Amigas

– Minha mãe está um fera comigo…

– A minha também…Elas dizem que nós temos que ser amigas…

-Sim, porque elas são amigas desde a época da escola e blablabla..

-Já ouvi aquela história da lancheira umas mil vezes. Haja saco !

-O que é uma lancheira mesmo ?

-Ah, acho que era uma coisa que elas levavam lanche de casa.

-Não tinha cantina naquela época ?

-Acho que ainda não tinham inventado. Acho que nem McDonalds existia!

-Tá, e o que a gente vai fazer ?

-Vamos fingir que somos amigas para elas não torrarem a nossa paciência. Pelo menos até a viagem para a praia, depois a gente vê o que faz.

-Aí, nós vamos para Ubatuba de novo ! Eu tinha esquecido completamente.

-Ah, eu até que gosto de lá.

-Eu sei que você gosta, eu te vi pegando um menino da última vez.

-Ah, foi só uns amassos. Ele nem beijava bem. E era de Minas. Mineiros não são confiáveis. Minha mãe quem disse.

-Tá, então a gente finge até a volta da praia, depois dizemos que brigamos e foi definitivo, tá ?

-Para mim tudo bem. A gente é muito diferente, nossas mães não entendem.

-Verdade. Eu sou são paulina. Você é corintiana.

-Eu sou católica, você é budista.

-Eu gosto de Belle and Sebastian, você de Arcade Fire.

-Totalmente diferentes !

-Mas, falando de Ubatuba, eu nunca vi você pegando ninguém lá…

-Ah, é que eu sou discreta.

-Quer fama de santinha, né ?

-Não, é que eu sou homossexual.

-Ah tá. Sua mãe sabe ?

-Não contei. Ela ia querer me levar no padre para me curar…

-Ah, que chato.

-Olha só, eu te contei um segredo. Isso é coisa de amigas.

-Ah, nada a ver, não somos amigas por causa disso.

-É, tem razão.

-Então vamos sair e dizer para nossas mães que está tudo bem e…

-Não, espera. Eu te contei um segredo. Você tem que me contar um também. Para igualar as coisas.

-Ah, eu não tenho segredos !

-Sei, e aquele papo que rola lá na escola ? Aquele que…

-Que eu não sou mais virgem ? Ah, é verdade.

-Jura ? Que bom para você ! Foi com o carinha da sua classe ?

-Não, você não conhece, foi um garoto que eu conheci lá na ioga.

-Você faz ioga ? Eu sempre quis fazer, mas minha mãe não deixa, diz que é coisa do demônio e tals.

-Olha, se você quiser eu posso te ensinar umas posições mais fáceis.

-Eu quero ! Tá vendo, aconteceu de novo…

-O que ???

-Você me ajudando. Isso é coisa de amigas.

-Para com isso ! Nós não somos amigas…

-Mas podíamos ser. Você não ficou me julgando quando eu disse que era homossexual. Foi legal da sua parte.

-É, e nem você ficou me olhando feio quando eu disse que não era mais virgem…

-Então, a gente já trocou segredos, podíamos tentar ser amigas. Topa ?

-Tá, vamos tentar. E o que a gente faz agora ?

-Huuum…que tal perguntar para sua mãe o que é uma lancheira, afinal ?

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A esotérica

– Miga, vamos sair hoje ?
– Não posso, amore ! Marte está na terceira casa de Leão, isso não é coisa boa !
– Para com isso ! Você tá arrumando desculpa de novo !
– Não é desculpa ! Lembra o que aconteceu da última vez que você me convenceu a sair quando eu não queria ?
– Huuuum…não lembro ! (risos)
– Falsa ! Lembra sim ! (mais risos)
– Não foi tão grave assim, vai.
– Claro que não ! Eu só fui parar num motel com um broxa, o carro dele quebrou na volta e nós fomos assaltados. Eu te disse, Saturno na quarta casa de Sagitário é desastre na certa !
– Então tá. Vamos sair no Carnaval então !
– Nem pensar ! Eu tenho um retiro de meditação com a Marília num sítio ali em…
– Com a Marília ? AQUELA Marília ?
– Aquela mesmo, miga, a que estudou com a gente ! Lembra dela ?
– Se eu lembro dela ? Miga, a Marília é LOUCA !
– Outras pessoas mais velhas e mais sábias do que você já confundiram sabedoria com loucura e…
– Ela jogou água benta no nosso professor de Filosofia ! Na sala de aula ! Numa noite de quarta-feira !
– Ah, ela teve os motivos dela. Eram bons motivos, inclusive.
– Quais ? Tinha uma conjunção de Marte e Vénus na décima terceira casa ? O Gasparzinho apareceu e mandou ela fazer isso ?
– Não, nem tem décima terceira casa, miga, não fala besteira ! Ela tinha feito o mapa astral dele e descoberto que…
– Não, não me conte, não quero saber. Você vai preferir passar o final de semana com a maluca da Marília do que comigo ! Magoei…
– Ah, a Marília está muito melhor agora, mais calma. Ela está praticando um zen-bahaísmo-budismo originário das montanhas do sul de Uttar Pradesh. Você tem que conhecer, miga !
– Deus me livre ! Prefiro ter todas as minhas unhas arrancadas com um alicate. Sem anestesia.
– Não fala assim !
– Tô magoada com você ! Mas me convida para comer uma pizza aí na sua casa que eu te perdoo !
– Não posso, miga ! Agora eu sou vegana grau três. Não como nada que faça sombra !
– O que ??? Desde quando ?
– Desde anteontem !
– E você está comendo o que, mulher ?
– Basicamente iogurte e bebendo minha própria urina…
– Você tá bebendo seu próprio xixi ????
– Sim, é bom para a saúde, miga !
– Qual o próximo passo ? Viver de luz ?
– Ah, eu queria muito, mas não tenho força de vontade ! Miga, eu vou desligar, tenho que fazer um ritual para a Lua agora.
– Ritual para a Lua ? São três horas da tarde !
– É complicado miga, é complicado.
– Eu sei, miga. Você é complicada.
(CONTINUA. OU NÃO)

O primeiro dia

Ele acordou e se sentiu confuso. Estranhou a textura dos lençóis, o colchão, a decoração da quarto…aí ele se lembrou. Tinha se casado. Era o primeiro dia no seu novo apartamento.

Virou-se com um sorriso no rosto esperando encontrar a sua esposa, dormindo de bruços com a cara enfiada no travesseiro, como sempre. Mas só encontrou o vazio.

“Ela deve estar fazendo o meu café para trazer na cama” pensou ele. Apurou o ouvido, esperando ouvir os sons familiares vindo da cozinha que ela tinha tido o capricho de montar. Não ouviu nada.

“Será que ela saiu para comprar pão? A essa hora ? ” ele sabia que ela era maluca por pão, mas justo no primeiro dia? Resolveu esperar um pouco. Meia hora se passou e nada. Ele resolveu se levantar.

Grudado com fita adesiva no espelho do banheiro havia um bilhete. “Me encontre no lugar do primeiro beijo”.

Ah, então ela queria fazer um joguinho. Era uma maluca mesmo, aquela sua esposa. Fazer ele atravessar a cidade e ir até a rodoviária. Tudo bem, ele se vestiu e foi.

Tinha sido ali, defronte aquele mesmo portão que ele, nervoso e vindo de longe, a tinha beijado pela primeira vez. Lembrou até da cadeira onde ele estava sentado, e do coração batendo forte como um tambor. Ela não esta ali naquele momento. Talvez estivesse escondida esperando. Resolveu se sentar e entrar no jogo, fingindo estar despreocupado.

Uma criança se aproximou dali a instantes. Trazia uma bilhete que “uma moça bonita” tinha deixado para entregar para ele. “No lugar da primeira noite” era tudo que estava escrito no pedaço de papel.

Ah, então ela tinha ido para o hotel onde tinham passado a primeira noite juntos. Muito legal, mas ela podia ter contado os planos. Foi a pé mesmo, era ali perto, caminhando por aquela cidade fria que agora também era a dele.

Chegou na recepção e perguntou se havia uma reserva em nome da sua esposa. Não tinha. Nem no seu nome. Estranho. Onde ela estaria ?

Estava saindo confuso do hotel quando um entregador venho correndo e chamando seu nome. Havia um outro bilhete na sua mão.

“Onde passeamos pela primeira vez”. No shopping, ele bem se lembrava. Era ali perto também. Tinham ido passear, ele quisera comprar uma aliança e pedi-la em namoro ali mesmo, mas resolvera esperar. E tinham comido fast-food. Passou pelos corredores agora familiares. Observou a praça de alimentação de longe, esperando vê-la. Ela não estava lá.

Desceu até lá assim mesmo, na espera de outro bilhete, outra indicação. Qualquer coisa. Não havia nada. Onde aquela maluca tinha se metido ? Onde ela estaria?

Se sentou no mesmo fast-food da primeira vez, a espera dela. Uma atendente veio até ele. E graças aos céus ela tinha outro bilhete.

“Me encontre onde estiver o seu coração”. E então ele soube onde ela estava. E dirigiu a toda até lá.

E quando ele abriu a porta do quarto ela estava lá, esperando. E eles se amaram. E foi só o primeiro dia.

E no segundo dia ele abriu os olhos, virou para o lado e…

Ela estava lá, dormindo de bruços com a cara enfiada no travesseiro. E sorrindo.

Duas histórias na rodoviária

Ele desceu do ônibus e recebeu o golpe frio do vento. Praguejou baixinho por não ter escolhido uma blusa mais quente. Entrou na fila para pegar a bagagem de mal humor e com sono.

Ainda era de madrugada mas a rodoviária estava lotada. Tenso por estar pela primeira vez em uma cidade estranha ele desabou numa cadeira desconfortável enquanto pensava nos eventos improváveis que o tinham levado até lá.

—–

Ela estava tão nervosa que nem esperou o carro parar direito no estacionamento e já estava descendo apressada. Olhou pela décima vez para o relógio do celular e saiu andando rápido.

A mãe a chamou. Parecia de mal humor, não estava acostumada a acordar tão cedo. Não precisa ter pressa, ainda faltam alguns minutos, disse a ela. Só então ela reparou na quantidade de gente ao redor. Muitas malas e vai e vem de pessoas, elas poderiam se perder. Relutante e impaciente, esperou.

—–

Enquanto os pensamentos voavam em sua cabeça ele começou a observar as pessoas ao seu redor. Apressadas em sua maior parte, cheias de malas e tensão. Então, sem mais nem menos, sua atenção foi voltada para duas pessoas a sua frente.

Eram mãe e filha, os rostos semelhantes não deixavam margem para engano. A mãe estava impecavelmente vestida, tanto que destoava da multidão ao redor. A filha estava mais despojada e mexia a toda no celular.

Estavam obviamente esperando alguém, pois olhavam toda hora para a plataforma de desembarque. A mãe parecia desconfortável, como se sentisse deslocada naquele ambiente. A filha roia as unhas de vez em quando, ansiosa.

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Demoraram a encontrar a plataforma certa e se acomodaram nas horríveis cadeiras laranjas. Ela olhou de novo no celular. Ainda faltavam dez minutos, se não houvesse atraso.

Um homem a sua frente chamou a sua atenção. Ele parecia tenso, deslocado e com frio. Olhava a todo momento para os lados, enquanto mandava mensagens no celular.

Sua mente viajou um pouco. Quem seria ele ? Pelo tamanho da mala ou estava de partida ou tinha acabado de chegar. Os braços cruzados diziam que ele estava com frio, não devia ser mesmo da cidade. Será que estava esperando alguém ? Quem seria?

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Ele ficou observando as duas, enquanto se acalmava. Quem será que elas esperavam ? Um pai, um amigo, o namorado da garota ? Mil conjecturas passaram na sua cabeça cansada.

Sua atenção se voltou para uma mensagem no celular. O motivo pelo qual a sua viagem fora feita estava a caminho, quase chegando. A tensão aumentou. Era chegada a hora tão esperada. O estomago revirou. As borboletas estavam ativas de novo, a todo vapor.

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Notou que ele a olhava. De relance, seu olhar pareceu assustado e perdido, como se estivesse divagando. De repente uma mensagem no celular o fez sorrir. A tensão pareceu se desvanecer do seu rosto como um passe de mágica.

Ela se voltou para o próprio celular. A hora tinha chegado, ele estava para desembarcar. Olhou nervosamente para a plataforma, a espera do ônibus. Que estava encostando. Ela se levantou correndo.

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Ele mal reparou quando a garota se levantou apressada e foi abraçar uma pessoa que chegava. Um senhor de meia idade, obviamente cansado. Devia ser seu pai. A felicidade no rosto da menina era evidente. A mãe reagiu mais polidamente e o cumprimentou com um beijo no rosto.

Então tudo perdeu a importância quando ela chegou, e eles se abraçaram e se beijaram, e o tempo parou, e uma nova era começou.

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Quando se soltou dos braços do pai ela ainda teve tempo de reparar que o homem estava agarrado a uma negra bonita, beijando-a com paixão. “Todos estão esperando alguém” pensou ela. “Que sejam felizes”.

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Ela não sabia que seu desejo seria transformado em realidade. Sempre e para sempre.