A Bíblia tem mesmo razão ?

Em 1955 o jornalista alemão Werner Keller lançou o livro “Und die Bibel hat doch recht”, traduzido em português como “…e a Bíblia tinha razão”. A intenção do autor era mostrar que pesquisas arqueológicas mostravam a verdade história mostrada nos livros da Bíblia e que eventos como a migração de Abraão, o êxodo, a conquista de Canaã por Josué, o reino de Davi e Salomão, o cisma que se seguiu, a destruição do reino idólatra de Israel eram verdades históricas.

O livro fez um grande sucesso, e é vendido até hoje, tendo sido atualizado, mesmo após a morte do autor, com novas descobertas arqueológicas. Até que em 2001 os arqueólogos Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman lançaram “The Bible Unearthed”, que algum editor gênio aqui no Brasil resolveu intitular de “A Bíblia não tinha razão”. A intenção dos autores era provar justamente o oposto: que os fatos históricos contidos na Bíblia eram, na sua maior parte, lendas e ficção compiladas e amarradas como uma história coerente que mostrasse a superioridade do culto a Jeová, na época do reinado de Josias, rei de Judá (a metade sul do reino israelita depois da divisão ocorrida quando Salomão morreu, e que supostamente se manteve a maior parte do tempo leal aos desígnios de Jeová) no século VII a.C.

Depois de pelo menos 25 anos estudando história bíblica, e depois de ter lido recentemente “A Bíblia não tinha razão” – procurei esse livro por muitos anos, mas só se acha em sebos ultimamente – eu creio estar capacitado para responder à pergunta que dá titulo a este post: afinal, a Bíblia tem mesmo razão ? E a resposta é (que rufem os tambores!): depende de para quem você pergunta.

Apesar de  Finkelstein e Silberman argumentarem, não sem razão, que a maioria dos arqueólogos hoje apoiam as idéias que eles compilaram em seu livro, eles mesmo apontam que não há consenso. E é normal em ciência que não haja consenso. Até hoje há quem não acredite que o HIV não é a causa principal da AIDS (a famosa hipótese Duesberg), por exemplo.

Se você lê lado a lado os dois livros – coisa que eu fiz – você repara que muitas vezes o mesmo achado arqueológico é interpretado de formas diferentes pelos grupos “a favor” ou “contra” da historicidade bíblica. Há dezenas de exemplos. Vou citar apenas um, já que esse texto corre o grande risco de ficar grande demais.

Megido foi uma fortaleza importante antes mesmo dos israelitas aparecerem na história. Pertenceu a caananitas, egípcios, assírios, babilônios, israelitas, romanos, bizantinos, muçulmanos e cruzados em pelo menos 3000 anos de história. É tão importante que uma das interpretações do Apocalipse (há mais interpretações do Apocalipse do que posts nesse blog, e olha que são mais de 500 posts nesse blog) diz que a batalha do Armagedom, em que Jesus derrotará definitivamente o Anticristo, vai acontecer lá.

Porque Megido é importante para a história bíblica? Por causa desse texto da Bíblia:

Salomão possuía cavalariças para quatro mil cavalos de carros e doze mil cavalgaduras para cavaleiros, que ele colocou nas cidades onde estavam abrigados seus carros assim como em Jerusalém, perto de si. (2 Crônicas, 9:25)

Umas das cidades fortificadas por Salomão, sabemos por outro trecho do livro dos Reis, foi Megido. E, adivinhem o que encontraram em Megido ? Sim, estábulos. Aí estão eles:

Tell_Megiddo_Preservation_2009_037Há pelo menos três interpretações para esses estábulos: há quem, como Keller, que defenda que eles foram construídos sob o reinado de Salomão, como está na Bíblia. Isso provaria que houve um reino unificado, que começou com Saul, passou para Davi e depois para Salomão, antes de ser dividido em dois no reinado do filho dele.

Para Finkelstein e Silberman, os estábulos são mais recentes. Ou são de Omri, no começo do reino do Sul, ou de Menaém, quando este reino era uma potência militar que tentou fazer frente à Assíria.  Para eles essa evidência, junto com outros sítios arqueológicos, provam que não existiu um reino unificado sob Davi e Salomão, e que o reino do Sul (Israel) foi muito mais poderoso e desenvolvido que o reino do Norte (Judá) até pelo menos o século VII a.C.

Há ainda, e esses são a minoria da minoria, quem ache que esses estábulos não são estábulos, são depósitos de grãos, e os chochos que foram encontrados eram para os jumentos que carregavam as cargas até os armazéns.

Agora pegue o exemplo de Megido e transporte para dezenas, quiçá centenas de sítios arqueológicos. Simplesmente não há consenso. Amanhã ou depois uma nova descoberta pode “virar o jogo” para qualquer um dos lados. Poderia até dizer que a resposta para a pergunta que dá título a este post poderia ser também: nós não sabemos.

Uma pergunta que sempre me fizeram quando sabiam que eu estudava esse assunto era: é importante que a Bíblia tenha razão ?

Para quem tem fé, não. Fé não se baseia em fatos. Mas há algo chamado geopolítica, e nesse ponto interessa muito que a Bíblia tenha razão.

Desde que o nacionalismo judaico, ou sionismo, se você preferir, se iniciou, em fins do século XIX, o objetivo sempre foi a volta dos judeus à terra de Israel. É a terra que foi dada a eles pelo próprio Jeová, na promessa à Abraão. E que até hoje ainda impulsiona alguns judeus no sentido de não aceitar a presença palestina na “terra santa”, afinal a terra é deles, não só por direito histórico, mas por direito divino.

Um dia saberemos se a Bíblia tem razão ? Provavelmente, a menos que inventem uma máquina do tempo, o que parecer ser impossível, não. Mas podemos procurar pela resposta, o que já é bem esclarecedor. Afinal, o que importa é a jornada, e não o destino, correto, pequenos gafanhotos ?

O que são igrejas não calcedonianas ?

No meu post dessa semana na série “Cidades do Mundo” eu falei brevemente sobre a Igreja Ortodoxa Etíope e igrejas não calcedonianas. Esse é um assunto meio complexo, então vou tentar explicar nesse post o que afinal são igrejas não calcedonianas. Tentarei ser o mais simples possível. Me desejem sorte.

Os primeiros tempos do cristianismo foram bem mais agitados do que se supõe. Com o cristianismo crescendo e se tornando a religião oficial de Roma, as divergências de opinião entre os mais diversos grupos foram se sucedendo. Foi uma época importante, em que a base das crenças dos bilhões de cristãos de hoje foram lançadas.

Para tentar resolver essas divergências, foram convocados vários concílios, reuniões de bispos de todo o mundo para discutir e determinar o que, exatamente, os cristãos deviam acreditar ou não. Mas nem sempre o resultado do concílio agradava todo mundo. Por exemplo: depois do Concílio de Éfeso, em 431, Maria foi considerada “Mãe de Deus” e não somente “Mãe de Cristo”. Alguns cristãos de Antioquia, um centro religioso importante na época, não aceitaram essa decisão, foram perseguidos e tiveram que se mudar para a Assíria, hoje parte do Irã e Iraque. Eles formaram o que hoje é a Igreja Assíria do Oriente, uma igreja separada de todas as outras denominações cristãs e que tem cerca de 1 milhão de fiéis.

Logo após o Concílio de Éfeso, a próxima grande divergência a ser resolvida era sobre a natureza de Cristo. Havia os que defendiam que Jesus somente “parecia ser humano”. Outros ainda diziam que Jesus era só um homem que havia sido possuído pelo “Espírito de Deus”. Outros mais defendiam que Jesus era humano e divino ao mesmo tempo, e houve até quem defendesse que Jesus tinha um corpo humano e uma mente divina.

Essa controvérsia estava pondo em risco a unidade dos cristãos. Muito papiro e tinta foi gasto com cada lado defendendo a sua posição, até que a situação ficou tensa demais. Em 449 um segundo concílio em Éfeso tentou resolver a questão, mas a reunião não acabou bem. Os enviados do Papa Leão I não foram ouvidos e o bispo de Constantinopla, Flaviano, foi morto por seus adversários após a reunião. O impasse ficou pior quando o Papa Leão I não reconheceu as decisões do concílio, chamando-o de “Sínodo dos Ladrões”. Para resolver de vez essa querela, o imperador bizantino Marciano convocou um novo concílio em Calcedônia, uma cidade da Ásia Menor.

Realizado em pouco menos de um mês – de oito de outubro a primeiro de novembro – de 451, o concílio contou com 350 bispos. Dessa vez os enviados papais puderam ser ouvidos e a reunião transcorreu normalmente. No final, ficou decidido que “em Cristo há duas naturezas, cada uma mantendo as suas próprias propriedades, e unidas numa substância e, em uma única pessoa“.

Essa decisão não agradou muita gente. Eles defendiam que na “pessoa una de Jesus Cristo, Divindade e Humanidade estão unidas em uma única ou singular natureza, as duas estão unidas sem separação, sem confusão e sem alteração”.

Pode parecer uma divergência sem importância, mas não foi. As tentativas de reconciliar os dois lados não deram em nada. Assim, se separaram do resto do cristianismo a Igreja Ortodoxa Copta do Egito, que também era responsável por Eritréia e Etiópia, que se separaram dela recentemente, além da Igreja Apostólica Armênia (a mais antiga igreja cristã nacional do mundo, fundada em 301), a Igreja Ortodoxa Síria e a Igreja Ortodoxa Indiana. Essas Igrejas são autocéfalas, ou seja, cada uma tem seu próprio líder, mas mantém relações de amizade entre si.

Atualmente há 79 milhões de fiéis não calcedonianos no mundo. O relacionamento com outras igrejas cristãs tem melhorado muito. Os dois últimos patriarcas coptas – que também usam o título de Papa, mais especificamente Papa de Alexandria e Patriarca da Predicação de São Marcos e de toda a África – visitaram os Papas em Roma. O patriarca da Igreja Ortodoxa Etíope fez o mesmo e até convidou Bento XVI para conhecer a  Arca da Aliança. Como eu disse na quarta, bem que ele podia aceitar. Seria histórico.

Lido: Inocência roubada

INOCENCIA_ROUBADA

Elissa Wall tem pouco mais de 20 anos e já publicou a sua autobiografia. Ela não é uma cantora nem uma atriz famosa, e tampouco ficou célebre por participar de algum reality show. O que Elissa fez de importante então ? Ela teve coragem.

Elissa nasceu e foi criada na Igreja Fundamentalista dos Santos dos Últimos Dias (IFSUD), uma seita dissidente do mormonismo que ainda pratica a poligamia e os casamentos arranjados. Ela foi a décima-nona filha de uma família que chegou a três esposas e vinte quatro filhos no total. Tanta gente junta num mesmo lugar raramente dá certo, e divergências internas em sua numerosa família fizeram com que ela fosse fragmentada. Vários de seus irmãos abandonaram a seita e sua mãe biológica foi dada em casamento a outro homem. Foi aí que seus problemas começaram.

Vinda de uma família tida como rebelde, Elissa foi escolhida para “servir de exemplo” e foi obrigada a se casar aos 14 anos com um primo em primeiro grau. Ela lutou com todas as forças contra esse casamento arranjado, mas nada pode fazer. A descrição da sua cerimônia de casamento e de sua primeira noite com o marido são perturbadoras, para dizer o mínimo, mas foram escritas sem sensacionalismo.

A descrição dos quatro anos em que Elissa passou casada são a parte mais pesada do livro. Ela precisou de muita força de vontade e tenacidade para sobreviver ao sexo forçado com o marido, aos seguidos abortos e a outras provações. Mas, como nos contos de fada, tudo deu certo para ela, que conheceu um ex-membro da IFSUD e  depois de muitos questionamentos e hesitações, acabou abandonando a seita e recomeçando a sua vida com ele.

A última parte do livro mostra a redenção de Elissa. Ela processou o “profeta” da IFSUD que arranjou e celebrou o seu casamento. Os EUA podem ter muitos defeitos, mas a justiça por lá ainda funciona, e em pouco tempo o “profeta” estava preso e seria condenado a dez anos de cadeia. Mas a coragem de Elissa lhe custou caro: sua mãe biológica e suas irmãs mais novas foram impedidas de entrar em contato com ela, um fato que ela não deixa de lamentar várias vezes.

A história da vida de Elissa pode ser chocante, mas o livro não cai no sentimentalismo barato nem pode ser encarado como uma vingança. A autora deixa claro que há muita gente boa no seio da IFSUD e credita o que aconteceu a uma liderança egoísta e mal intencionada e a um sistema de crenças ultrapassado e machista. Ela faz questão de frisar que passou bons momentos na infância com sua numerosa família e em nenhum momento perdeu a sua fé em Deus, o que para mim é, por si só, um milagre.

Veredito final: uma história chocante escrita com rara sensibilidade e sem apelar para o pieguismo. Altamente recomendável. Nota nove.

E se eu estivesse na Wikipedia

E, se de repente, no futuro, eu virasse um verbete na Wikipedia, eu queria que ele fosse mais ou menos assim:

Henderson Bariani (Osvaldo Cruz, 26 de novembro de 1974 – Osvaldo Cruz, 02 de novembro de 2028) foi um teólogo e escritor brasileiro famoso por sua trilogia de livros “O mundo de Nathália”.

Biografia

Henderson nasceu e viveu durante toda a vida no pequeno município de Osvaldo Cruz, interior do estado de São Paulo. Antes de se tornar escritor foi técnico em informática e funcionário público.

Em 2000, quando ainda trabalhava como técnico em informática, formulou a “Lei de Henderson das assistências técnicas de informática” cujo enunciado é “O número de parafusos sobressalentes numa assistência técnica de informática tende ao infinito”. Posteriormente ele modificou o enunciado para incluir a expressão “mas você nunca encontra aquele que precisa”.

Ainda como técnico em informática ajudou Lucas Torres Rosa a criar uma técnica primitiva para recuperação de discos rígidos danificados que ficou conhecida como “Tombo de Lucas” e que consiste em deixar cair o HD da altura de cerca de um metro de forma que a primeira parte que toque o chão seja o motor de acionamento, ajudando assim no seu destravamento.

Em 2006 teve seu primeiro texto publicado na coletânea de poesias “Tudo é poesia” da editora carioca Litteris.

Sua segunda publicação foi em outra coletânea, “As cartas que nunca mandei”, no ano de 2009.

“Contos Urbanos” foi seu primeiro livro solo, publicado sem grande repercussão em 2010 pelo “Clube dos Autores” e trazia textos publicados em seu blog e alguns inéditos.

Em 2012 formou-se em Teologia pela Faculdade de Teologia Sul Americana. No ano seguinte publicou seu único livro de teologia “Da metempsicose à reencarnação: um estudo sobre a crença em vidas sucessivas” que obteve algum sucesso nos meios especializados.

Dedicou-se aos estudos religiosos nos anos seguintes, chegando a fundar uma seita pseudo-cristã que misturava elementos cristãos e gnósticos que teve vida curta. Abandonou esses estudos e em 2020 publicou o primeiro volume da trilogia “O mundo de Nathália”.

“O mundo de Nathalia – surge o Anticristo” foi um grande sucesso. Sua continuação foi escrita rapidamente para aproveitar o sucesso e já em 2022 era publicado “O mundo de Nathalia – o reino do Anticristo” que bateu todos os recordes de vendagem do livro anterior.

Apesar da grande expectativa, foi somente em 2026 que foi lançada a última parte da trilogia. “O mundo de Nathalia – a batalha final” foi um retumbante sucesso, apesar de já terem se passado seis anos da publicação do primeiro volume.

Em 2028 boatos sugeriam que estava para ser lançado mais um volume de “O mundo de Nathalia”, mas Henderson negava qualquer especulação a respeito nas raras vezes em que dava entrevistas.

Morreu em 2 de novembro de 2028, de apoplexia, na casa onde morou por mais de 50 anos.

tombstone

Foto da lápide de Henderson

Polêmica post-mortem

Alan Victor Bariani, irmão e único herdeiro do espólio de Henderson publicou, em 2029, uma obra inédita supostamente atribuída a ele, intitulada “Outros contos”. Críticos literários, em especial a famosa catedrática Maysa Fernanda Leão contestaram a autenticidade do material publicado argumentando que o estilo era muito diferente do que havia sido publicado por Henderson em vida. Como Alan Victor se recusou a fornecer os originais da obra para uma avaliação independente, a polêmica sobre se este livro deve ser ou não incluído entre as obras de Henderson persiste até hoje.

Pelo Twitter eu convidei alguns blogueiros amigos a escrevem o seu próprio verbete na Wikipédia. Surpreendentemente, alguns aceitaram. Irei atualizando o post conforme novas contribuições forem aparecendo.

O do Frank no Ideiafix está aqui.

A Luciana do PDUT também está participando.

A Deborah do DehReloaded também nos mandou a sua contribuição.

A Cristine, do excelente Rato de Biblioteca, também imaginou o seu futuro aqui.

Bruna Guerreiro, do Quarto Escuro, imaginou seu artigo aqui.

Quebrando regras: comentando os comentários

Quando eu criei o Depokafé, a pouco mais de um ano e meio atrás, eu me impus uma regra básica: não criar um post para comentar os comentários que eu recebesse.

Bem, regras foram feitas para serem quebradas. Espero que essa seja a primeira e única vez que terei que fazer isso, mas fui atropelado pelos fatos.

Meu prezado leitor, minha cara leitora, antes de continuar a leitura desse post, eu gostaria que vocês lessem esse post sobre 10 curiosidades sobre a Bíblia. Leia tudo, inclusive os comentários. Eu espero.

Agora que você já voltou, talvez fosse útil você saber que esse post é o quinto post mais lido da curta história desse blog. E isso sem eu nunca ter feito divulgação dele em lugar nenhum e sem nunca ter sido citado por nenhum outro blog ou site. Um fenômeno de audiência (guardadas as proporções desse humilde blog, claro) que eu nunca consegui explicar totalmente, já que eu escrevi coisas muito melhores e que não tem nem um terço das visitas desse texto.

E é um texto inofensivo também. Não agride nenhuma religião cristã. Não está cheio das críticas (muitas vezes sensacionalistas) de blogs não-cristãos quando comentam algo sobre a Bíblia (ser ateu é “chique” na blogosfera). É basicamente um apanhado aleatório de fatos pouco conhecidos sobre a Bíblia reunidos por um amador que leu a Bíblia toda (três vezes) e mais alguns livros sobre Teologia. Em outras palavras: é livre interpretação bíblica.

Por isso, foi com muito desgosto que eu vi os comentários desse post se tornarem palco para pregações neo-pentecostais e ataques e contra-ataques de católicos a eles. Dos mais de oitenta comentários postados lá, só se salva uma meia dúzia.

Eu fiz tudo para tentar manter a discussão do post em níveis aceitáveis. Argumentei, tentei ser tolerante, ameacei. Mas sempre chega alguém que tem a mesma interpretação de texto de uma ameba defeituosa e joga a sua verdade na cara dos outros como se ele fosse e suas crenças fossem a única coisa certa nesse Universo. Por isso eu cansei.

Estou, a partir de hoje, fechando os comentários daquele post, por tempo indeterminado. Eu sei que isso vai contra o espírito democrático da blogosfera, mas que se dane. Não sei se isso vai afetar a audiência do post, mas não estou preocupado com isso.

Para os neo-pentecostais que comentaram por lá e que talvez voltem para ler esse texto, eu tenho a dizer que vocês muitas vezes me acusaram de ser católico injustamente. Bastava que vocês tivessem lido a minha crítica mordaz contra a Opus Dei ou as minhas reservas ao episódio da quebra do Banco Ambrosiano ou a “limpeza ideológica” feita com os que apoiavam a Teologia da Libertação que vocês já teriam percebido que eu não sou católico. E bastaria vocês terem um pouquinho, mas só um pouco mesmo, de interpretação de texto para perceber que aquele post não era uma defesa dos dogmas católicos. E tenho a dizer também que fiquei muito puto da vida por estar sendo criticado por estar fazendo livre interpretação da Bíblia, que foi um dos pilares da Reforma Protestante, da qual vocês não são nada mais do que filhos bastardos. E aproveito ainda para sugerir que se vocês querem fazer “pregação virtual” que procurem comunidades do Orkut ou blogs neo-pentecostais (eles andaram crescendo muito ultimamente, como eu observei nesse post). Meu blog não é o melhor lugar para isso.

Já para os católicos que resolveram fazer do meu post uma nova “cruzada” para defender os seus dogmas, eu sugiro que leiam o livro-entrevista do Papa João Paulo II, “Cruzando o limiar da esperança” (sobre o qual já escrevi um post). Nesse livro, quando ele foi perguntando porque Deus havia permitido que a religião cristã se dividisse em tantas religiões diferentes, ele respondeu que foi para que fosse reveladas várias nuances da palavra de Deus que não teriam sido possíveis se fosse uma igreja só. Ou seja, até o Papa mais popular e querido de todos os tempos vê coisas positivas entre os “cismáticos” como vocês gostam de chamar todos os não-católicos. Então aprendam a respeitar a fé dos outros. Hoje vocês ainda são maioria, mas se continuarem arrogantes o “vento” pode mudar em pouco tempo…

E para os meus leitores habituais, eu peço desculpas por esse texto em tom de desabafo, mas é que eu não aguentava mais. E tomara que eu não tenha nunca mais que fazer isso de novo. Como eu gostaria de ter comentaristas como os do Ideafix numa hora dessas…

A quase entrevista de João Paulo II

O Papa João Paulo II foi decididamente, um dos pontífices mais importantes da Igreja Católica. Sua participação foi decisiva para o fim do comunismo na Europa Oriental. O atentado contra a sua vida e as suas incontáveis viagens missionárias o tornaram o Papa mais popular do século, quiçá de toda a história da igreja.

Mas João Paulo II também era contraditório. Elevou aos altares ninguém menos que Josemaria Escrivá de Balaguer, fundador da contestada (mesmo dentro da Igreja Católica) Opus Dei. Na quebra do Banco Ambrosiano em 1982 Sua Santidade também teve atitudes dúbias e em até certo ponto, reprováveis.

A contradição foi a marca maior do papado de João Paulo II. Ao mesmo tempo em que se aproximava dos jovens e mantinha o caminho livre para a proliferação dos liberais da Renovação Carismática ele “pegou pesado” com a Teologia da Libertação (para o que contou com a ajuda decisiva do Ratzinger, hoje Papa Bento XVI) e não avançou um milímetro em questões fundamentais como a contracepção e o papel das mulheres na Igreja.

Diante disso tudo, pode parecer que o papado de João Paulo II não poderia ter sido mais surpreendente do que foi. Mas, para o seu espanto, meu católico leitor, minha devota leitora, poderia ter sido sim. Porque o Papa João Paulo II quase deu uma entrevista ao vivo para a TV italiana. Dá quase para imaginar o frisson que se seguiria a esse acontecimento. As TVs de todo o mundo brigariam a tapa pelo direito de transmitir a entrevista. Aqui no Brasil sairia provavelmente no Fantástico, com o Cid Moreira dublando o Papa. Já imaginaram ?

A entrevista iria ao ar em outubro de 1993 pela RAI, a maior emissora italiana. Naquele mês se comemoraria 15 anos do inicio do papado de João Paulo II. Para entrevistador foi escolhido o vaticanista – jornalista especializado na Cúria Romana – Vittorio Messori. A direção seria do cineasta italiano Pupi Avati. Uma reunião chegou a acontecer na residência de verão do Papa e tudo estava sendo feito na maior “surdina”. Como é de praxe nessas entrevistas, João Paulo II recebeu as perguntas formuladas por Messori com antecedência.

Mas a entrevista não se realizou. O Vaticano alegou falta de tempo, já que naquele mês de outubro de 1993 o Papa já tinha visitas marcadas ao Japão e aos países bálticos da Letônia, Estônia e Lituânia. Mas o próprio Messori acha que setores mais conservadores da Cúria Romana “gentilmente” convenceram o Papa a não dar um passo tão ousado assim.

O caso teria sido esquecido se não tivesse acontecido algo surpreendente: meses depois da data marcada para a entrevista Messori recebeu uma mensagem do Papa dizendo que havia gostado das perguntas, que elas mereciam uma resposta e que estava as respondendo por escrito. Em abril de 1994 Messori receberia das mãos de Joaquim Navarro-Valls, então porta-voz do Vaticano (e membro da Opus Dei também) as respostas do Papa. Elas acabaram sendo lançadas em livro, “Cruzando o limiar da esperança”.

“Cruzando o limiar da esperança” não é um livro fácil de ler. O estilo de João Paulo II é “denso” e extremamente culto. A cada duas frases ele cita um trecho da Bíblia, de algum “Doutor da Igreja” (santos que se destacaram em matéria de Teologia), alguma Encíclica ou Bula, ou a decisão de algum Concílio (especialmente do Concílio Vaticano II, do qual ele participou). Mas o livro tem algumas passagens belíssimas. Como essa, quando perguntado sobre os muçulmanos:

Todavia, a religiosidade dos muçulmanos merece o maior respeito. Não se pode deixar de admirar, por exemplo, a sua fidelidade à oração. A imagem do crente em Alá que, sem ligar para o tempo e lugar, cai de joelhos e mergulha na oração é um modelo para os confessores do verdadeiro Deus, em particular aqueles cristãos que, desertando suas maravilhosas catedrais, rezam pouco ou não rezam absolutamente em tempo algum.

Já imaginaram o impacto que essas palavras teriam se tivessem aparecido nas TVs do mundo mundo e não num livro que quase ninguém leu ? Um Papa elogiando os muçulmanos em rede mundial (tá certo que um pouco antes ele havia criticado o processo de “redução da Revelação Divina” que se vê no Alcorão, mas tudo bem) teria uma repercussão difícil de avaliar hoje em dia.

Infelizmente essa entrevista não se realizou. Seria um dos grandes momentos do papado de João Paulo II. E as TVs teriam algo para exibir depois da sua morte. Como o Papa Bento XVI é mais linha-dura, temos que torcer para o seu sucessor ser um liberal para poder preparar a pipoca para assitir ao Cid Moreira dublando o Papa (se ele ainda estiver vivo, claro. Senão vai ser o Sérgio Chapelain mesmo). Quem viver, verá. Ou não.

O primeiro anti-Cristo

Hoje em dia quase ninguém sabe quem foi Apolônio de Tiana. Mas se você fosse um cristão do primeiro século teria grandes chances de considerá-lo uma séria ameaça ao nascente cristianismo.

Apolônio se iniciou no estudo da filosofia aos 14 anos em Egos, vizinha  de Tarso (sim, a terra natal de São Paulo). Depois de pular de um sistema filosófico para outro acabou conhecendo a filosofia de Pitágoras, que abraçou com entusiasmo: a crença na metempsicose, na abstinência sexual e de carne e no estudo da boa filosofia. Submeteu-se aos jejuns obrigatórios, deixou a barba e o cabelo crescer, deixou de tomar vinho, andou descalço, ficou cinco anos sem dizer uma palavra.

Já iniciado nos mistérios pitagóricos, passou a residir no templo de Esculápio, onde foi iniciado na técnica da cura mística, que ocorria através dos sonhos. Depois arrebanhou sete discípulos e passou a viajar pelo mundo. Esteve na Capadócia e ficou oito anos em Antioquia (onde os cristãos foram chamados pela primeira vez por esse nome) onde se esforçou para tentar restaurar o culto à Venus.

Sempre acompanhado de seus seguidores, partiu para uma longa viagem á Babilônia, Índia e Nepal. Ao conversar com os monges budistas suas convicções sobre a pluralidade das existências se confirmaram. Voltou diretamente para Éfeso onde os prateiros, que haviam acabado de expulsar São Paulo, receberam alegremente a sua pregação, pois ele falava o que o povo queria ouvir, especialmente quando estimulava a adoração às divindades femininas e a metempsicose.

Seu sucesso em Éfeso o levou a pregar em outros lugares: esteve em vários santuários gregos. Sua eloquência reencarnacionista e suas curas milagrosas fizeram muito sucesso em lugares como Lesbos, Creta, Olímpia e Atenas (onde São Paulo também não teve muito sucesso).

Também esteve em Roma, na Espanha, voltou à Grécia e chegou a ir ao Egito, onde conheceu o futuro imperador romano Vespasiano que, depois de subir ao trono, se correspondia regularmente com ele. Também foi amigo do imperador seguinte, Tito, a quem felicitou por ter recusado a celebrar a destruição de Jerusalém no ano 70.

Apolônio estava na “crista da onda” do sucesso em Alexandria quando o novo imperador, Domiciano, que já havia exilado São João em Patmos (onde ele escreveria o Apocalipse), ordenou a sua prisão. Dando uma mostra de coragem, ele partiu para Roma, onde foi preso e humilhado. Seu discípulo e biógrafo Damis conta que enquanto esteve preso na Cidade Eterna ele apareceu ao mesmo tempo a ele e a um outro discípulo que estava a quarenta léguas de distância.

Com a revogação do édito de Domiciano, Apolônio e São João escolheram o mesmo lugar para voltar: Éfeso.

Éfeso era importante para a expansão do cristianismo. Foi a cidade onde São Paulo passou mais tempo – um ano e meio. Seu importante porto a tornava o lugar ideal para pregação, que poderia se estender de lá a metade do império Romano.

Damis conta que em Éfeso Apolônio teve uma visão do imperador sendo morto, o que se confirmou depois. Os cristãos de Éfeso ficaram muito assustados com esse poder de Apolônio. Decidido a combate-lo, São João não saiu mais de lá, onde ressuscitou um morto e fez vários outros milagres para confirmar a fé dos neófitos.

No ano 97, já com mais de 90 anos, Apolônio voltou a Creta, onde entrou no templo de Diana para nunca mais sair. Seu biógrafo Damis conta que ele foi “elevado aos céus”. E seu corpo não foi mesmo encontrado no templo. E foi depois da sua morte que Apolônio deu mais trabalho ainda aos cristãos.

Em sua terra natal, Tiana, e em Éfeso, ele foi adorado com um deus. Em Roma ergueram-se estátuas em sua homenagem. Os pitagóricos e os platônicos, decididos a combater o então emergente cristianismo, passaram a compara-lo a Cristo. Pois, assim como ele, fizera viagens missionárias, efetuara curas, havia triunfado sobre a morte. Assim como Jesus entrou em Jerusalém, Apolônio foi a Roma: sem medo do perigo. Assim como os apóstolos após o Pentecostes, ele teve o dom das línguas. Inventaram até uma mitologia sobre o seu nascimento, com a participação do deus Apolo. Ou seja, ele foi considerado a antítese de Cristo. Ou o primeiro anti-Cristo, se você preferir.

Mas nem a eloqüência de Apolônio salvaria o decadente helenismo. O cristianismo já começava a se espalhar pelo Império Romano. Em 313 Constantino acabaria cessando a perseguição ao cristianismo. Seu sobrinho e sucessor Juliano tentou ainda uma última cartada para restaurar o helenismo, mas morreu jovem. E então Apolônio passou a ocupar somente os rodapés dos livros de história. Ou, como é mais comum, nem isso.