A Bíblia tem mesmo razão ?

Em 1955 o jornalista alemão Werner Keller lançou o livro “Und die Bibel hat doch recht”, traduzido em português como “…e a Bíblia tinha razão”. A intenção do autor era mostrar que pesquisas arqueológicas mostravam a verdade história mostrada nos livros da Bíblia e que eventos como a migração de Abraão, o êxodo, a conquista de Canaã por Josué, o reino de Davi e Salomão, o cisma que se seguiu, a destruição do reino idólatra de Israel eram verdades históricas.

O livro fez um grande sucesso, e é vendido até hoje, tendo sido atualizado, mesmo após a morte do autor, com novas descobertas arqueológicas. Até que em 2001 os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman lançaram “The Bible Unearthed”, que algum editor gênio aqui no Brasil resolveu intitular de “A Bíblia não tinha razão”. A intenção dos autores era provar justamente o oposto: que os fatos históricos contidos na Bíblia eram, na sua maior parte, lendas e ficção compiladas e amarradas como uma história coerente que mostrasse a superioridade do culto a Jeová, na época do reinado de Josias, rei de Judá (a metade sul do reino israelita depois da divisão ocorrida quando Salomão morreu, e que supostamente se manteve a maior parte do tempo leal aos desígnios de Jeová) no século VII a.C.

Depois de pelo menos 25 anos estudando história bíblica, e depois de ter lido recentemente “A Bíblia não tinha razão” – procurei esse livro por muitos anos, mas só se acha em sebos ultimamente – eu creio estar capacitado para responder à pergunta que dá titulo a este post: afinal, a Bíblia tem mesmo razão ? E a resposta é (que rufem os tambores!): depende de para quem você pergunta.

Apesar de  Finkelstein e Silberman argumentarem, não sem razão, que a maioria dos arqueólogos hoje apoiam as idéias que eles compilaram em seu livro, eles mesmo apontam que não há consenso. E é normal em ciência que não haja consenso. Até hoje há quem não acredite que o HIV não é a causa principal da AIDS (a famosa hipótese Duesberg), por exemplo.

Se você lê lado a lado os dois livros – coisa que eu fiz – você repara que muitas vezes o mesmo achado arqueológico é interpretado de formas diferentes pelos grupos “a favor” ou “contra” da historicidade bíblica. Há dezenas de exemplos. Vou citar apenas um, já que esse texto corre o grande risco de ficar grande demais.

Megido foi uma fortaleza importante antes mesmo dos israelitas aparecerem na história. Pertenceu a caananitas, egípcios, assírios, babilônios, israelitas, romanos, bizantinos, muçulmanos e cruzados em pelo menos 3000 anos de história. É tão importante que uma das interpretações do Apocalipse (há mais interpretações do Apocalipse do que posts nesse blog, e olha que são mais de 500 posts nesse blog) diz que a batalha do Armagedom, em que Jesus derrotará definitivamente o Anticristo, vai acontecer lá.

Porque Megido é importante para a história bíblica? Por causa desse texto da Bíblia:

Salomão possuía cavalariças para quatro mil cavalos de carros e doze mil cavalgaduras para cavaleiros, que ele colocou nas cidades onde estavam abrigados seus carros assim como em Jerusalém, perto de si. (2 Crônicas, 9:25)

Umas das cidades fortificadas por Salomão, sabemos por outro trecho do livro dos Reis, foi Megido. E, adivinhem o que encontraram em Megido ? Sim, estábulos. Aí estão eles:

Tell_Megiddo_Preservation_2009_037Há pelo menos três interpretações para esses estábulos: há quem, como Keller, que defenda que eles foram construídos sob o reinado de Salomão, como está na Bíblia. Isso provaria que houve um reino unificado, que começou com Saul, passou para Davi e depois para Salomão, antes de ser dividido em dois no reinado do filho dele.

Para Finkelstein e Silberman, os estábulos são mais recentes. Ou são de Omri, no começo do reino do Sul, ou de Menaém, quando este reino era uma potência militar que tentou fazer frente à Assíria.  Para eles essa evidência, junto com outros sítios arqueológicos, provam que não existiu um reino unificado sob Davi e Salomão, e que o reino do Sul (Israel) foi muito mais poderoso e desenvolvido que o reino do Norte (Judá) até pelo menos o século VII a.C.

Há ainda, e esses são a minoria da minoria, quem ache que esses estábulos não são estábulos, são depósitos de grãos, e os chochos que foram encontrados eram para os jumentos que carregavam as cargas até os armazéns.

Agora pegue o exemplo de Megido e transporte para dezenas, quiçá centenas de sítios arqueológicos. Simplesmente não há consenso. Amanhã ou depois uma nova descoberta pode “virar o jogo” para qualquer um dos lados. Poderia até dizer que a resposta para a pergunta que dá título a este post poderia ser também: nós não sabemos.

Uma pergunta que sempre me fizeram quando sabiam que eu estudava esse assunto era: é importante que a Bíblia tenha razão ?

Para quem tem fé, não. Fé não se baseia em fatos. Mas há algo chamado geopolítica, e nesse ponto interessa muito que a Bíblia tenha razão.

Desde que o nacionalismo judaico, ou sionismo, se você preferir, se iniciou, em fins do século XIX, o objetivo sempre foi a volta dos judeus à terra de Israel. É a terra que foi dada a eles pelo próprio Jeová, na promessa à Abraão. E que até hoje ainda impulsiona alguns judeus no sentido de não aceitar a presença palestina na “terra santa”, afinal a terra é deles, não só por direito histórico, mas por direito divino.

Um dia saberemos se a Bíblia tem razão ? Provavelmente, a menos que inventem uma máquina do tempo, o que parecer ser impossível, não. Mas podemos procurar pela resposta, o que já é bem esclarecedor. Afinal, o que importa é a jornada, e não o destino, correto, pequenos gafanhotos ?

Lido: Zelota

Jesus foi um galileu nascido e criado em Nazaré. Trabalhador braçal, ajudou a construir a nova capital da Galiléia, Sefora, onde teve contato com toda a injustiça social do seu tempo.

Tornou-se discípulo de João Batista, mais um dos muitos messias daquela época. Quando ele foi executado, assumiu seu ministério e o levou além. Pregou por toda a Galiléia, sem nunca se aproximar de uma cidade que não fosse judia. Fazia curas gratuitamente, em oposição aos curandeiros pagos que havia aos montes. Fez discípulos, e escolheu doze entre eles. Sua mensagem era clara: a restauração das doze tribos e a volta do reino de Israel à sua glória, derrotando os romanos.

Foi para Jerusalém, onde foi recebido com festa. Atacou os vendedores do templo, que eram controlados pela casta corrupta dos sacerdotes. Foi perseguido. Se refugiou nas cavernas do monte das Oliveiras. Traído, foi preso, julgado e executado por blasfêmia e sedição, mas não – detalhe importante – por curandeirismo. Ninguém duvidava que ele fazia curas.

Morto, seus discípulos espalharam a crença, inédita entre os judeus, que havia ressuscitado. Seus discípulos se tornaram então mais um seita entre as muitas que os judeus tinham à época. Até que surgiu Paulo, que tornou a mensagem de Jesus mais “mística” e universal, ao interpretar que a pregação de Cristo seria de um reino espiritual e não físico e levando a mensagem dele aos não judeus. Houve divergências entre ele e Tiago, irmão de Jesus, que era líder em Jerusalém. Mas Paulo jamais rompeu com a igreja de Jerusalém, apesar dos atritos. E Lucas, amigo dele, escondeu as divergências quando escreveu o Ato dos Apóstolos (mas ela fica clara nas cartas de Paulo).

Até que em 69 esse mesmo Tiago, que tinha por apelido O Justo, e figura muito querida em Jerusalém, foi morto pelo sumo sacerdote do templo judeu. Foi a gota d´água para estourar a revolução. Diferentes grupos de revolucionários judeus se uniram. O sumo sacerdote foi morto no próprio templo. Os soldados romanos também. A Judéia declarou guerra à Roma. Perderam. Jerusalém foi destruída, os judeus espalhados pelo império. Junto com eles, o “cristianismo judeu” de Tiago foi erradicado também. A partir daí o “cristianismo paulino” ganhou força. Quando finalmente ele virou a religião oficial do império, a pregação revolucionária de Jesus foi esquecida para sempre.

Se você é cristão não deve concordar com nada disso. Mas não fique bravo comigo. Esse é um resumo, o mais conciso que consegui fazer, de Zelota, de Reza Aslan.

O próprio autor deixa bem claro que para cada livro ou tese que ele cita para apoiar as suas teorias, há pelo menos outro que prova exatamente o contrário. Ele escolhe as interpretações que favorecem a sua teoria. É um livro honesto, escrito em linguagem simples e que trás conceitos interessantes sobre a figura de Jesus para aqueles que não “são do ramo”.

O autor não é um ateu querendo provar que o cristianismo está errado, ele simplesmente quer resgatar o “Jesus histórico” – sim, há pelo menos uma prova, de fonte não cristã, que atesta a existência de uma pessoa chamada Jesus que foi um líder religioso na Judéia no século I – e nisso ele vai bem. Apresenta explicações simples para assuntos complexos, como por exemplo a teoria das duas fontes ou a multiplicidade de “messias” no século I naquela parte do mundo.

Para quem é “do ramo” como eu – estudo história do cristianismo a pelo menos vinte anos – o livro não trouxe nada de novo, mas seu mérito, como eu disse, é ser simples e trazer esse assunto para o grande público. É honesto, bem documentado – há uma imensa lista de fontes ao final – e bem escrito. Nota 7,5 para ele. Recomendo a leitura, sendo você cristão ou não.

Top 5: os melhores livros lidos em 2013

Pelo sexto ano seguido, a única tradição que sobrou neste blog está de volta: o tradicional post no primeiro dia do ano com o “top five” dos melhores livros lidos no ano anterior.

Algo me diz que este será o último ano que faço isso. Não vejo muito futuro para blogs genérico-pessoais em geral e nem neste em particular. A audiência caiu para níveis de 2007, quando o blog estreou, e ano passado foi o que menos postei.

Bem, que seja, tradição é tradição, então vamos à lista, sem nenhuma ordem específica, dos melhores livros lidos em 2013.

Feche Bem Os Olhos, de John Verdon

A – por enquanto, é bom frisar – trilogia do detetive David Gurney foi uma das surpresas do ano. Fazia tempo que não lia nada do gênero e me surpreendi positivamente.

Dos três, escolhi o segundo para integrar minha lista. O primeiro é bom, mas o assassino era óbvio. No terceiro o autor deixou o protagonista frágil demais e explorou em demasia o lado psicológico da trama, o que não é forte dele. O segundo me prendeu bem mais do que os outros, pois até quase o fim eu não fazia ideia de quem era o assassino. Para quem gosta de histórias de detetive, é um prato cheio.

De ruim, só a revisão da Editora Arqueiro. Encontrei pelo menos uma meia dúzia de “de mais” onde deveria haver “demais”. Nada que comprometa a história, a menos que você dê muita importância a isso. E que venham mais histórias de David Gurney, mas sem exagerar demais nos tiros que o pobre leva, né John Verdon ?

1889, de Laurentino Gomes

A trilogia sobre o século XIX de Laurentino Gomes foi fechada com chave de ouro. 1889 é um livro muito bom, e muito esclarecedor.

O sentimento que fica depois de ler o livro é que o Brasil é um país que foi feito na base do improviso, “nas coxas”. Afinal, Deodoro era monarquista até a véspera da proclamação da República, que aliás não foi proclamada por ele (você vai ter que ler o livro para saber). Assim como a independência, que Laurentino conta magistralmente em 1822, foi tudo feito às pressas, sem planejamento, por personagens improváveis e sem medir as consequências.

Destaque também para os capítulos sobre o injustiçado Benjamin Constant e o enigmático vira-casaca Floriano Peixoto, dois personagens importantíssimos da história, principalmente o primeiro, um professor de matemática revolucionário não é exatamente o que a gente vê todo dia por aí.

Se você gosta de saber mais sobre a história do Brasil, esse livro é imprescindível na sua prateleira ou no seu e-book reader favorito. Você vai entender muita coisa que acontece hoje em dia na política do nosso pobre país.

A prisão da fé, de Lawrence Wright

Cientologia, a religião da estrelas. Você já deve ter ouvido falar dela, já que grandes astros de Hollywood como John Travolta, Kirstie Alley, Lisa Marie Presley e Tom Cruise fazem parte da religião fundada por um escritor de ficção científica que dizia ter visitado o cinturão de Van Allen.

O livro reportagem de Lawrence Wright é o mais completo sobre essa estranha fé. Mostra em detalhes a controversa biografia do fundador da Cientologia, J. P. Hubbard, as suas principais crenças – pelo menos a parte que se tornou pública – as controversas ações da Cientologia, que chegou a espionar e sabotar o próprio governo americano (chupa essa manga, NSA!), até o envolvimento de grandes estrelas do cinema com ela e a influência que Tom Cruise tem hoje sobre o novo líder da religião.

O autor tenta ser o mais imparcial possível, e enche seu livro de notas de rodapé com desmentidos oficiais da Cientologia sobre pontos controversos da história. No fim, o leitor que tire suas próprias conclusões, o que é ótimo. É um catatau de quase 600 páginas, mas vale o tempo que você vai gastar lendo, vai por mim.

Ah, e um abraço para o agente da NSA que vai ler esse texto. Happy new year, my friend.

Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

Revolta. Esse foi o sentimento depois que acabei de ler o excelente livro reportagem de Daniela Arbex. Como pode, em pleno século XX, um lugar como o manicômio de Barbacena ter existido ?

A revolta aumenta quando você sabe que desde de 1960, numa reportagem da revista Cruzeiro, a situação já havia sido denunciada, mas que a situação só foi começar a ser resolvida mais de 20 anos depois. O livro é recheado com fotos dessa reportagem, cedidas pelo próprio fotógrafo da revista na época. O pior é pensar que essa é só a história mais conhecida, e que algo semelhante pode – e deve – ter acontecido em outros lugares, e talvez até aconteça hoje ainda.

Apesar do conteúdo pesado, Daniela tenta não chocar muito o seu leitor, e o enfoque da parte final do livro são os poucos pacientes sobreviventes, que hoje vivem em casas de apoio, o que dá esperança que a humanidade ainda tenha jeito. De ruim, só a estrutura não linear e as vezes confusa do livro, que fica indo e voltando aos mesmos personagens, o que às vezes confunde. Mas isso não tira o brilho do livro. Imprescindível, na minha opinião.

Mentiras, de Michael Grant

Quando eu comecei a ler, por indicação do amigo Frank, a (por enquanto, por enquanto) quadrilogia (essa palavra existe?) Gone, eu não esperava grandes coisas, afinal a história parecia batida e o público alvo é o que se chama hoje de “teen” (eu preferia juvenil, mas vou parar com esses parênteses para não irritar mais ninguém).

O primeiro livro da série parecia confirmar o meu pessimismo (ou seria realismo ? Ok, vou parar com os parênteses), mas no segundo o autor deu uma boa melhorada na trama, que ficou mais complexa, até desaguar em Mentiras, o terceiro da série.

E Mentiras se tornou a surpresa literária do ano para mim. A história ficou bem mais complexa, novas questões foram levantadas, a vida dos jovens presos na redoma psíquica apelidada de LGAR vira um inferno, novos personagens aparecem. Todos os elementos para uma boa trama estão presentes, e o autor faz um arroz com feijão básico, mas bem temperado, que agrada.

Resta saber se ele não vai esticar demais a trama e estragar tudo, e que ele não seja tão lerdo quanto o George R. R. Martin para escrever. Sei que o quarto livro, que não encerra a série, já está publicado, vamos ver como ele se saiu.

Não espere grandes coisas dessa série, mas ela diverte, é isso que importa, não é mesmo?

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Então é isso. Feliz 2014 à meia dúzia de leitores que me sobrou. Vou tentar manter isso aqui atualizado, eu juro, mas não aguardem grandes coisas. Um abraço a todos.

Top 5: os melhores livros lidos em 2012

Como já é tradição desde 2008, o primeiro post no primeiro dia do ano no Depokafé é o “Top Five” dos melhores livros lidos no ano anterior. Acho que essa foi a única tradição que sobrou nesse blog, já que ano passado não teve as previsões para esse ano. E nem vai haver mais.

Bem, chega de enrolação, vamos direto à lista. Espero que gostem e sirva de incentivo a quem quiser ler os livros. Não esperem resenhas profundas, é só uma lista mesmo. Vamos a ela.

Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta

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Para começar, uma biografia. Tim Maia, o gênio torturado da música brasileira. Uma pessoa que poderia ainda estar entre nós, se tivesse se cuidado mais um pouquinho, se tivesse um pouco mais de juízo e não abusasse  tanto.

Mas um Tim Maia certinho não seria Tim Maia. Isso fica claro na excelente biografia de Nelson Motta. Ele viveu intensamente. Abusou das drogas sim, entrou para uma seita maluca e depois saiu, teve problemas com promotores de shows e gravadoras. Mas foi ele mesmo, até o amargo fim.

O livro não tenta endeusar Tim Maia, e isso é um mérito que poucas biografias conseguem. A amizade pessoal do autor com o biografado com certeza ajudou. Rico em detalhes, irreverente como Tim foi, é um livro que merece um lugar na sua lista de leituras, com certeza.

Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, de Mario Magalhães

MARIGHELLA

Outra biografia. Sim, é um dos meus gêneros favoritos. A recém-lançada obra de Mário Magalhães veio dar luz a um personagem que poucos conheciam. Mesmo eu, que gosto muito de História, pouco sabia sobre o baiano que incendiou o Brasil.

Pode-se discordar das idéias de Marighella, ou de  suas ações, como partir para a luta armada ostensiva contra a ditadura militar. Mas não se pode negar que ele teve uma vida e tanto. Vida muito bem contada nesse livro, que não esconde os erros que ele cometeu e ainda mostra um panorama completo da história política no Brasil desde o tempo de Getúlio Vargas até a ditadura militar.

A pesquisa histórica foi muito bem feita, os fatos foram verificados e a obra passa um ar de credibilidade e muito estudo em cada parágrafo. É um catatau de centenas de páginas, mas vale a pena, eu garanto.

A Guerra dos Tronos, por George R. R. Martin

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Como eu disse no Meme Literário desse ano, o autor quer a todo custo entrar no panteão dos grandes autores de fantasia. A receita ele está seguindo direitinho: livros enormes, centenas de personagens, descrições detalhadas e tramas intricadas.

Como livro que começa a série gigantesca, esse é muito bom. Apresenta o cenário e os personagens sem ser chato e arrastado. Você logo se acostuma com o estilo que o autor escolheu. E aí, lá pelo meio do livro, um personagem importante perde a cabeça (literalmente) e começam as reviravoltas, que vão perdurar pela série toda. Espero que o George tenha uma boa ideia de como desatar os novelos que ele criou, porque senão a coisa vai ficar feia para ele…

Você está disposto a ler uma série que tem, por baixo, até agora, umas 2500 páginas? Não? Então nem comece a ler esse livro. Você vai querer ler os outros, com certeza, e aí não haverá mais jeito. Você foi avisado, pequeno gafanhoto.

Em nome de Deus, de David Yallop

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O Papa João Paulo I foi assassinado. Ponto. Esse é o resumo desse inquietante livro. O difícil é saber quem foi, pois os candidatos eram muitos.

Quando foi escolhido papa, o cardeal Albino Luciani tentou mexer nas estruturas do Vaticano e desagradou muita gente, de mafiosos a banqueiros, passando por bispos poderosos dos dois lados do Atlântico. Não há como saber quem o matou, mas não restará nenhuma dúvida a quem ler que foi assassinato.

A se destacar no livro, os bastidores da eleição de Luciani, registros preciosos que te levam a pensar que você estava na Capela Sistina naquele dia. E as críticas pesadas ao seu sucessor, João Paulo II. Como o livro foi escrito muito próximo dos acontecimentos, o papa polonês ainda não tinha se transformado no pontífice mais conhecido da história da Igreja Católica, e essas críticas podem desagradar os seus fãs mais ardorosos. A ser lido de mente aberta.

1813-1829: A marquesa de Santos

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Não é fácil definir esse livro, assim como não é fácil definir a vida de Domitila de Castro Canto e Melo, a poderosa e caprichosa Marquesa de Santos.

O livro não é propriamente uma biografia no sentido clássico do termo, mas apresenta bem sua personagem, desde antes dela ser poderosa nos salões do primeiro reinado. Mostra também o quanto sofreu a esposa “oficial” de Dom Pedro I, dona Leopoldina, e o quanto nosso primeiro imperador era um “garanhão”.

Mais uma vez esse é um livro bem escrito. Mostra direitinho a rede de intrigas por trás do imperador, o jogo do poder, a sedução que levava Dom Pedro I a “comer na mão” de sua amante. Uma viagem de 200 anos na história do Brasil, muito bem feita. Você não se arrependerá de ler.

Então é isso, começamos 2013 da mesma forma que começamos 2008. Se esse ano for tão bom na minha vida pessoal quanto foi ano passado, será um ano fantástico. Não prometo atualizações frequentes por aqui, mas o Depokafé não morreu, eu garanto. Alae jacta est!

1978, o ano com três Papas

Capela Sistina, Vaticano, 26 de agosto de 1978. Cento e onze cardeais estavam reunidos para a quarta votação do conclave que elegeria o sucessor do Papa Paulo VI. Na terceira votação, realizada pouco depois das quatro da tarde, Albino Luciani, patriarca de Veneza, estava na frente, para a surpresa de muitos, inclusive dele mesmo.

Luciani foi a para a quarta votação do dia sabendo que provavelmente seria Papa. Votou mais uma vez no mesmo candidato: Aloiso Lorscheider, o cardeal brasileiro. Quando o resultado foi anunciado, pouco depois das seis da tarde, Luciani estava eleito. Ele pensou em recusar o cargo. O relato que David Yalop fez do momento em seu livro “Em nome de Deus” é preciso:

Quando o resultado final foi anunciado, houve uma explosão de aplausos entre os presentes. Eram 6:05 da tarde. (…) As portas da Capela Sistina se abriram e diversos Mestres de Cerimônia entraram, acompanhando o Camerlengo Villot. Encaminharam-se para o lugar em que Albino Luciani sentava. Villot disse:

– Aceita a sua eleição canônica para Supremo Pontífice?

Todos os olhos estavam fixados em Luciani. O Cardeal Giappi descreveu para mim aquele momento.

– Ele sentava três filas atrás de mim. Mesmo depois de sua eleição, ainda hesitava. O Cardeal Villot formulou a indagação e ele continuou a hesitar. Os Cardeais Willebrands e Riberio estavam visivelmente encorajando-o.

Luciani finalmente respondeu:

– Que Deus os perdoe pelo que fizeram comigo. – Após uma pausa, acrescentou: – Aceito.

– Por que nome deseja ser chamado? – perguntou Villot.

Luciani tomou a hesitar. Depois, sorriu pela primeira vez e disse:

– João Paulo I.

Em 16 de outubro do mesmo ano, os cardeais estavam novamente reunidos. João Paulo I, o “Papa Sorriso” tinha ficado somente um mês no Trono de Pedro. Morreu provavelmente assassinado, a mando de alguém com interesses que ele ia atrapalhar: ou alguém da Loja Maçonica italiana ilegal chamada P2, ou por setores ligados ao Banco Ambrosiano, que estava sob investigação da justiça italiana por desvio de dinheiro – o caso estouraria em 1982 – ou o polêmico cardeal estadunidense John Cody, que seria removido por ele. A verdade nunca saberemos, pois quase todos os envolvidos estão mortos. O único ainda vivo é o ex-banqueiro Licio Gelli, que tem mais de 90 anos e está em prisão domiciliar.

Foi dessa forma indigna que 1978 se tornou “o ano com três papas”. Aloisio Lorscheider, o cardeal brasileiro, nunca foi eleito Papa, mas teve a honra de ser escolhido por dois deles: assim como Luciani, Karol Wojtyła também votou nele no conclave em que foi eleito.

A eleição de João Paulo II foi ainda mais surpreendente do que a do seu antecessor. Mas o papa polonês tem uma mancha no seu belo currículo: não colocou em prática os planos de Luciani de promover uma devassa no Banco Ambrosiano, afastar o seu diretor, o bispo Paul Marcinkus, remover o cardeal Cody, que estava notoriamente desviando dinheiro da igreja para uma “sobrinha” com quem teria um relacionamento amoroso e nem afastou da igreja os membros envolvidos com a loja maçônica P2. David Yalop vai ainda mais longe e diz que João Paulo II usou esquemas ilegais arquitetados por Marcinkus para enviar dinheiro para o sindicato Solidariedade na Polônia. Apesar de nunca provada, a informação faz sentido, pois o Papa defendeu Markinus quando o Banco Ambrosiano finalmente quebrou, em 1982, se recusando a entrega-lo para a justiça italiana.

A expectativa dos cardeais que elegeram Luciani era que seu papado fosse longo, pois ele era jovem. O desejo deles se realizou com Wojtyła, que teve um dos papados mais longos e agitados da história. Apesar de ser um papa que marcou o seu tempo, muita gente acha que se João Paulo I tivesse vivido mais, hoje as coisas seriam muito diferentes na Igreja Católica. Infelizmente, nunca saberemos.

Cidades do mundo: Nombre de Dios

Pela primeira vez a nossa série “Cidades do Mundo” aporta no continente americano. Hoje iremos até Nombre de Dios, no Panamá.

Fundada em 1510, Nombre de Dios foi um dos primeiros portos espanhóis no continente americano. Hoje é considerada a mais antiga cidade das Américas a ser continuamente habitada.

Monumento marca o local de fundação da cidade

Logo após a fundação a cidade foi um dos portos mais importantes das colônias espanholas. Uma estrada de oitenta quilômetros ligava Nombre de Dios à Cidade do Panamá, fazendo assim a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

Em 1572 a cidade foi saqueada pelo pirata Francis Drake e ficou claro que Nombre de Dios era difícil de ser defendida por causa de sua geografia. Foi aos poucos perdendo importância para a vizinha Portobelo, que era mais fácil de defender. Em cerca de 1600 a cidade já tinha perdido boa parte da população e ficou quase abandonada.

Placa na entrada da cidade

Hoje em dia Nombre de Dios é uma pequena vila de pouco mais de mil habitantes. A maior parte trabalha nas cidades vizinhas. A cidade tem pobre infraestrutura para receber turistas, apesar da beleza das suas praias e da sua importância histórica. Uma pena que uma cidade tão importante para a história do continente esteja assim tão maltratada.

O centro da cidade

O que são igrejas não calcedonianas ?

No meu post dessa semana na série “Cidades do Mundo” eu falei brevemente sobre a Igreja Ortodoxa Etíope e igrejas não calcedonianas. Esse é um assunto meio complexo, então vou tentar explicar nesse post o que afinal são igrejas não calcedonianas. Tentarei ser o mais simples possível. Me desejem sorte.

Os primeiros tempos do cristianismo foram bem mais agitados do que se supõe. Com o cristianismo crescendo e se tornando a religião oficial de Roma, as divergências de opinião entre os mais diversos grupos foram se sucedendo. Foi uma época importante, em que a base das crenças dos bilhões de cristãos de hoje foram lançadas.

Para tentar resolver essas divergências, foram convocados vários concílios, reuniões de bispos de todo o mundo para discutir e determinar o que, exatamente, os cristãos deviam acreditar ou não. Mas nem sempre o resultado do concílio agradava todo mundo. Por exemplo: depois do Concílio de Éfeso, em 431, Maria foi considerada “Mãe de Deus” e não somente “Mãe de Cristo”. Alguns cristãos de Antioquia, um centro religioso importante na época, não aceitaram essa decisão, foram perseguidos e tiveram que se mudar para a Assíria, hoje parte do Irã e Iraque. Eles formaram o que hoje é a Igreja Assíria do Oriente, uma igreja separada de todas as outras denominações cristãs e que tem cerca de 1 milhão de fiéis.

Logo após o Concílio de Éfeso, a próxima grande divergência a ser resolvida era sobre a natureza de Cristo. Havia os que defendiam que Jesus somente “parecia ser humano”. Outros ainda diziam que Jesus era só um homem que havia sido possuído pelo “Espírito de Deus”. Outros mais defendiam que Jesus era humano e divino ao mesmo tempo, e houve até quem defendesse que Jesus tinha um corpo humano e uma mente divina.

Essa controvérsia estava pondo em risco a unidade dos cristãos. Muito papiro e tinta foi gasto com cada lado defendendo a sua posição, até que a situação ficou tensa demais. Em 449 um segundo concílio em Éfeso tentou resolver a questão, mas a reunião não acabou bem. Os enviados do Papa Leão I não foram ouvidos e o bispo de Constantinopla, Flaviano, foi morto por seus adversários após a reunião. O impasse ficou pior quando o Papa Leão I não reconheceu as decisões do concílio, chamando-o de “Sínodo dos Ladrões”. Para resolver de vez essa querela, o imperador bizantino Marciano convocou um novo concílio em Calcedônia, uma cidade da Ásia Menor.

Realizado em pouco menos de um mês – de oito de outubro a primeiro de novembro – de 451, o concílio contou com 350 bispos. Dessa vez os enviados papais puderam ser ouvidos e a reunião transcorreu normalmente. No final, ficou decidido que “em Cristo há duas naturezas, cada uma mantendo as suas próprias propriedades, e unidas numa substância e, em uma única pessoa“.

Essa decisão não agradou muita gente. Eles defendiam que na “pessoa una de Jesus Cristo, Divindade e Humanidade estão unidas em uma única ou singular natureza, as duas estão unidas sem separação, sem confusão e sem alteração”.

Pode parecer uma divergência sem importância, mas não foi. As tentativas de reconciliar os dois lados não deram em nada. Assim, se separaram do resto do cristianismo a Igreja Ortodoxa Copta do Egito, que também era responsável por Eritréia e Etiópia, que se separaram dela recentemente, além da Igreja Apostólica Armênia (a mais antiga igreja cristã nacional do mundo, fundada em 301), a Igreja Ortodoxa Síria e a Igreja Ortodoxa Indiana. Essas Igrejas são autocéfalas, ou seja, cada uma tem seu próprio líder, mas mantém relações de amizade entre si.

Atualmente há 79 milhões de fiéis não calcedonianos no mundo. O relacionamento com outras igrejas cristãs tem melhorado muito. Os dois últimos patriarcas coptas – que também usam o título de Papa, mais especificamente Papa de Alexandria e Patriarca da Predicação de São Marcos e de toda a África – visitaram os Papas em Roma. O patriarca da Igreja Ortodoxa Etíope fez o mesmo e até convidou Bento XVI para conhecer a  Arca da Aliança. Como eu disse na quarta, bem que ele podia aceitar. Seria histórico.