A Bíblia tem mesmo razão ?

Em 1955 o jornalista alemão Werner Keller lançou o livro “Und die Bibel hat doch recht”, traduzido em português como “…e a Bíblia tinha razão”. A intenção do autor era mostrar que pesquisas arqueológicas mostravam a verdade história mostrada nos livros da Bíblia e que eventos como a migração de Abraão, o êxodo, a conquista de Canaã por Josué, o reino de Davi e Salomão, o cisma que se seguiu, a destruição do reino idólatra de Israel eram verdades históricas.

O livro fez um grande sucesso, e é vendido até hoje, tendo sido atualizado, mesmo após a morte do autor, com novas descobertas arqueológicas. Até que em 2001 os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman lançaram “The Bible Unearthed”, que algum editor gênio aqui no Brasil resolveu intitular de “A Bíblia não tinha razão”. A intenção dos autores era provar justamente o oposto: que os fatos históricos contidos na Bíblia eram, na sua maior parte, lendas e ficção compiladas e amarradas como uma história coerente que mostrasse a superioridade do culto a Jeová, na época do reinado de Josias, rei de Judá (a metade sul do reino israelita depois da divisão ocorrida quando Salomão morreu, e que supostamente se manteve a maior parte do tempo leal aos desígnios de Jeová) no século VII a.C.

Depois de pelo menos 25 anos estudando história bíblica, e depois de ter lido recentemente “A Bíblia não tinha razão” – procurei esse livro por muitos anos, mas só se acha em sebos ultimamente – eu creio estar capacitado para responder à pergunta que dá titulo a este post: afinal, a Bíblia tem mesmo razão ? E a resposta é (que rufem os tambores!): depende de para quem você pergunta.

Apesar de  Finkelstein e Silberman argumentarem, não sem razão, que a maioria dos arqueólogos hoje apoiam as idéias que eles compilaram em seu livro, eles mesmo apontam que não há consenso. E é normal em ciência que não haja consenso. Até hoje há quem não acredite que o HIV não é a causa principal da AIDS (a famosa hipótese Duesberg), por exemplo.

Se você lê lado a lado os dois livros – coisa que eu fiz – você repara que muitas vezes o mesmo achado arqueológico é interpretado de formas diferentes pelos grupos “a favor” ou “contra” da historicidade bíblica. Há dezenas de exemplos. Vou citar apenas um, já que esse texto corre o grande risco de ficar grande demais.

Megido foi uma fortaleza importante antes mesmo dos israelitas aparecerem na história. Pertenceu a caananitas, egípcios, assírios, babilônios, israelitas, romanos, bizantinos, muçulmanos e cruzados em pelo menos 3000 anos de história. É tão importante que uma das interpretações do Apocalipse (há mais interpretações do Apocalipse do que posts nesse blog, e olha que são mais de 500 posts nesse blog) diz que a batalha do Armagedom, em que Jesus derrotará definitivamente o Anticristo, vai acontecer lá.

Porque Megido é importante para a história bíblica? Por causa desse texto da Bíblia:

Salomão possuía cavalariças para quatro mil cavalos de carros e doze mil cavalgaduras para cavaleiros, que ele colocou nas cidades onde estavam abrigados seus carros assim como em Jerusalém, perto de si. (2 Crônicas, 9:25)

Umas das cidades fortificadas por Salomão, sabemos por outro trecho do livro dos Reis, foi Megido. E, adivinhem o que encontraram em Megido ? Sim, estábulos. Aí estão eles:

Tell_Megiddo_Preservation_2009_037Há pelo menos três interpretações para esses estábulos: há quem, como Keller, que defenda que eles foram construídos sob o reinado de Salomão, como está na Bíblia. Isso provaria que houve um reino unificado, que começou com Saul, passou para Davi e depois para Salomão, antes de ser dividido em dois no reinado do filho dele.

Para Finkelstein e Silberman, os estábulos são mais recentes. Ou são de Omri, no começo do reino do Sul, ou de Menaém, quando este reino era uma potência militar que tentou fazer frente à Assíria.  Para eles essa evidência, junto com outros sítios arqueológicos, provam que não existiu um reino unificado sob Davi e Salomão, e que o reino do Sul (Israel) foi muito mais poderoso e desenvolvido que o reino do Norte (Judá) até pelo menos o século VII a.C.

Há ainda, e esses são a minoria da minoria, quem ache que esses estábulos não são estábulos, são depósitos de grãos, e os chochos que foram encontrados eram para os jumentos que carregavam as cargas até os armazéns.

Agora pegue o exemplo de Megido e transporte para dezenas, quiçá centenas de sítios arqueológicos. Simplesmente não há consenso. Amanhã ou depois uma nova descoberta pode “virar o jogo” para qualquer um dos lados. Poderia até dizer que a resposta para a pergunta que dá título a este post poderia ser também: nós não sabemos.

Uma pergunta que sempre me fizeram quando sabiam que eu estudava esse assunto era: é importante que a Bíblia tenha razão ?

Para quem tem fé, não. Fé não se baseia em fatos. Mas há algo chamado geopolítica, e nesse ponto interessa muito que a Bíblia tenha razão.

Desde que o nacionalismo judaico, ou sionismo, se você preferir, se iniciou, em fins do século XIX, o objetivo sempre foi a volta dos judeus à terra de Israel. É a terra que foi dada a eles pelo próprio Jeová, na promessa à Abraão. E que até hoje ainda impulsiona alguns judeus no sentido de não aceitar a presença palestina na “terra santa”, afinal a terra é deles, não só por direito histórico, mas por direito divino.

Um dia saberemos se a Bíblia tem razão ? Provavelmente, a menos que inventem uma máquina do tempo, o que parecer ser impossível, não. Mas podemos procurar pela resposta, o que já é bem esclarecedor. Afinal, o que importa é a jornada, e não o destino, correto, pequenos gafanhotos ?

Lido: A canção de Rute

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Romances bíblicos já foram muito populares a algumas décadas atrás, principalmente em terras estadunidenses. Alguns viraram best-sellers, como o monumental Médico de homens e almas de Taylor Caldwell, que continua a venda até hoje. “A canção de Rute” , do médico estadunidense Frank Slaughter, é um legítimo representante desse gênero hoje esquecido.

O livro é baseado no livro de Rute do Antigo Testamento, uma história singela sobre uma moabita que, após a morte do marido israelita, decide acompanhar a sogra de volta a Israel. No final ela é recompensada casando-se com um poderoso dono de terras e de quebra ainda entra para a genealogia de Jesus Cristo, já que ela se torna avó do poderoso rei Davi. É uma história de tolerância, porque mostra que mesmo na genealogia do grande Davi ou até de Jesus Cristo há espaço para uma “estrangeira”, uma não judia. Pena que os judeus de hoje em dia sejam bem menos tolerantes com os palestinos do que deveriam.

Sobre essa base simples Slaughter faz diversos aumentos e modificações. Ele coloca Boaz, o futuro segundo marido de Rute, em ação desde o início, combatendo os moabitas e sendo traído pelas artimanhas de um deles. Transforma também a morte do primeiro marido de Rute num ato heroico que salva Boaz de ser capturado e põe a pobre Rute para “comer o pão que o moabita amassou” antes de finalmente se casar novamente.

Um dos pontos fortes do livro são suas narrativas detalhadas de alguns acontecimentos, como a coroação do rei ou um sacrifício humano feito pelos moabitas, que é assustadoramente verossímil. Os diálogos também são interessantes e bem construídos. E o livro também não exagera no proselitismo religioso, podendo ser lido sem problemas por não cristãos e ateus em geral.

Poucas partes do livro de Rute do Antigo Testamento são reproduzidas fielmente, mas uma delas, na minha opinião uma das passagens mais bonitas de toda a Bíblia, quando Rute declara a sogra que vai voltar com ela para Israel, é reproduzida em toda a sua beleza:

Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; Onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. Faça-me assim o SENHOR, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.

A única crítica que eu faria é as vezes o livro fica meio lento, arrastado, com muito diálogo e pouca ação. Slaughter gosta de “mastigar” bem a sua narrativa, como se ele quisesse ter certeza de que você está entendendo mesmo o que vai acontecer. Pode ser um defeito para alguns, mas pelo menos ninguém vai poder reclamar que não entendeu a história.

Veredito final: um romance com base bíblica que não exagera na parte religiosa e tem boas passagens. Nota oito.

Os segredos perdidos da Arca Sagrada – parte II

Se você quiser entender este post, é imprescindível, obrigatório e altamente recomendável que você leia a primeira parte antes. Você foi avisado. Obrigado.

Bem, se você acha tudo o que foi descrito na primeira parte desse post é improvável, você não viu nada, meu caro leitor. Como vimos, para Gardner, a Arca foi escondida em  nos subterrâneos do Templo construído por Salomão e somente um grupo de homens sabia da sua localização. A Arca teria ficado escondida lá até 1119, quando os templários a encontraram, graças a dicas de seus guardiões.

Agora, pense comigo. Durante 1600 anos, mais ou menos, um grupo de pessoas conseguiu guardar um segredo desse tamanho, sem que ele se perdesse. Contando com uma geração a cada 25 anos, como é habitual, seriam necessárias 64 gerações guardando o mesmo segredo, sem falhas. E mais: porque os guardiões, supostamente zelosos israelitas, não revelaram o segredo antes ? A região passou por muitos “perrengues” nesses mil e seiscentos anos. Teve a rebelião dos Macabeus, os levantes contra os romanos em 70 e 135 dC. Porque o segredo não foi revelado e o poder da arca usada nesses episódios ? Como eles sabiam que o paradeiro da arca deveria ser revelado só aos Templários ?

Gardner nem passa perto de explicar sobre essas questões. Ele reafirma a ladainha que os Templários só se tornaram poderosos porque encontraram a Arca da Aliança. Para o pessoal que acredita na história que Maria Madalena era esposa de Jesus, os templários ficaram poderosos porque descobriram esse segredo. Parece que esses escritores de livros polêmicos não chegam a um acordo sobre o que, afinal, os templários encontraram, se é que eles encontraram alguma coisa.

Curiosamente, nenhum deles parece disposto a estudar a história dos Templários. Se fizessem isso, veriam que a ordem não se tornou poderosa da noite para o dia, tendo que “ralar” muito antes de se estabelecer como uma ordem poderosa. Eles também saberiam que São Bernardo, que foi o maior incentivador da nova ordem, tinha sido cavalheiro na juventude e que tinha todos os motivos do mundo para apoiar uma ordem de cavalaria no estilo dos templários, não precisaria nem de arca nem de Maria Madalena para isso. E o que São Bernardo apoiasse ia para frente, já que ele era um excelente administrador. Tirou a Ordem Cisterciense da quase “falência” para uma das ordens mais poderosas do seu tempo, e isso antes que existissem Templários e todo o resto. A história pode ser tão simples, para que complicar, né ?

Mas Gardner gosta de complicar. Para ele, os Templários encontraram a Arca, levaram para a França (porque sempre a França ?) e passaram a utiliza-la para conseguir poder e riqueza no seio da cristandade. Aí ele mistura as bolas ao dizer que a Cruzada Albingense – onde nasceu a Inquisição – foi uma tentativa do poder de Roma de tomar a Arca, quando na verdade o inimigo eram os cátaros. O fato de não haver registro dos templários nessa cruzada não quer dizer nada para ele. Então passemos à frente.

Chegamos agora ao fim da linha. Todo mundo sabe que os Templários foram extintos em 1312 porque um rei da França devia uma grana para eles. Para Gardner, o verdadeiro motivo da perseguição aos Templários foi conseguir a Arca. Porque demoraram 200 anos para fazer isso ele não explica. Mas então a arca se perdeu, ou está nas mãos da Igreja Católica, certo ? Errado. A arca está na Catedral de Chartres, na França. Não escondida lá, mas a vista de todo mundo. É que ela está invisível. Ou, melhor dizendo, está em outra dimensão.

Sim, meu caro leitor, Gardner já começa errado ao afirmar que a construção da Catedral de Chartres tem algo a ver com os Templários, o que é algo polêmico, para dizer o mínimo. Depois ele afirma que o labirinto que existe na catedral na verdade fazia parte de um sistema, junto com uma bacia de cobre e um teto de ouro (que, convenientemente, não existem mais) que permitiu a “energização” da arca, que começou a “vibrar em outra freqüência” e foi para outra dimensão.

Eu não vou entrar no mérito se existem ou não outras dimensões e se é possível “viajar” entre elas, já que eu não sou físico e a teoria é complexa. Mas Gardner adora citar teorias que ele não entende, como supercordas e afins. Ele só não explica porque os templários “sumiram” com a Arca e não a esconderam, afinal os tempos mudam, a Igreja muda, e a tal Arca já tinha ficado escondida por 1600 anos, porque não ser escondida de novo ? Só para que nós não tenhamos nenhuma prova para refutar a teoria dele, é o que eu diria.

O resto do livro esbarra nas teorias da conspiração ao dizer que o súbito interesse pelo ouro depois da descoberta dos ORME é prova dos poderes curativos desse material – nas palavras de Gardner, ele teria o poder de “relaxar as hélices do DNA, reparando-as” – e que a Maçonaria sabe de toda a história da Arca Sagrada desde o início, além de fazer a clássica – e errada – conexão entre a Maçonaria e os Templários. Nada novo, e nada provado, como quase tudo o que ele escreve, é claro.

Em resumo, o livro é mais uma daquelas viagens na maionese. O problema é que ele pode enganar os menos atentos. A obra tem muitas citações, o que parece depor a favor da sua credibilidade, mas quando você vai analisar, são os mesmos escritores de sempre – o Zecharia Sitchin, o von Daniken, até para o Werner Keller sobrou. Ou seja, sempre o mesmo grupinho que defende teorias sem comprovação e que serve de fonte um para o outro. Então, a menos que você queira se irritar, fique longe desse livro e das teorias malucas que ele propõe.

Os segredos perdidos da Arca Sagrada – parte I

Eu gosto de ler livros que tenham teorias malucas não ortodoxas sobre assuntos que envolvam religião, arqueologia ou ciência em geral. Desde as teorias mais ou menos plausíveis como a que Lazaro teria escrito o evangelho geralmente atribuído a João até completas viagens na maionese teorias mais controvertidas como a que existiram naves voadoras na Ìndia antiga. Mas, pelo conjunto da obra, o livro que dá título a esse post é o mais maluco sui generis de todos que li até agora.

O autor, Laurence Gardner, é o mesmo de A linhagem do Santo Graal, aquela patacoada que tenta provar que Jesus foi casado com Maria Madalena e depois ela fugiu grávida para o sul da França. Naquele caso pelo menos ele tinha alguma base documental, mesmo que frágil. Mas nesse livro ele se superou.

Se você dormia nas aulas de catecismo ou da escola bíblica dominical, a Arca da Aliança seria uma caixa de madeira folheada a ouro com alças para transporte que teria sido construída por ordem do próprio Deus para guardar as duas pedras com os dez mandamentos que Moisés recebeu Dele no Monte Sinai. A arca foi colocada, centenas de anos depois, no templo construído em Jerusalém por Salomão, onde teria ficado até que os israelitas fossem deportados para a Babilônia, quando o templo foi destruído. Supostamente a arca foi levada como butim pelos conquistadores, e depois disso a Bíblia não fala mais nela. A Igreja Ortodoxa Etíope afirma que ela está atualmente em Aksum, mas só um alto sacerdote tem permissão para vê-la, então ninguém sabe se é verdade mesmo.

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Segundo se acredita, essa seria a aparência da Arca da Aliança

Mas para Gardner essa história é simples demais. Ele já começa polêmico: Moisés não seria judeu, mas sim o faraó egípcio Akhenaton que teve de fugir do Egito depois que tentou implantar o culto a um deus único. Como se isso não bastasse, ele ainda afirma que o Monte Sinai não é onde todos achamos que é – onde fica o belíssimo Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina – mas em outra montanha onde foram descobertos os vestígios de um antigo templo egípcio para a deusa Hator.

Mas, se você acho isso muito improvável, ainda piora. De acordo com ele, nesse templo o que seria conhecido depois como Arca da Aliança já existia e era usada para transformar ouro em um pó chamado mfkzt, que teria propriedades curativas e que permitia que a Arca levitasse ! Gardner identifica esse pó com o que conhecemos hoje como ORME – elemento monoatômico orbitalmente rearranjado – que está sendo pesquisado como supercondutor. O único problema é que para produzir ORME é necessária uma grande quantidade de energia.

Aí é que Gardner começa a derrapar feio. Ele não explica muito bem como uma caixa folheada a ouro poderia gerar eletricidade. Ele também não explica porque um ex-faraó egípcio fugiria do seu país ao invés de tentar lutar pelo poder. E nem porque ele fugiria levando os israelitas junto, por mais que ele afirme que Akhenaton era meio-israelista, já que isso seria praticamente impossível. Os egípcios desprezavam os israelitas, retratados por eles nos hieróglifos como “vagabundos do deserto”. Um egípcio casar com uma israelita ou vice-versa seria a mesma coisa que um membro da KKK casar com uma filha do Mandela.

Então, recapitulando, para Gardner não havia deus algum no monte Sinai, só um templo com uma artefato poderoso,  que era usado para fabricar o pó de ouro chamado mfkzt. Esse artefato também liberaria “raios de energia” (que teriam sido usados para destruir Jericó ). Então o ex-faraó Akhenaton roubou, ou recebeu de presente esse artefato, e depois fugiu para o futuro Israel. Porque os egípcios nunca foram atrás para recuperar o poderoso artefato ou todas as outras objeções que eu fiz acima não parecem incomoda-lo.

Como também não o incomoda o fato de que os israelitas demoraram para usar todo esse poder da arca. Depois da conquista da terra sagrada, ainda demorou centenas de anos para que eles tivessem um rei único. E a Bíblia fala de muitas batalhas e momentos ruins nesse tempo dos “juízes” (Sansão era um juiz, lembram dele ?). Porque um artefato tão poderoso seria tão subutilizado ? Nenhuma palavra sobre esse assunto.

O fato é que Salomão, lá pelos anos 900 aC, construiu em Jerusalém um templo onde a arca, é claro, tinha um lugar de destaque. Gardner teoriza que o templo era na verdade uma metalúrgica, usada para produzir em grande quantidade o mfkzt e exportá-lo, o que estaria na origem da grande fortuna salomônica. O ouro viria das famosas minas do rei Salomão, o que seria muito coerente, se já não tivesse sido descoberto que na verdade as minas eram de cobre.

Depois de Salomão o reino se dividiu em dois (e porque quem ficou com a arca não a usou para reunificar o país ?). Muitas batalhas foram travadas (e porque não usaram o poder mortífero da arca durante elas ?) e o reino acabou sendo destruído em 587 aC. Os israelitas foram deportados, o templo arrasado e a Arca foi escondida nos subterrâneos do templo para que não fosse levada pelos saqueadores. É o que diz Gardner. O resto dessa história fica mais inverossímil ainda, como vamos ver no próximo post, porque esse já está muito grande. Amanhã, aqui mesmo no Depokafé. Não percam. A segunda parte já foi postada e está aqui.

A Bíblia tem razão ?

O que é, o que é ? Um livro de mais de quatrocentas páginas, editado pela primeira vez em 1955, com mais de 25 edições somente em português, que vendeu mais de um milhão de exemplares na sua língua original e dez milhões no mundo todo e que continua sendo vendido mesmo tendo se passado décadas da morte do autor ? Um livro do Tolkien ? Um best-seller de algum autor estadunidense ? Não, um livro sobre arqueologia bíblica.

O tal livro é e a Bíblia tinha razão…, do jornalista alemão Werner Keller. Na obra, ele tenta provar, ao interpretar as descobertas arqueológicas, que a Bíblia é exata do ponto de vista histórico, mesmo nas passagens mais improváveis. Seu trabalho foi um sucesso, mas recebeu muitas críticas por ter, às vezes, “forçado a barra” para que os fatos se encaixassem nas suas teorias o que, diga-se de passagem, não é exclusividade dele. Os críticos até escreveram  um “livro-resposta”,  A Bíblia não tinha razão, que desmonta todas as teorias de Keller sem dó nem piedade.

O fato é que essa é uma discussão inútil. Para quem acredita, não são necessárias provas. Para quem não acredita, as provas são insuficientes. Mas isso não tira o fato que Keller nos mostra algumas coisas bem interessantes no seu livro. Separei uma das mais surpreendentes para contar para vocês. De acordo com ele, o maná não só existiu, como ainda existe !

Se você fugiu das aulas de catecismo ou da escola bíblica dominical (ou nem as freqüentou, com trema mesmo, porque eu tô me lixando para a Reforma Ortográfica) o maná era a comida que caiu dos céus para alimentar os israelitas durante os quarenta anos que eles vaguearam pelo deserto entre o Egito e a terra prometida de Israel. Está tudo no capítulo 16 do Êxodo:

“Com efeito, à tarde veio um bando de codornizes que cobriu o acampamento; e, pela manhã, formou-se uma camada de orvalho ao redor do acampamento. Quando o orvalho evaporou, apareceram na superfície do deserto pequenos flocos, como cristais de gelo sobre a terra. Ao verem isso, os israelitas perguntavam uns aos outros: “Man hu?” ( ~ que significa: o que é isto? ), pois não sabiam o que era. Moisés lhes disse: “Isto é o pão que o SENHOR vos dá para comer.  Eis o que o SENHOR vos mandou: Recolhei a quantia que cada um de vós necessita para comer, um jarro de quatro litros por pessoa; cada um recolherá de acordo com o número de pessoas que moram em sua tenda”…”Moisés lhes disse: “Ninguém guarde nada para amanhã”. Alguns, porém, desobedeceram a Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte; mas ele bichou e apodreceu. Moisés irritou-se contra eles. Manhã por manhã, cada qual ajuntava o maná que ia comer. Mas quando o sol esquentava, o maná se derretia”…”Os israelitas deram a esse alimento o nome de maná. Era branco como as sementes do coentro e tinha gosto de bolo de mel.”

Milhares de pessoas com fome no deserto e Jeová providencia para eles o básico da alimentação na época: carne (codornizes) e pão (maná). Para quem acredita, nada mais natural, afinal um Deus todo-poderoso pode fazer chover comida a hora que ele quiser. Para quem não acredita, é uma história fantasiosa. Bem, mas há provas de que ela é possível. Pelo menos de acordo com Keller. Vamos a elas.

Para as codornizes, a explicação é simples: as aves migram da África para os Balcãs e muitas delas, cansadas, param para descansar no deserto, onde se tornam presas fáceis. Há relatos de outras fontes sobre o assunto e até descrições da caça às codornizes entre os egípcios antigos. Nenhum mistério por aqui. Então vamos passar ao enigmático maná.

De acordo com Keller, que cita o trabalho de dois botânicos judeus datado de 1927, o maná nada mais é do que a secreção que uma árvore chamada tamargueira exsuda (palavra bonita, não ?) quando é picada por uma cochonilha (um inseto). Essa secreção é chamada até hoje pelos beduínos do deserto de “pão do céu”. E, para dirimir todas as dúvidas, o livro ainda tem a foto da expedição de 1927. Eis então, senhoras e senhores, a primeira foto do maná (não reparem que ela está meio torta, tive que digitalizar direto do livro, o que não foi muito fácil):

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Em tudo o “pão do céu” descrito pelos pesquisadores em 1927 bate com a descrição do maná bíblico: é doce, branco, dependendo das chuvas do ano é encontrado em abundância, deve ser colhido logo de manhã porque senão é devorado pelas formigas (“derrete”, nas palavras do cronista bíblico) mas se for guardado longe delas dura bastante tempo. OK, mas o que isso prova ?

Prova que a história da Bíblia pode ser verdadeira ? Sim. Prova também que os  antigos israelitas não conheciam, obviamente, nada de botânica ou migração de aves e que interpretaram fenômenos naturais como sendo milagres de Deus ? Também. Mas, dependendo do ponto de vista, pode provar também que Jeová foi misericordioso o suficiente para prover aos israelitas, durante quarenta anos, codornizes e cochonilhas suficientes para alimentar toda aquela gente.

Qual o ponto de vista válido ? Qualquer um, depende do que você acredita, ou deixa de acreditar. Mas não deixa de ser inquietante que a Bíblia traga uma descrição precisa de um fenômeno natural, mesmo porque a forma atual do Pentateuco foi escrita centenas de anos depois dos fatos terem ocorrido. Em quais outros pontos a Bíblia também teria razão ?

Lucas, o médico nosso amigo

Hoje, 18 de outubro, é dia do médico. Não por coincidência, também é o dia em que se comemora a festa de São Lucas, que foi médico.

A se acreditar na tradição, Lucas foi o autor do Evangelho que leva o seu nome e também da sua continuação, o Atos dos Apóstolos. É provavelmente o único autor não judeu de toda a Bíblia. Cristãos dos primeiros séculos – inclusive alguns que os católicos chamam de “pais da igreja” atestam que Lucas era grego, nascido em Antioquia, que hoje fica na Síria. Mas como um médico, grego e que nem estava na Judeia na época da vida de Jesus – até onde se sabe, pelo menos – acabou se tornando autor de dois livros da Bíblia ? Para entender isso, temos que começar pelos próprios textos que Lucas escreveu.

O Evangelho de Lucas é o único a se iniciar com um prólogo, dedicado a Teófilo, um personagem desconhecido. No prólogo Lucas diz que escreveu seu texto “depois de ter investigado tudo cuidadosamente desde as origens”. Isso faz o maior sentido, pois Lucas tornou-se um dos companheiros de viagem de Paulo, o grande divulgador do caminho de Cristo. A comprovação disso está no próprio Atos dos Apóstolos, que tem três passagens em que Lucas muda a narração de “eles” para “nós”, dando a entender que participou de algumas viagens de Paulo.

Como Paulo ia regularmente a Jerusalém se encontrar com os apóstolos, levar donativos para os pobres e dar contas do seu trabalho missionário, Lucas deve ter tido várias oportunidades de conversar com aqueles que tinham conhecido Jesus, ouvido suas pregações e visto seus milagres. Talvez influenciado pelas viagens de Paulo, Lucas organizou seu Evangelho como uma série de viagens, com Jesus primeiro pregando na sua terra natal, depois no resto da Judeia e chegando finalmente a Jerusalém, onde se dão os eventos dramáticos da Paixão de Cristo. Ele repetiu o mesmo esquema nos Atos dos Apóstolos, com a mensagem de Cristo sendo pregada primeiro na Judeia, depois nos arredores, indo parar na Grécia por obra de Paulo e chegando finalmente a Roma, a “capital do mundo”.

O Evangelho de Lucas tem outras particularidades interessantes. É o único a se ocupar da infância de Jesus, o que leva a crer que Lucas conheceu Maria em algum momento. Narra a anunciação de João Batista e os cânticos de Isabel e Maria, até hoje usados na liturgia católica. A escrita de Lucas também é impecável, seu vocabulário é rico e seu estilo se aproxima muitas vezes do grego clássico. Quase um terço dos versículos são os mesmos que encontramos em Marcos e Mateus e há pelo menos uma dezena de frases que se encontram tanto no Evangelho de Lucas como nas cartas de Paulo.

A associação, ou antes a amizade, entre Lucas e Paulo também é atestada pelas epístolas paulinas. Em três delas Lucas é citado. Em uma delas, Paulo chama Lucas de “o médico nosso amigo” dando a entender que ele era conhecido entre os (poucos) cristãos da época. Em outra, Paulo, preso, se queixa de solidão e afirma que “somente Lucas está comigo”.  E Lucas estava com ele em um momento dramático, quando ele foi preso em Jerusalém e enviado para Cesareia, capital administrativa da região na época. Como Paulo tinha o privilégio de ser “cidadão romano”, pois havia nascido em Tarso, uma das colônias administrada diretamente por Roma, apelou pelo julgamento do imperador e foi enviado à “Cidade Eterna”. Toda a história da viagem, com direito até a descrição do naufrágio da embarcação em que Paulo viajava, é contada em detalhes por Lucas.

Então segundo a tradição, Lucas foi um cristão do primeiro século, discípulo dos apóstolos, que viajou com Paulo, escreveu seu evangelho durante o período em que o incansável pregador esteve preso em Cesareia, aguardando para ser enviado a Roma, o seguiu quando o “apóstolo dos gentios” foi enviado para lá e escreveu os Atos dos Apóstolos, que terminam justamente com Paulo em prisão domiciliar em Roma, aguardando ser recebido pelo imperador. Tudo muito bonito e coerente, mas há algumas dificuldades ainda não superadas.

A primeira é porque, afinal, Lucas não esperou o fim da prisão de Paulo em Roma para terminar seu Atos dos Apóstolos. Depois de dois anos preso em Roma, ele foi libertado e viajou para a Grécia ou para a Espanha. Só depois, no auge das primeiras perseguições aos cristãos, ele seria preso novamente e morto em Roma, junto com Pedro. Porque Lucas não esperou ou pelo menos atualizou seus escritos depois disso ?

A segunda dificuldade diz respeito à crise entre os gálatas. Uma grave crise aconteceu entre os cristãos da Galácia, e Paulo chegou a repreender publicamente Pedro por acreditar que este estava se desviando da doutrina correta ao fazer distinção entre cristãos que tinham sido judeus anteriormente e os “gentios”. Paulo narra isso ele mesmo no capítulo 2 da carta que ele escreveu aos gálatas. Um acontecimento tão importante como este não poderia ter ficado de fora dos Atos dos Apóstolos, ainda mais escrito por um amigo de Paulo.

A terceira e última diz respeito à cronologia. Colocar a redação do Evangelho de Lucas na época que Paulo esteve preso em Cesaréia, o que dá mais ou menos no ano 59, faria dele o primeiro evangelho a ser escrito. Mas hoje há praticamente um consenso que Marcos foi o primeiro evangelho e que depois Mateus e Lucas usaram partes do seu texto – ou um texto ancestral, hoje perdido, chamado de “Manuscrito Q” – para seus escritos. Recuar o Evangelho de Lucas para 59 dC obrigaria a recuar Marcos para mais cedo ainda, o que é inviável para a maior parte dos estudiosos bíblicos.

Afora essa dificuldades, Lucas aparece sem contestação em todos os canones antigos, sendo citado já no ano 200 dC, então seu texto foi aceito desde o começo pelos cristãos. Uma antiga tradição, ou antes lenda, diz que Lucas também foi pintor e que teria pintado uma imagem de Maria em um pedaço de mesa que teria sido feita pelo próprio Jesus ! A pintura, conhecida como “Madona Negra”, hoje está em Czestochowa, na Polônia.

Lucas provavelmente morreu na Grécia, em Tebas, o que faria sentido, afinal ele era grego. Mas há quem afirme que ele chegou a ir para a Bitínia – que hoje fica na Turquia – e teria morrido lá, com mais de 80 anos, “sem filhos e repleto do Espírito Santo”.

Dois grandes livros foram escritos sobre Lucas. Taylor Caldwell passou praticamente metade da vida pesquisando a vida de Lucas e escreveu o monumental “Médico de homens e almas” um best-seller na época em que foi escrito. E Frank Slaughter, que também foi médico, escreveu o excelente “O caminho para a Bítinia“, com certeza o melhor livro que este blogueiro leu em toda a vida. E olha que eu já li muitos. O livro da sra. Caldwell é facilmente encontrado ainda, já o de Slaughter, somente nos sebos. Mas, se você tiver a oportunidade, não deixe de ler os dois livros e aprender mais sobre a fascinante vida do “médico nosso amigo”.

O desconhecido São José

Hoje, 19 de março, a Igreja Católica relembra um dos seus santos mais populares: São José, o “pai terreno” de Jesus Cristo.

Na Bíblia São José aparece muito pouco. Ignora-se seu passado ou quando ele morreu, apesar de ser razoável supor que ele tenha morrido antes da paixão de Cristo, já que ele não aparece nela, ao contrário de Maria. Mas, nos apócrifos, a história de São José é muito mais rica e detalhada. Se ela é verdadeira ou não, nunca saberemos. Mas vale a pena falar dela.

Apócrifos, para os não-iniciados, são livros que não foram “aprovados” para entrar na Bíblia. Há dezenas, talvez centenas deles. Só de Evangelhos há umas duas dúzias, cada apóstolo “ganhou” o seu (inclusive São Tomé). Cartas ao estilo das epístolas de São Paulo também há várias, inclusive uma atribuída a São Clemente, que teria sido o terceiro sucessor de Pedro em Roma e cujo fato de seu escrito não ter entrado na Bíblia já derruba por si só a tese de “conspiração” na elaboração da Bíblia que a gente lê muito nos círculos esotéricos por aí. A história toda da formação do cânon (lista de livros aprovados) bíblico é cheia de idas e voltas, com livros sendo retirados aos “45 do segundo tempo” como o Apocalipse de Pedro (sim, existia outro Apocalipse), mas explicar tudo isso agora fugiria do tema do tópico. Então vamos voltar à vaca fria e falar de São José.

O apócrifo que mais nos fala do lado desconhecido de São José é “A História de José conforme narrada por Jesus a seus apóstolos”. É um texto surgido no Egito (provavelmente em Alexandria) no século IV, em que Jesus em pessoa conta a história de José para seus discípulos.

No curto texto, revela-se que José era viúvo. Teve seis filhos com sua primeira esposa. Há até os nomes deles: Judas, Josetos, Tiago (que seria discípulo depois), Simão, Lísia e Lídia. Enquanto José enviuvava, Maria servia como criada no Templo, pois assim haviam prometido seus pais, estéreis, antes dela nascer. Vendo que Maria já era uma “mocinha” os chefes do Templo resolveram dá-la em casamento a alguém da mesmo tribo que ela (como era costume na época) antes que “o pior acontecesse” (em outras palavras, antes que alguém transasse com ela).

Bem, José era da mesmo tribo (de Judá, conforme as profecias do Antigo Testamento) que Maria. No sorteio, ele acabou “ganhando” Maria. Antes do casamento se consumar, porém, o anjo apareceu para ela, que ficou grávida do Espírito Santo. Foi por isso que São José pensou em repudiá-la, pois temia se acusado de ter “consumado” a união antes do casamento formal.

Dá para perceber que quem escreveu o texto estava preocupado em esclarecer alguns pontos obscuros da história “oficial”, explicando-a nos mínimos detalhes. O resto da história é bem semelhante ao que está na Bíblia, com José fugindo para o Egito para escapar da perseguição de Herodes, e tudo mais. Mas o final é bem diferente.

Pelo apócrifo, José morreu com 111 anos (!) depois da volta dele e de Maria do Egito para Nazaré. A descrição da sua morte é muito detalhada, que chega a ser difícil acreditar que quem a escreveu não estava presente, ou que tenha uma imaginação muito fértil. Há a data da sua morte (26 de Epep) e algumas passagens estranhas, como quando ele já estava doente e “estava em seu leito, foi tomado de uma grande agitação. Gemeu forte, bateu palmas três vezes e, fora de si, pôs-se a gritar..” e aí segue-se uma oração. Estranho, não ?

Outra passagem estranha: a chegada da morte, narrada em primeira pessoa por Jesus: “Pus-me a olhar para o sul e vi a morte dirigir-se a nossa casa. Vinha seguida de Amenti,que é seu satélite, e do Diabo, a quem acompanhava uma multidão de esbirros vestidos de fogo, cujas bocas vomitavam fumaça e enxofre.”

Coisas extraordinárias continuavam acontecendo. Jesus reza sobre o corpo agonizante de José e então: “Quando eu disse amém, Maria, minha mãe, respondeu na língua falada pelos habitantes do céu. No mesmo instante Micael, Gabriel e anjos, em coro, vindos do céu, voaram sobre o corpo de meu pai José.”

A coisa continua mais estranha ainda. José agonizava, mas a Morte havia reconhecido Jesus e tinha medo de entrar na casa para “fazer o serviço”. Jesus então sai para conversar com a “véia da foice”:  “Ó tu, que vens do Meio-dia, entra rapidamente e cumpre o que ordenou-te meu Pai. Porém, guarda José como a menina dos teus olhos, posto que é meu pai segundo a carne..”

Finalmente então José morre, e sua alma é levada pelos arcanjos Gabriel e Micael (o que a Morte estava fazendo lá então ?) e o apócrifo termina com uma discussão entre Jesus e os apóstolos acerca do pecado original. É uma história bem fantasiosa, principalmente no fim, já que a história de Maria servindo no Templo antes do casamento com José aparece também em outros apócrifos. Fico imaginando a dor de cabeça do teólogos para encaixar algumas coisas expostas nesse apócrifo com o resto da Bíblia, caso ele tivesse entrado no Cânon. Bem, deve ser por isso mesmo que não entrou, não é mesmo ?