A Bíblia tem mesmo razão ?

Em 1955 o jornalista alemão Werner Keller lançou o livro “Und die Bibel hat doch recht”, traduzido em português como “…e a Bíblia tinha razão”. A intenção do autor era mostrar que pesquisas arqueológicas mostravam a verdade história mostrada nos livros da Bíblia e que eventos como a migração de Abraão, o êxodo, a conquista de Canaã por Josué, o reino de Davi e Salomão, o cisma que se seguiu, a destruição do reino idólatra de Israel eram verdades históricas.

O livro fez um grande sucesso, e é vendido até hoje, tendo sido atualizado, mesmo após a morte do autor, com novas descobertas arqueológicas. Até que em 2001 os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman lançaram “The Bible Unearthed”, que algum editor gênio aqui no Brasil resolveu intitular de “A Bíblia não tinha razão”. A intenção dos autores era provar justamente o oposto: que os fatos históricos contidos na Bíblia eram, na sua maior parte, lendas e ficção compiladas e amarradas como uma história coerente que mostrasse a superioridade do culto a Jeová, na época do reinado de Josias, rei de Judá (a metade sul do reino israelita depois da divisão ocorrida quando Salomão morreu, e que supostamente se manteve a maior parte do tempo leal aos desígnios de Jeová) no século VII a.C.

Depois de pelo menos 25 anos estudando história bíblica, e depois de ter lido recentemente “A Bíblia não tinha razão” – procurei esse livro por muitos anos, mas só se acha em sebos ultimamente – eu creio estar capacitado para responder à pergunta que dá titulo a este post: afinal, a Bíblia tem mesmo razão ? E a resposta é (que rufem os tambores!): depende de para quem você pergunta.

Apesar de  Finkelstein e Silberman argumentarem, não sem razão, que a maioria dos arqueólogos hoje apoiam as idéias que eles compilaram em seu livro, eles mesmo apontam que não há consenso. E é normal em ciência que não haja consenso. Até hoje há quem não acredite que o HIV não é a causa principal da AIDS (a famosa hipótese Duesberg), por exemplo.

Se você lê lado a lado os dois livros – coisa que eu fiz – você repara que muitas vezes o mesmo achado arqueológico é interpretado de formas diferentes pelos grupos “a favor” ou “contra” da historicidade bíblica. Há dezenas de exemplos. Vou citar apenas um, já que esse texto corre o grande risco de ficar grande demais.

Megido foi uma fortaleza importante antes mesmo dos israelitas aparecerem na história. Pertenceu a caananitas, egípcios, assírios, babilônios, israelitas, romanos, bizantinos, muçulmanos e cruzados em pelo menos 3000 anos de história. É tão importante que uma das interpretações do Apocalipse (há mais interpretações do Apocalipse do que posts nesse blog, e olha que são mais de 500 posts nesse blog) diz que a batalha do Armagedom, em que Jesus derrotará definitivamente o Anticristo, vai acontecer lá.

Porque Megido é importante para a história bíblica? Por causa desse texto da Bíblia:

Salomão possuía cavalariças para quatro mil cavalos de carros e doze mil cavalgaduras para cavaleiros, que ele colocou nas cidades onde estavam abrigados seus carros assim como em Jerusalém, perto de si. (2 Crônicas, 9:25)

Umas das cidades fortificadas por Salomão, sabemos por outro trecho do livro dos Reis, foi Megido. E, adivinhem o que encontraram em Megido ? Sim, estábulos. Aí estão eles:

Tell_Megiddo_Preservation_2009_037Há pelo menos três interpretações para esses estábulos: há quem, como Keller, que defenda que eles foram construídos sob o reinado de Salomão, como está na Bíblia. Isso provaria que houve um reino unificado, que começou com Saul, passou para Davi e depois para Salomão, antes de ser dividido em dois no reinado do filho dele.

Para Finkelstein e Silberman, os estábulos são mais recentes. Ou são de Omri, no começo do reino do Sul, ou de Menaém, quando este reino era uma potência militar que tentou fazer frente à Assíria.  Para eles essa evidência, junto com outros sítios arqueológicos, provam que não existiu um reino unificado sob Davi e Salomão, e que o reino do Sul (Israel) foi muito mais poderoso e desenvolvido que o reino do Norte (Judá) até pelo menos o século VII a.C.

Há ainda, e esses são a minoria da minoria, quem ache que esses estábulos não são estábulos, são depósitos de grãos, e os chochos que foram encontrados eram para os jumentos que carregavam as cargas até os armazéns.

Agora pegue o exemplo de Megido e transporte para dezenas, quiçá centenas de sítios arqueológicos. Simplesmente não há consenso. Amanhã ou depois uma nova descoberta pode “virar o jogo” para qualquer um dos lados. Poderia até dizer que a resposta para a pergunta que dá título a este post poderia ser também: nós não sabemos.

Uma pergunta que sempre me fizeram quando sabiam que eu estudava esse assunto era: é importante que a Bíblia tenha razão ?

Para quem tem fé, não. Fé não se baseia em fatos. Mas há algo chamado geopolítica, e nesse ponto interessa muito que a Bíblia tenha razão.

Desde que o nacionalismo judaico, ou sionismo, se você preferir, se iniciou, em fins do século XIX, o objetivo sempre foi a volta dos judeus à terra de Israel. É a terra que foi dada a eles pelo próprio Jeová, na promessa à Abraão. E que até hoje ainda impulsiona alguns judeus no sentido de não aceitar a presença palestina na “terra santa”, afinal a terra é deles, não só por direito histórico, mas por direito divino.

Um dia saberemos se a Bíblia tem razão ? Provavelmente, a menos que inventem uma máquina do tempo, o que parecer ser impossível, não. Mas podemos procurar pela resposta, o que já é bem esclarecedor. Afinal, o que importa é a jornada, e não o destino, correto, pequenos gafanhotos ?

A Bíblia tem razão ?

O que é, o que é ? Um livro de mais de quatrocentas páginas, editado pela primeira vez em 1955, com mais de 25 edições somente em português, que vendeu mais de um milhão de exemplares na sua língua original e dez milhões no mundo todo e que continua sendo vendido mesmo tendo se passado décadas da morte do autor ? Um livro do Tolkien ? Um best-seller de algum autor estadunidense ? Não, um livro sobre arqueologia bíblica.

O tal livro é e a Bíblia tinha razão…, do jornalista alemão Werner Keller. Na obra, ele tenta provar, ao interpretar as descobertas arqueológicas, que a Bíblia é exata do ponto de vista histórico, mesmo nas passagens mais improváveis. Seu trabalho foi um sucesso, mas recebeu muitas críticas por ter, às vezes, “forçado a barra” para que os fatos se encaixassem nas suas teorias o que, diga-se de passagem, não é exclusividade dele. Os críticos até escreveram  um “livro-resposta”,  A Bíblia não tinha razão, que desmonta todas as teorias de Keller sem dó nem piedade.

O fato é que essa é uma discussão inútil. Para quem acredita, não são necessárias provas. Para quem não acredita, as provas são insuficientes. Mas isso não tira o fato que Keller nos mostra algumas coisas bem interessantes no seu livro. Separei uma das mais surpreendentes para contar para vocês. De acordo com ele, o maná não só existiu, como ainda existe !

Se você fugiu das aulas de catecismo ou da escola bíblica dominical (ou nem as freqüentou, com trema mesmo, porque eu tô me lixando para a Reforma Ortográfica) o maná era a comida que caiu dos céus para alimentar os israelitas durante os quarenta anos que eles vaguearam pelo deserto entre o Egito e a terra prometida de Israel. Está tudo no capítulo 16 do Êxodo:

“Com efeito, à tarde veio um bando de codornizes que cobriu o acampamento; e, pela manhã, formou-se uma camada de orvalho ao redor do acampamento. Quando o orvalho evaporou, apareceram na superfície do deserto pequenos flocos, como cristais de gelo sobre a terra. Ao verem isso, os israelitas perguntavam uns aos outros: “Man hu?” ( ~ que significa: o que é isto? ), pois não sabiam o que era. Moisés lhes disse: “Isto é o pão que o SENHOR vos dá para comer.  Eis o que o SENHOR vos mandou: Recolhei a quantia que cada um de vós necessita para comer, um jarro de quatro litros por pessoa; cada um recolherá de acordo com o número de pessoas que moram em sua tenda”…”Moisés lhes disse: “Ninguém guarde nada para amanhã”. Alguns, porém, desobedeceram a Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte; mas ele bichou e apodreceu. Moisés irritou-se contra eles. Manhã por manhã, cada qual ajuntava o maná que ia comer. Mas quando o sol esquentava, o maná se derretia”…”Os israelitas deram a esse alimento o nome de maná. Era branco como as sementes do coentro e tinha gosto de bolo de mel.”

Milhares de pessoas com fome no deserto e Jeová providencia para eles o básico da alimentação na época: carne (codornizes) e pão (maná). Para quem acredita, nada mais natural, afinal um Deus todo-poderoso pode fazer chover comida a hora que ele quiser. Para quem não acredita, é uma história fantasiosa. Bem, mas há provas de que ela é possível. Pelo menos de acordo com Keller. Vamos a elas.

Para as codornizes, a explicação é simples: as aves migram da África para os Balcãs e muitas delas, cansadas, param para descansar no deserto, onde se tornam presas fáceis. Há relatos de outras fontes sobre o assunto e até descrições da caça às codornizes entre os egípcios antigos. Nenhum mistério por aqui. Então vamos passar ao enigmático maná.

De acordo com Keller, que cita o trabalho de dois botânicos judeus datado de 1927, o maná nada mais é do que a secreção que uma árvore chamada tamargueira exsuda (palavra bonita, não ?) quando é picada por uma cochonilha (um inseto). Essa secreção é chamada até hoje pelos beduínos do deserto de “pão do céu”. E, para dirimir todas as dúvidas, o livro ainda tem a foto da expedição de 1927. Eis então, senhoras e senhores, a primeira foto do maná (não reparem que ela está meio torta, tive que digitalizar direto do livro, o que não foi muito fácil):

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Em tudo o “pão do céu” descrito pelos pesquisadores em 1927 bate com a descrição do maná bíblico: é doce, branco, dependendo das chuvas do ano é encontrado em abundância, deve ser colhido logo de manhã porque senão é devorado pelas formigas (“derrete”, nas palavras do cronista bíblico) mas se for guardado longe delas dura bastante tempo. OK, mas o que isso prova ?

Prova que a história da Bíblia pode ser verdadeira ? Sim. Prova também que os  antigos israelitas não conheciam, obviamente, nada de botânica ou migração de aves e que interpretaram fenômenos naturais como sendo milagres de Deus ? Também. Mas, dependendo do ponto de vista, pode provar também que Jeová foi misericordioso o suficiente para prover aos israelitas, durante quarenta anos, codornizes e cochonilhas suficientes para alimentar toda aquela gente.

Qual o ponto de vista válido ? Qualquer um, depende do que você acredita, ou deixa de acreditar. Mas não deixa de ser inquietante que a Bíblia traga uma descrição precisa de um fenômeno natural, mesmo porque a forma atual do Pentateuco foi escrita centenas de anos depois dos fatos terem ocorrido. Em quais outros pontos a Bíblia também teria razão ?

Hoje na História: a maldição da múmia

Prezados leitores, caras leitoras, o Depokafé começa hoje mais uma série de posts, que se estenderão pelos próximos doze meses. Reviramos os baús da História atrás de pequenos e grandes fatos que quase ninguém lembra mas que merecem um post. E nada melhor para começar essa série histórica do que falando de múmias. No dia de hoje, a 86 anos atrás, Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutancâmon. Deixemos que ele mesmo fale sobre a descoberta:

“O dia 26 de novembro devia tornar-se o mais belo de minha vida… A dez metros da primeira porta tinha aparecido uma segunda, selada também… Os selos eram de Tutancâmon e da necrópole real… Com as mãos trêmulas, abri um pequeno buraco no canto superior esquerdo. Lá introduzi uma barra de ferro que não tocava em nada… alarguei o buraco e olhei…”

A história da descoberta da tumba de Tutancâmon é envolta em mistério. Lord Carnarvon, que financiava a empreitada, morreu quatro meses depois da descoberta da entrada secreta, depois de ser picado por um mosquito. Dizem que no dia da sua morte o seu canário de estimação foi comido por uma cobra. Seu cachorro, que estava na Inglaterra, também teria morrido. E consta que a cidade do Cairo também teria ficado sem eletricidade nesse dia.

Essas coincidências todas levaram a imprensa da época a especular sobre uma “maldição da múmia”. Curiosamente, quem acreditou nessa história foi ninguém menos que Arthur Conan Doyle (ele mesmo, o criador de Sherlock Holmes) que era um espiritualista fanático e tinha inclusive acreditado na farsa das fotos de fadas de Cottingley.

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Uma caricatura ridicularizando as crenças esotéricas de Conan Doyle, publicada num jornal da época

Você já deve ter ouvido falar da famosa inscrição na tumba de Tutancâmon que amaldiçoava quem a profanasse. Pura balela. A verdadeira inscrição no túmulo dizia somente: “Sou eu quem impede a areia de obstruir a câmara secreta. Eu sou a proteção do falecido.” Aquela história toda de morte aos profanadores do túmulo foi só papagaiada para vender jornal. E nós ainda reclamamos da imprensa hoje em dia…

Curiosamente, a suposta “maldição” não atingiu Howard Carter, que tecnicamente foi quem “profanou” o túmulo. Ele viveria até março de 1939. Mas uma maldição, mesmo que inventada, não se rende assim tão fácil.

Em 1979 a máscara mortuária de Tutancâmon estava em uma exposição em São Francisco. Em setembro daquele ano George LaBrash estava de guarda na sala em que estava a máscara quando teve um derrame (ou AVC, se você preferir). Ele processou o museu dizendo que havia sido vítima da maldição da múmia. O juiz, é claro, não aceitou abrir o processo. Em algum lugar do Além, o jovem faraó Tut deve ter dado boas risadas…

Éééééééééééé do Brasil !

Fazer ciência no Brasil não é fácil. Na maior parte do tempo nossos bravos cientistas e inventores são sumamente ignorados no resto do mundo. Santos Dumont é só o exemplo mais conhecido, mas há outros.

Padre Landell de Moura, por exemplo, foi um dos pioneiros na invenção do rádio, e é desconhecido em grande parte do nosso próprio país. A glória da descoberta ficou com Marconi, só porque ele foi mais rápido ao registrar uma patente.

César Lattes, o mais brilhante físico surgido em terras tupiniquins, foi “esquecido”  na hora de receber o Nobel de Física pela descoberta do méson-pi (uma partícula sub-atômica). A honraria (e a grana) acabaram indo para o chefe dele, Cecil Powell.

Outro padre-cientista quase desconhecido no Brasil foi o padre Francisco João de Azevedo, o inventor da máquina de escrever. Apesar de existirem patentes mais antigas de equipamentos semelhantes ao de padre Francisco, a sua invenção foi a primeira a ser construída. Mas o crédito acabaria ficando com Philo Remington, que patenteou a invenção de Padre Francisco e usou uma estratégia de marketing agressiva (contratou ninguém menos do que Mark Twain como garoto-propaganda) para colocar seu nome nos livros de História.

Como o meu nobre leitor e a minha prezada leitora devem ter depreendido, no Brasil, a menos que você invente algum novo tipo de dança idiota, a vida de cientista e inventor não vale muito a pena.

Mas isso está começando a mudar. Astolfo G. Mello Araujo, da Universidade de São Paulo, e José Carlos Marcelino, do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo, ganharam o Prêmio IgNobel de Arqueologia por um trabalho que prova, entre outras coisas, que os tatus podem atrapalhar as pesquisas arqueológicas desde que os estratos estejam a menos de 20 cm de distância.

O prêmio IgNobel é distribuído todo ano pela Revista Anais das Pesquisas Improváveis para “honrar façanhas que primeiro nos fazem rir e depois pensar”. É o contra-ponto bem humorado do sisudo Premio Nobel.

Então é isso. Não temos Nobel, mas temos IgNobel. Acho que essa notícia deveria ser mais divulgada. Quem sabe nossos jovens começam a se interessar por ciência. Depois que pararem de rir, claro. Porque criativos nós somos. Só falta um pouco mais de senso comercial.