencido.

-Eles se falaram com aquele aparelho que o Homem Grande leva para todo o lugar. Eu estava junto com ele quando aconteceu – replicou, com desinteresse. Era como se estivessem conversando sobre sabores preferidos de ração.

Max ia responder, mas nesse momento o Homem Grande entrou com o jantar. O jovem cão pulou e abanou o rabo de felicidade, latindo para que o dono não morresse. Mas ele sabia que os humanos nem sempre entendiam os latidos dos cachorros. A porção de Lisa era maior, e Max ficou magoado. Será que tinha feito algo de errado ?

Quando foi dormir naquela noite, Max chorava de tristeza e preocupação. Lisa se virou para ele e grunhiu um “cala a boca ou você vai acordar o Homem Grande”. Com o coraçãozinho pesado, ele finalmente dormiu.

Max ainda não tinha acordado quando Irmão do Homem Grande chegou naquela manhã. Eles pegaram Lisa e o cão ouviu algo como “fazer ela dormir” e não entendeu. Lisa foi levada sem reclamar e nunca mais voltou. E então Max entendeu como os gatos eram sábios. Mas às vezes também se enganavam.

O coma

-Oi.

-Olá.

-Aqui é…

-Escócia. Lago Ness, eu acho. Quase certeza. Só pode ser, na verdade.

-Ah. E o senhor é…

-O seu professor de matemática da oitava série.

-Ah, entendi. Eu morri e aqui é o inferno.

-Tecnicamente você não morreu. Está só em coma. Nível mais baixo da escala de Glasgow. É como estar quase morto, mas ainda está vivo. Tipo um zumbi, mas sem a parte legal.

-Sei. E eu estou aqui…

-Porque você escolheu.

-Eu escolhi estar aqui, na Escócia, com esse frio e meu professor de matemática da oitava série…

-Pois é. Que loucura, né? Você poderia estar em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Você poderia estar nas Maldivas com a Angelina Jolie ou em Osasco com a sua vó. Escolheu estar aqui.

-Então…

-Você é perturbado, garoto. Muito perturbado.

-Mas eu não…

-Mas me diga, o monstro vai aparecer ? Foi para isso que você quis estar aqui nesse frio congelante, né ? Para ver o monstro do Lago Ness.

-Eu não sei.

-Claro que você sabe. Estamos dentro da sua cabeça. Tudo o que você imaginar vai acontecer.

-O que é isso aqui, Carlos Alberto ?

-Ah, pronto. Agora você fez aparecer a Clarice, minha ex-esposa. Não sabia que você me odiava tanto assim, garoto.

-Mas professor, eu não…

-Como eu vim parar aqui ? Carlos Alberto, seu sacripanta, você me sequestrou ! E quem é esse garoto esquisito ?

-Tá feliz agora, garoto ? Temos uma matraca que não para de falar…

-Professor, eu nunca conheci a sua ex-esposa !

-É, eu nunca vi esse garoto esquisito não. Porque  tá tão frio ? Ninguém tem um casaco ?

-Mas então, como ela apareceu ?

-É óbvio, professor. É o senhor que está em coma.

-Eu ??

-Ou aqui é o seu inferno particular, sei lá.

-É você que está em coma !

-Não briga com o garoto, Carlos Alberto !

-Cala a boca, Clarice !Faça essa tagarela desaparecer, por favor.

-Mas professor, não fui eu quem fez ela aparecer. Foi o senhor.

-Impossível. Eu não posso estar em coma. Eu era saudável e corria todos os dias…

-Corria atrás de rabo de saia, né Carlos Alberto ? Seu safado, me traia até com suas alunas…

-Pense professor. Qual é a última coisa que você se lembra ?

-Eu estava em casa, com a Neide, minha segunda esposa…

-Terceira ! Esqueceu daquela menina que você engravidou com dezesseis anos e te obrigaram a casar ?

-E você e a Neide estavam fazendo…

-Ela tinha preparado uma bebida para mim e…

-E…

-Aí eu fui ficando meio sonolento e com frio…

-Aquela sirigaita te envenenou, Carlos Alberto ! Bem feito ! Hahahahaha ! Bem feito ! Bem feito !

-Mas, é impossível. Ela me ama e…

-Professor, me ouça. Eles vão desligar os aparelhos. A Neide deu a autorização e..

-Não, ela nunca faria isso. Ela me ama.

-Professor, o senhor não tem muito tempo! Tem que acordar agora ! Eles vão desligar os aparelhos !

-Mas eu não…eu não posso..eu…eu não posso…

-Hahahahahaha ! Envenenado ! Envenenado ! Trouxa !

-Cala a boca, Clarice !

-Professor, acorde ! Agora !

-Ok, vou começar os procedimentos de retirada do suporte à vida. Algo que você queira dizer ?

-Espere, doutor. É normal esse sorriso ?

-É só um reflexo involuntário.

-Ok, pode desligar. Adeus, Clarice.

O homônimo

Foi quando troquei de colégio pela terceira vez que eu o conheci. Também era novato como eu, e fomos colocados na mesma classe. Na hora da chamada, a confusão: tínhamos não somente o mesmo prenome, como também o sobrenome. Na hora aquilo só me pareceu uma curiosidade boba. Meu sobrenome nem era assim tão incomum. Eu tinha um homônimo, era só isso.

Com o tempo, passei a reparar melhor nele. Se parecia um pouco comigo, é verdade. O mesmo cabelo revolto e negro, o nariz proeminente. Era um pouco mais alto, mais magro, com uma palidez estranha, como se nunca tomasse sol. Vestia-se modestamente, com calças de jeans barato, camisetas lisas e tênis sujos. Como havia parado num dos colégios mais caros da cidade eu nem desconfiava. Talvez tivesse uma bolsa.

Movido pela curiosidade, tentei dele me aproximar e fazer amizade. Mas ele era esquivo. De poucas palavras, falava num tom baixo, quase sussurrante. Parecia até um pouco assustado quando tentava entabular uma conversa. Com o tempo, acabei desistindo, mas o mantive sob observação.

Eu era muito inteligente, sempre o melhor da classe.  Minhas notas eram boas, o que se devia mais à mediocridade dos meus colegas do que mérito meu, pois eu quase não estudava. Quando as notas daquele primeiro bimestre chegaram, surpresa ! Eu havia sido superado pelo meu homônimo. O sujeitinho se saia melhor do que eu ! Senti meu orgulho ferido e reagi com despeito. Enfiei a cara nos livros e passei a estudar em dobro. Minha mãe, que sempre dizia que eu era inteligente, mas preguiçoso, ficou encantada, mesmo que não soubesse os motivos para a minha súbita transformação.

Veio o segundo bimestre, e minhas notas melhoraram. Mas as do meu homônimo melhoraram mais ainda. Ele foi cumulado de elogios e ganhou até um prêmio. Meu despeito se transformou em raiva. O que aquele garoto pensava que era ? E a partir daquele dia fiquei pensando em como poderia prejudicá-lo, até que esse pensamento se tornou uma obsessão.

Algumas semanas depois chovia a cântaros e eu aguardava impacientemente minha mãe vir me buscar quando ele passou por mim carregando um guarda-chuva que já tinha visto dias melhores. Um colega de classe estava por perto e lhe ofereceu carona. Ele reagiu assustado como sempre e negou veementemente a proposta. Saiu quase correndo pelo portão, justo na hora em que a chuva ficava mais forte.

Aquela cena ficou na minha mente por alguns dias. Porque afinal ele rejeitara uma simples carona em um temporal como aquele ? Talvez tivesse vergonha da sua casa. Devia morar num barraco decrépito. Ou talvez seus pais fossem bêbados ou drogados e ele tivesse vergonha. Investiguei aqui e ali, e ninguém da escola sequer sabia onde ele morava, quanto mais tinha ido até lá. Então eu tomei a pior decisão da minha vida. Decidi segui-lo. Assim eu teria algo para usar contra ele na escola, envergonhá-lo, tirá-lo do seu pedestal. Quem ele achava que era, afinal ?

Me preparei o melhor que pude para a minha empreitada juvenil. Comprei um lanche extra na cantina aquele dia, caso sentisse fome no percurso. Separei dinheiro para uma volta de táxi, caso fosse preciso. Calcei o meu tênis mais confortável, já que a caminhada deveria ser longa. Me escondi atrás de uma árvore e assim que ele passou o segui, a cerca de cinquenta metros de distância.

Ele caminhava rápido, quase sem mudar o ritmo. Apesar de franzino, parecia estar em boa forma. Viramos a esquerda e depois a direita várias vezes, algumas delas desnecessariamente. Parecia-me que dávamos voltas e mais voltas sem qualquer necessidade disso. Será que ele sabia que estava sendo seguido ? Ou fazia isso todos os dias ? Eu deveria ter voltado naquele momento mas, desgraçadamente, não o fiz.

Já caminhávamos a uma hora e eu estava sedento. No meu planejamento supostamente perfeito eu tinha esquecido de trazer água. Era mais um sinal para que eu desistisse da minha empreitada. Mas eu não o fiz, e hoje me arrependo.

Estávamos numa área da cidade onde eu nunca tinha ido. As casas eram humildes e os comércios, deteriorados. Quando ele virou mais uma vez à direita, me vi em frente a um cemitério. Mal me recuperei do choque e o vi entrando pelo portão. Com certeza ele sabia estar sendo seguido e entrara lá para despistar seu perseguidor. Sem pensar, e tomado de um orgulho febril, o segui. Era o último aviso. Eu deveria ter parado ali. Não parei.

Ele caminhava com segurança pelos túmulos, como se sempre viesse ali. Quando ele virou à direita num grande túmulo com estátuas da Sagrada Família, o perdi momentaneamente de vista. Quando dobrei aquela esquina, ele havia desaparecido !

Era impossível. Ali a alameda era larga, não havia como ele ter corrido e sumido da minha vista. O procurei por trás dos túmulos, das árvores, das pequenas capelas. Fui me embrenhando mais e mais no interior do cemitério,tomado de um frenesi que não conseguia explicar. Eu tinha que encontrá-lo. Meu orgulho ferido o exigia.

Fui tomado por um torpor inexplicável. O calor estava muito forte, e eu me sentia cansado. Estava agora na parte mais afastada e antiga do campo santo. Os túmulos, em sua maioria, estava caindo aos pedaços. Me sentei ao abrigo de uma mirrada árvore, a única do local. Me recostei, e tomado cada vez mais por um cansaço profundo, adormeci.

Acordei todo dolorido e me dei conta, aterrorizado, que muitas horas tinham se passado. O sol se punha no horizonte, e quase não havia mais luz natural. Me levantei cambaleando, a cada segundo mais nervoso. Eu tinha que sair dali o mais rápido possível. Corri sem rumo, gritei por ajuda, mas de nada adiantou. A noite chegou, e com ela as trevas profundas me envolveram.

Já com lágrimas nos olhos e rouco de tanto gritar, divisei ao longe uma luz e rezei uma prece muda de agradecimento. Alguém aparecera para me ajudar ! Corri até a luz, e foi quando o vi. Ele. O meu homônimo. Ele sorriu estranhamente quando me viu. Era um sorriso ao mesmo tempo sarcástico e triste. Eu estaquei, mudo, incapaz de falar. Estava mais aterrorizado do que jamais tinha estado. Meu corpo todo tremia.

– Você não deveria ter vindo aqui. Não deveria ter me seguido. Foi um erro.  A voz dele continuava baixa e sussurrante.

– Quem é você ? O que está acontecendo ? – consegui gritar com a última réstia das minhas forças.

-Eu sou você, meu caro. Daqui dois anos, seis meses e dez dias – e então ele apontou para o lado, jogando a luz da sua lanterna sobre um túmulo. E quando o vi, tive certeza que era meu próprio sepulcro. Tomado por um terror absoluto, desfaleci.

Esse encontro foi a dois anos, seis meses e nove dias atrás. Passei todos eles, desde que me encontraram vagando no cemitério, numa clínica psiquiátrica paga por meus pais. Me tratam bem aqui, e os doutores dizem que eu estou bem. Mas não me deixam ir embora, não sei porque.

Amanhã é o dia da minha morte, eu sei disso. Por mais que todos digam que tudo o que aconteceu é fruto da minha imaginação, eu tenho certeza do que vai acontecer. E já aceitei meu destino. Amanhã morrerei e serei colocado naquela mesma tumba que eu vi. Mas essa história não acaba aqui.

Eu voltarei.

Breve história

“A bilhões de anos, o Universo foi criado. Ou ele sempre existiu e não teve começo, ou surgiu do nada. Na verdade, ninguém sabe, e ninguém se importa hoje em dia.”

“Se tinham passado alguns bilhões de anos do surgimento do Universo quando, num planeta insignificante na borda de uma galáxia comum uma espécie de seres que se alimentavam do leite das suas mães desceu das árvores e achou que seria uma boa ideia caminhar em dois pés.”

“Alguns milhares de anos se passaram e essa espécie adquiriu polegares opositores como os nossos e cérebros um pouco maiores do que os seus primos de espécies aparentadas, o que os levou a andar por todo o planeta. Eles gostavam de andar, e sempre em bandos, cada vez maiores.”

“Um dia um grupo desses resolveu que era mais inteligente parar de andar e se fixar num único lugar. Eles passaram a erguer casas, templos para seres místicos chamados deuses e plantar comida. Dessa forma eles foram aumentando ainda mais o tamanho dos seus bandos.”

“Não demorou muito tempo e um outro bando desses seres inventou uma forma de repassar conhecimento para as gerações futuras sem que precisasse ser oralmente. Foi uma grande invenção, e então esses seres se espalharam ainda mais pelo planeta e multiplicaram grandemente o seu número, que chegou a bilhões.”

“Essa espécie, que se auto denominou “humanos” era muito alta. Alguns chegavam a ter mais de dois metros! Eles se tornaram uma espécie orgulhosa. Eles conseguiam ir de um lado a outro do planeta em naves voadoras primitivas e tinham um sistema de comunicação rudimentar que chegava em quase todo o planeta e se chamava internet.”

“Mas eles não eram tão inteligentes quanto pensavam, e estavam envenenando propositalmente o seu planeta, que eles tinham colocado o nome de “Terra”. Ninguém até hoje entendeu o porque, mas parece que tinha a ver com a circulação de uns objetos retangulares e finos pintados com números que esses humanos chamavam de “dinheiro”. Alguns historiadores acham que esse tal de dinheiro era tóxico, mas nunca saberemos. Quando as condições ficaram quase insalubres, alguns migraram para outro planeta um pouco mais distante da sua estrela. O planeta era inóspito e eles nunca conseguiram voltar a ter o mesmo número de habitantes do que no seu planeta natal.”

“Mas foi ali, naquele planeta, que os humanos batizaram de “Marte” que, a milhares de anos atrás, a nossa espécie começou a evoluir e onde emergiu o Grande Império que temos hoje, meu filho.”

– Nem fodendo que eu vou passar as férias em Marte, pai ! É deprimente ! Eu quero ir para Órion ou Betelguese !

-Manassés Raoni, você vai para Marte sim ! Eu já paguei o seu teletransporte !

 

 

 

A alma da festa

Estênio (com “E”, como ele gostava de frisar) era presença garantida em todas as festas da cidade. Espirituoso, galanteador, sempre bem vestido, ele era dono de uma “personalidade magnética” como o havia descrito a coluna social do jornal da cidade. Era a alma da festa.

Não havia um evento em que Estênio (com “E”, é sempre bom dizer) deixasse de comparecer, desde quermesses de bairro até bailes de debutantes no clube mais chique. Sempre sorrindo, sempre com um martini na mão (mesmo quando não serviam o drink na festa), sempre com as melhores piadas e cercado das mulheres mais bonitas.

Mas Estênio (com “E”, sempre ) também tinha um lado misterioso. Ninguém sabia direito onde ele trabalhava, por exemplo. Os boatos diziam que ele era desembargador, mas ninguém sabia direito o que era ou que fazia um desembargador. Também nunca tinha sido visto com uma companhia fixa. Até onde se sabia não tinha namorada, esposa ou amante. “Sou de todas”, ele costumava dizer, entre um sorriso e outro.

Por isso causou comoção o fato de Estênio (já disse que é com “E”, né ?) ter faltado no grande baile de encerramento da Festa da Acerola, o maior evento do terceiro bimestre na cidade. Era o primeiro evento que ele faltava desde…bem, desde sempre. Ninguém se lembrava de outra festa em que ele não estivesse presente.

Os boatos começaram a correr pela cidade. Alguns diziam que Estênio (é com “E”) tinha sido sequestrado, outros garantiam que ele tinha sido morto por um marido traído que tinha pego ele na cama com a esposa grávida e um anão e outros juraram por suas mães mortas atrás da porta que tinham visto ele deixar a cidade numa limousine branca. Segurando um martini.

O principal jornal da cidade colocou seu melhor jornalista investigativo no caso. Sidraque era o nome dele, tinha 75 anos e estava semi-aposentado. Ele ia todos os dias até a redação, datilografava sua coluna numa velha Remmington, passava para o estagiário digitar e voltava para casa a tempo de almoçar macarrão com feijão. Mas era a mente mais arguta da cidade. Ele que tinha desvendado o famoso caso de corrupção que ficou conhecido como Quadrilha das Enfermeiras, que desviavam AAS do posto de saúde. Era a pessoa perfeita para a missão. Assim que foi informado, Sidraque passou a mão na lista telefônica e fez uma ligação.

No dia seguinte, Sidraque soltou a matéria bomba. Estênio (ele nem fez questão de dizer que era com “E”) tinha se aposentado. Estava com problemas hepáticos (“acho que é a azeitona do martini”) e o dinheiro da herança estava acabando (“me recuso a sair de casa com uma roupa que já usei”). Estava recluso em casa, e não aceitaria mais convites para festas, convescotes, quermesses ou bailes (“o único evento que eu irei agora será meu velório. e vai ser a contragosto”).

E assim nasceu a lenda de Stênio.

A casa

Desde criança, sempre que Celeste passava em frente aquela casa, se sentia mal. Como se algo de muito ruim estivesse para acontecer, ou acontecendo, ou tivesse acontecido ali.

Não era uma casa diferente das outras do seu bairro. Pequena, nos fundos do terreno, com uma área de brasilit na frente, algum mato e um cachorro latindo. Alguém morava ali, alguns diziam que era uma velha, outros que era um casal, mas ela nunca via ninguém além do cachorro.

Na adolescência Celeste flertou por um tempo com a magia e o espiritismo, e ela achou que sabia o que estava de errado na casa que, naquela época, tinha sido ampliada e ganhado uma simpática floreira junto ao muro: era tudo obra de espíritos obsessores. Ela chegou a pensar em fazer um ritual lá, se o dono concordasse, é claro, mas ela tinha medo do cachorro e nunca tentou nada.

Celeste se transformou numa jovem adulta e tinha recém se convertido ao neopentecostalismo. Mas a sensação ao passar em frente da casa, que agora tinha uma nova janela vermelha no que deveria ser a sala, era a mesma, senão pior. Só podia ser coisa de demônios, é claro. Enviados do capiroto, do pé-rachado, do inimigo, para atrapalharem a sua vida. Por isso que aquele cachorro latia tanto. Devia ver os demônios.

Quando se casou, Celeste deixou o bairro, mas voltou alguns anos depois com dois filhos, uma cicatriz de cesárea, uma bala alojada na bacia e agnóstica. Com dois bacuris para criar, não tinha muito tempo para pensar em casas, mas evitava sempre que podia passar em frente àquela, que tinha sido reformada de novo: trocaram a grade, e agora ficava mais fácil para o cachorro latir em qualquer um que passasse na rua.

Mais alguns anos se passaram e Celeste era agora uma quase balzaquiana estressada andando pelo bairro quando passou em frente aquela casa, que tinha sido pintada de um verde abacate horrível. O cachorro, como sempre, estava latindo furiosamente mas, saindo pelo portão, estava uma velinha encurvada.

Era a primeira vez que ela via alguém naquela casa ! A velinha parecia inofensiva. Estava trajando uma saia longa e tinha um coque bem arrumado percebeu Celeste, enquanto andava cautelosamente atrás dela. Quando chegaram no cruzamento ela se adiantou e ajudou a velinha atravessar a rua.

-Bom dia, meu nome é Celeste, e o seu ?

-Bom dia, filha. Eu me chamo Celestina.

-A senhora mora naquela casa verde?

-Sim, filha, desde 1981.

-A senhora vai achar graça, mas eu tinha medo da casa da senhora quando era mais jovem.

-Ah é ? Porque, minha filha?

-Não sei, era uma sensação esquisita. E tem aquele cachorro preto que não para de latir e…

-Cachorro ?? Eu nunca tive cachorro, minha filha. Sou alérgica.

E então Celeste compreendeu tudo.

O ônibus

Todas as semanas quando entrava naquele ônibus ela sentia algo esquisito. Era uma sensação indefinida, que ela não saberia explicar com palavras, um misto de arrepio que subia pela espinha e uma sensação de que algo estava muito, muito errado.

Naquela sexta-feira em particular a sensação estava mais forte, a ponto de deixá-la desconfortável. Enquanto as outras pessoas assumiam os seus lugares, ela ficava cada vez mais aflita. Chegou a cogitar descer antes do embarque. Mas não podia fazer isso. Não havia outro horário, e ela estava com saudades da família. Apertou com força o pingente no seu pescoço com a imagem de São Bento, rezando uma prece muda.

Quando o ônibus saiu da rodoviária o desconforto dela já tinha quase virado desespero. Conforme o veículo avançava depressa para a rodovia, ela tentou se acalmar observando os outros passageiros.

Já tinha um tempo que ela dava apelidos aos passageiros, velhos conhecidos seus de outras sextas-feiras. Hoje, do seu lado ia A Faladeira, uma senhora de seus trinta anos que passava metade da viagem no celular falando com, ela suspeitava, o próprio marido. Ou talvez fosse o amante. Mas hoje ela estava quieta.

Do outro lado do corredor estava o Zé Canceroso, um senhor dos seus sessenta anos que ficava ao lado do ônibus fumando um cigarro atrás do outro e que só embarcava no último minuto. Mas hoje ele não estava fedendo fumaça.

Do lado dele estava A Alienada, uma adolescente com cara de entojada que ficava o tempo todo no celular. Mas hoje ela estava…lendo um livro ! Tinha uma coisa errada. Uma coisa muito errada. Tudo estava muito…incomum.

Conforme os quilômetros foram passando o desespero dela foi se materializando num suor gelado escorrendo pela nuca. Se levantou e foi para o final do ônibus pegar uma água. Passou pela Dorminhoca, que estava bem acordada conversando com o Bonitinho, parecendo não reparar na espinha gigante que tinha brotado na testa dele.

Voltou para o seu lugar tremendo. Mal conseguiu abrir o copo de água. Ainda faltava mais de uma hora para a primeira parada. Fechou os olhos, como se o gesto pudesse afastar os seus temores e acalmar o seu coração disparado.

Então o ônibus parou. Ele nunca parava antes da rodoviária. Ela abriu os olhos. Tinha alguém vestido de preto entrando. Do outro lado da estrada ela conseguiu visualizar uma placa: Cemitério São João Batista. Seu estômago se revirou, o gosto de bile chegou na garganta.

Ela se levantou tão rápido que quase tropeçou nas próprias pernas. O medo lhe deu uma velocidade sobrenatural e no segundo seguinte estava brigando com o motorista que não queria deixar ela descer ali. Quando os outros passageiros começaram a xingar e reclamar que a briga estava atrasando a viagem, ele abriu a porta relutante e ela desceu, decidida a chegar até ao posto de gasolina que tinha visto alguns quilômetros antes. Depois veria o que fazer.

Alguns dias depois o legista estava examinando o corpo de uma jovem mulher, bonita mesmo na lividez da morte, quando notou uma medalinha de São Bento no pescoço dela. A retirou delicadamente, enquanto fazia uma anotação no formulário.

A poucos quilômetros dali, o coveiro do Cemitério São João Batista abria mais uma cova. Ele cantarolava, feliz.

O funeral

Eram sete da manhã de um dia de sol. O que significava que já estava um calor infernal.

Tinha sido um erro mudar para aquela tigela poeirenta na beira da floresta ? Talvez. Mas pelo menos o salário era bom, pensou ele, enquanto aumentava o ar condicionado do carro para o máximo.

Aquela estrada era péssima, cheia de buracos, e de vez em quando um galho caído. Mas era a única que ligava o seu condomínio à cidade. Se é que podia chamar aquele lugar deprimente de cidade. Mas o salário era bom. Ele suspirou.

E ainda tinha os gêmeos. Lindos, um sonho realizado mas, por Deus, como davam trabalho. Ainda mais agora que já estavam andando. Tinha sido mais uma noite de pouco sono. Acelerou o carro. Precisava urgentemente de uma dose generosa do café extra forte da firma. E o salário ainda era bom !

O carro deu uma vibrada. Era algum problema no amortecedor, tinha dito o mecânico. Ele precisava trocar, mas não tinha outro carro e não tinha como ficar sem. Quem sabe nas férias. Afinal, o salário dele era bom. Podia viajar para a praia. Ou para Campos do Jordão.

Deu um branco nele. Devo ter apagado por alguns segundos, pensou. Balançou a cabeça para dissipar a névoa e acelerou o carro. A pista estava ótima, o tempo estava fresco, o carro respondia bem. Acelerou mais. Mas onde ele estava indo mesmo ? A mente dele pareceu um pouco confusa por um momento. Claro, claro, estava indo num velório. Como pode esquecer ?

A bucólica cidadezinha só tinha um velório. Ele passou pelo portal da cidade. Nunca tinha reparado muito bem nele. Parecia até bonito se você olhasse do angulo certo. Virou à esquerda. Pronto. Estava na rua do cemitério.

Tinha poucos carros em frente ao modesto edifício. O morto não deveria ser muito popular. Quem era mesmo ? Ele não conseguia se lembrar. Entrou no recinto. O cheiro misturado de velas e flores estava enjoativo demais, então ele ficou parado perto da entrada observando. A mulher ao lado do caixão lhe parecia estranhamente familiar. Quem era ela mesmo ?

Duas crianças passaram correndo. Uma delas parou ao seu lado e sorriu. Ele sorriu de volta e mostrou a língua para a criança, que saiu correndo gritando papa, papa, papa… Bonitinho, pensou ele. Tão parecido com um dos meus filhos…

Ele tinha chegado no final do velório. O padre encomendou o corpo o melhor que pode. Parecia com pressa e fedia a álcool . Então os funcionários da funerária fecharam o caixão e começaram o transporte. Ele saiu do caminho e seguiu no final do pequeno cortejo. A mulher do falecido chorava muito. Uma das crianças de antes estava no seu colo. A outra, estranhamente, seguia ao seu lado. Ela continuava repetindo…papa, papa, papa…

O caixão foi colocado ao lado da sepultura. A esposa pediu para abrirem por uma última vez. A última despedida! Ele se aproximou, curioso. Não conseguia se lembrar de quem era o funeral…

Quando a tampa foi retirada, ele gritou, e então tudo ficou claro.

O morto era ele mesmo.

O lacaio

A madrugada estava gelada. Como fazia frio naquele lugar ! Ele acelerou o passo e olhou para o relógio. Meia hora de caminhada. Hora de fazer a meia volta e retornar para o seu apartamento.

Mas ele estava perto do Monumento pelos Mártires da Grande Purificação e resolveu continuar em frente. Mais uma quadra e ele virou à direita e chegou na praça do monumento. Riu por dentro ao se lembrar que na infância tinha medo da expressão das estátuas das crianças no monumento. Ele não compreendia a importância dele. E pensar que a uma geração atrás aquela praça era considerada um local perigoso e ele nunca poderia estar caminhando naquele horário. Tempos bárbaros, pensou ele.

Apertou mais o passo agora, não podia se atrasar. Sentia-se cansado, mas menos que na semana anterior. O governo estava mais uma vez certo ao instituir o Grande Plano Nacional de Atividade Física Continuada. Que a sorte a dele viver nessa época !

Subir as escadas para chegar no apartamento era a pior parte do exercício matinal, mas elevadores eram um luxo que seu prédio não tinha. Chegou no quente e acolhedor apartamento e ouviu barulhos vindos da cozinha. Sua esposa com certeza estava preparando o desjejum. Foi direto para o banho, para não perder tempo precioso.

Enquanto tomava seu banho gelado (ajudava na circulação, tinha dito o governo) repassou mentalmente as tarefas do dia. Ia chegar na casa do Patrão a tempo de supervisionar a montagem da bandeja do café da manhã. Depois de servi-lo, seria a hora de ajudar o Patrão a se vestir e arrumar seu quarto enquanto a família fazia a sua devoção diária. Hoje era quarta-feira, então o Patrão iria jogar bridge no clube com os amigos, o que daria tempo para ele ajudar a governanta na limpeza da casa. Depois, servir o almoço com os outros lacaios, tarefa que ele não gostava. Considerava os outros lacaios preguiçosos e desatentos.

Mas, eram ossos do ofício. A tarde do Patrão seria no campo de golfe, e ele torcia para ser escolhido para acompanhá-lo. Gostava do ar livre, e carregar os tacos nem era uma tarefa tão pesada assim. Antes do toque de recolher o patrão já estaria em casa e ele ajudaria a servir o jantar. O Patrão não receberia ninguém naquela noite, então ele estaria de volta a sua família bem cedo.

Tinha muita sorte de ter um bom emprego de lacaio para uma família tão distinta pensou ele, enquanto se enxugava rapidamente. O cheiro do chá preparado pela esposa enchia o pequeno apartamento e ele já ouvia o burburinho dos cinco filhos conversando na cozinha.

Se serviu de uma xícara bem grande do seu chá favorito e escolheu o menor pedaço de pão, como sempre. Seus filhos, respeitosamente, aguardaram ele se servir primeiro, então atacaram o que sobrou avidamente. Sentiu falta do seu filho mais velho.

– O Elifaz ainda não se levantou, nobre esposa ? perguntou, distraidamente

A esposa levantou os olhos da sua xícara e ele viu desconforto nos olhos dela.

– Ainda não, querido esposo, ela respondeu, baixo. Deu mais um gole no chá. Ele está um pouco…chateado nos últimos dias – completou ela, hesitante.

– Com o que, nobre esposa ? – ele estava surpreso. Elifaz era o seu primogênito e um jovem rapaz muito ajuizado.

– Amanhã é o Dia da Seleção dele, querido esposo.

Ah, o dia da Seleção ! Como o tempo tinha passado rápido! Ainda se lembrava de como tinha sido na sua vez. A insegurança, o medo. Justificável, ele ainda não confiava plenamente nos algoritmos de seleção do governo, por mais que isso tivesse sido ensinado a ele na escola. Tudo tinha dado certo. Afinal, ele tinha um bom emprego, uma família amorosa e não faltava comida na sua despensa.

Olhou no relógio. Podia tirar cinco minutos para falar com o filho, se corresse o caminho entre o ponto de ônibus e a casa do Patrão. Valia o sacrifício.

– Vou falar com ele, nobre esposa, e se levantou. Ato continuo, todos na mesa se levantaram também. Podem continuar comendo, pessoal, riu ele.

Elifaz tinha o seu próprio quarto. Era seu direito, como primogênito. Bateu na porta três vezes. Chamou. Não tinha tempo a perder. Abriu a porta.

A primeira coisa que ele viu foram as pernas dependuradas.

O primeiro conto

Atenção: esse é um conto (levemente) erótico com temática BDSM. Se você não gosta desse tipo de conteúdo, não prossiga. Você foi avisado. De nada.

Ela escutou o silvo do chicote cortando o ar e retesou as costas esperando o impacto. Mas ele não veio.

Ele sempre faz isso, pensou ela. Esse alarme falso. Não é a toa que ele é sádico e…

O impacto veio com tudo, sem ela estar preparada. A onda de dor subiu pelas suas costas e a fez gemer e tentar fugir instintivamente da dor. O segundo golpe veio, e depois o terceiro, e ela mordeu forte a mordaça, enquanto tudo o que ela sentia eram ondas de dor e prazer misturadas.


Ele amarrou a última tira e agora ela estava totalmente imobilizada. Ela sentiu o hálito dele próximo do seu rosto. Ele colocou o fone de ouvido gentilmente. Logo começou a tocar aquele mesmo som de sempre, meio hipnótico, que a deixava relaxada ao mesmo tempo que não permitia que ela ouvisse mais nada.

Sentiu seu mamilo direito começar a ser chupado, lambido e mordiscado. Sua excitação foi crescendo, aumentando ainda mais quando ele parou e colocou a garra. Ela sabia o que viria a seguir.

Mas ele se demorou. Aquele som, entrando na cabeça dela, a fazia perder a noção do tempo. Não é a toa que ele é sádico e…

O choque veio com tudo, sem aviso. Os seus peitos pularam loucamente, a dor se espalhando mais e mais. Ela quis gritar, mas não podia.

Assim como começou, o choque parou repentinamente. Ela ainda arfava quando sentiu as garras sendo colocadas na sua vulva. Fechou e apertou os olhos, mesmo estando vendada, como se aquilo pudesse ajudá-la a suportar a dor.

O choque veio rápido dessa vez. Ela cravou os dentes na mordaça, a dor e sensação de queimação a fazendo tremer violentamente. Então veio o prazer, rápido e intenso. Era a melhor e a pior coisa do mundo, ao mesmo tempo, juntas e misturadas.


Aquela sensação do plug dentro do seu anus era uma das que ela mais gostava. Geladinho, molhado de lubrificante, doendo, mas ao mesmo tempo gentil, como se seu anus tivesse sido preparado a vida toda para recebê-lo.

Ela estava ali, imobilizada de quatro a muito tempo. Ou seria pouco? Ela perdera a noção do tempo, com aquele som entrando ininterruptamente no seu ouvido. Tentou se mexer um pouco, mas as algemas presas na argola no chão a machucaram. Melhor ficar quieta.

Percebeu que o plug estava sendo tirado. Lentamente, muito lentamente, milimetro por milimetro. Ela soltava gemidos a cada pequena puxada. Ele estava fazendo de propósito, é claro. Não é a toa que ele é sádico e…

O plug terminou de ser puxado e ela soltou um suspiro de alívio. Mas ele durou pouco tempo. Ela sentiu o pênis intumescido dele adentrando seu anus sem dó. Ela mordeu a mordaça e ele continuou, metodicamente, na mesma velocidade. A dor aumentando mais e mais, e ela tenta se soltar das algemas, o que a machuca mais. Ele aumenta a velocidade e a intensidade, e o prazer dela vem forte, enquanto ela percebe que seus pulsos estão sangrando.


Ela gostava daquela sensação. A mão grande e pesada dele passando a pomada calmante nas suas costas enquanto ela estava imobilizada na cama.

Um pouco antes ela tinha fumado um cigarro de maconha. Ela não gostava de maconha no dia a dia mas a analgesia que ela trazia era perfeita para aquele momento. Ele prosseguiu com movimentos delicados por suas costas machucadas. Nem parecia que era aquela mesma mão que, minutos antes, a tinha castigado severamente.

O efeito da cannabis começou a ficar mais forte e ela relaxou e sorriu. Sentiu a mão dele se mover gentilmente pelas suas nádegas, em suaves movimentos circulares espalhando a pomada. A mesma bunda que ele havia espancado com um remo. Parecia ter sido a séculos atrás.

Sem aviso, ele começou a masturbá-la. Ela gemeu baixinho, mas ele fez shhhh e ela se calou imediatamente. Ele aumentou a velocidade, ela foi ficando mais e mais excitada, lutando consigo mesma para não gemer. Quando ela estava quase chegando a mais um orgasmo, ele parou.

Não é a toa que ele é um sádico.